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03 novembro 2019

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Os Moleiros

03 novembro 2019 0 Comentários
ERAM OS PRIMEIROS A CRIAR CONDIÇÕES PARA HAVER O «PÃO NOSSO DE CADA DIA».



Utilizavam a força da água do rio Sever numa obra de destreza humana impressionante. 



Aproveitaram desde tempos ancestrais o caudal do rio quase inexistente a cada Estio para fazerem açudes de lajes de xisto a travar outras lajes que depois quando o rio tinha caudal forte entre finais de Outono e a Primavera desviar a água para o interior das azenhas cuja força da corrente conseguia rodar as mós, moendo o cereal. 




Os açudes no rio permitiam tanto interromper o caudal impetuoso como represar a água, quando corria pouco, fazendo um fluxo forte para mover a pesada mó que esfarelava o grão. Quando não era necessário deixavam o rio correr. Quando havia pouca água no caudal do rio represavam-na pois os açudes tinham um "poço" (pégo) que juntava um volume de água gigantesco para depois ser enviada para passar dentro da azenha e fazer o que tinha de ser feito pois foi para isso que desde tempos de antanho se construíram açudes e azenhas. 



Com o moinho eléctrico construído junto à «Cabine» (instalada em 1948) na rua das Traseiras os sete moinhos do rio foram perdendo importância pois o esforço repartido entre homens e animais era gigantesco. Subir e descer as «Barreiras do Rio» carregando sacas de cereal (barreira abaixo) ou de farinha (barreira acima) era tarefa hercúlea.


Nas cartas topográficas mais antigas - antes da inauguração da Barragem de Cedillo (26 de Outubro de 1975) - é possível localizar as sete azenhas de rio do lado português.

Há ainda um "molino" mais a jusante no rio Sever também do lado espanhol, o Molino do ti Zé do Reté na latitude (mais ou menos dos Dourados). É provável aquando do trabalho de campo - se realizado no Inverno - para elaborar esta Carta Topográfica (escala 1/25 000) publicada em 1968 o molino estivesse submerso pois era o que lhe ocorria metade do ano, muitas vezes entre novembro e abril de cada ano hidrológico. A lógica dos moinhos de rio (azenhas) era funcional. Ver NOTA FINAL  

HOUVE DEZENAS DE MOLEIROS EM SETE SÉCULOS MONTALVANENSES.





No século XX (Anos 30 a 60), houve o Ti Morujo e o Ti Mané Bento na rua da Costa, o Ti Mané Pedro na rua das Almas, o Ti Zé do Reté e o Ti Ica na rua da Barca, o Ti Juan Belo na rua do Outeiro, o Ti Panim na rua do Cabo e ainda o Ti Chapa da rua de São Pedro. Tantos e tão poucos o que ilustra a importância de quem conseguia transformar o grão em farinha para ser pão. 


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Os Moleiros eram os que continuavam o ciclo do pão que começava por ser semeado, mondado, ceifado, debulhado, "limpo" e ensacado. Quando saía o "agricultor" entrava o Moleiro. Este recebia as sacas de trigo - ou de outro cereal - "Levava-as ao Rio" nas suas parelhas, manobrava as seculares "engenhocas" para fazer rodar as mós e transformava o grão em farinha. Era carregar os asnos e regressar à povoação. Depois o dono do grão pagava o trabalho do Moleiro em farinha e o Moleiro tinha pão para comer e vender. Tudo à míngua. 

Havia também Moleiros que compravam o grão, transformavam em farinha e depois vendiam-na a quem não tivesse grão por não poder semear, por falta de terrenos mas necessidade de comer pão.




Com o Moinho Eléctrico criou-se uma divisão entre os Moleiros tradicionais e os dois que tinham usufruto do moinho junto à Cabine, o Ti Chapa e o Ti Panim.

E depois ainda mais modificações. A final. Com a abertura das duas padarias. Uma no início da rua de São João e outra junto à «Cabine» para aproveitar o moinho eléctrico. Tudo acabou. Os Moleiros passaram a fazer parte do nosso imaginário montalvanense.



Entre eles o que me traz mais recordações é o Ti Ica. E por dois motivos. Sempre achei curiosa a "Casa do Marco". O Ti Ica vivia na casa - talvez a primeira da rua da Barca, embora ali não se saiba bem se já é a rua da Barca, mas é uma artéria que é estrada pois lembraram-se de colocar junto a ela um marco quilométrico que assinala : Salavessa: 8 km; Montalvão: 0 km. Sempre me ri com esta informação. Principalmente a última! Além disso a minha mãe sempre falou muito bem do Ti Ica ou não fosse ele o pai de algumas das suas amigas de infância. 

Próxima "paragem": Os Forneiros

NOTA FINAL1: Em rios que têm o caudal muito dependente da precipitação (caudal pluviométrico) como era o rio Sever antes da construção da Barragem, a corrente de água sofre prolongadas estiagens (actualmente é um "lago" devido à água do rio Tejo que a barragem "obriga" a invadir o leito do rio Sever). As azenhas mais a montante trabalham de Inverno mas depois deixam de poder trabalhar na Primavera. As azenhas mais a jusante podem até trabalhar no Verão em anos hidrológicos intensos. A azenha do Moinho Branco (quase no limite da fronteira entre Montalvão e Póvoa e Meadas, que é na confluência da ribeira de São João) era a primeira a trabalhar (logo pouco após as primeiras chuvadas) e a primeira a deixar de trabalhar (Primavera). A azenha do Ti Zé do Reté (a mais próxima da confluência do rio Sever com o rio Tejo) era a última a começar a trabalhar mas também a última a deixar de trabalhar e até podia, em anos hidrológicos com muita precipitação, trabalhar todo o Verão. No Inverno ficava debaixo de água! Ainda uma nota para o tempo em que havia fronteira aduaneira entre Portugal e Espanha. Legalmente, os sete moinhos portugueses só trabalhavam com cereal de Portugal e os dois espanhóis com cereal de Espanha. Mais uma nota, pois os moleiros partilhavam quer os moinhos, quer os momentos do ano hidrológico para poderem satisfazer o que davam à sociedade e aos montalvanenses: trabalho e farinha!   




NOTA FINAL2: Embora correndo o risco de tornar este texto muito extenso é importante publicar um registo que confirma, o que seria de supor, os moinhos do rio devem datar do início do povoamento pois não se vive sem pão e para haver pão tem de se transformar o grão em farinha. No Inventário que foi pedido aos párocos do todo o País para avaliar os danos causados pelo Terramoto do 1.º de novembro de 1755, o pároco de Montalvão, Vigário frei António Nunes de Mendonça é inequívoco, em 24 de abril de 1758 na resposta à complexa pergunta se a localidade tinha serras e como eram e se tinha rios e como eram. A resposta ocupa um terço do inventário por isso a sua publicação integral ficará para um dia destes. Em relação ao rio Sever moinhos e caudal o pároco não podia ser mais exaustivo: 

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         Não tem esta Villa no seu termo Serra alguma, nem nella nascem rios alguns; excepto dois, que correm pello termo, que divide este Reyno do de Castela; hum hé o Rio chamado Sever, que nasce no termo da Villa de Marvaõ, que dista cinco légoas desta Villa. E vai morrer no Rio Tejo, no termo desta Villa; e tem este sete, ou oito légoas de comprido; tem ponte de pedra em distância de uma légoa no termo de Marvaõ aonde chamam a Portagem; porque logo começa o seu cursocaudálico; tem moinhos e assudes; e naõ hé nem pode ser navegável, porque corre por terras muito fragosas e apertadas; hé livre, e somente tem alguns moinhos de paõ, que pagam foro ao Conde de Povolide Senhor da Commenda desta Villa = Das suas águas usaõ os moradores desta Villa com liberdade =...

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.... e corre este rio de sul a norte; e nele entra no termo desta Villa uma ribeira, que chamam de Sam Joaõ, que nasce no termo da da villa de Castello de Vide, e vem passando pelo termo da villa de Póvoa e Meadas, até este termo aonde se acaba o ditto rio; e também tem esta ribeira alguns peixes, e algumas árvores silvestres; e no tempo de veraõ suspende as suas correntes, e fica alguma ágoa represada, em algumas funduras, que tem; o rio acima dito hé caudaloso e sempre corre com ímpeto; mas no tempo de veraõ hé menos impetuoso o seu curso; de sorte, que um destes anos em que houve esterilidade d'ágoas se vio totalmente exausta a sua corrente -
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28 outubro 2019

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Os Sapateiros

28 outubro 2019 0 Comentários
HOUVE DEZENAS DE SAPATEIROS EM SETE SÉCULOS MONTALVANENSES.



No século XX (Anos 30 a 60), houve o Ti Alexandre na rua Direita, o Ti António Tomás ao virar da Praça para a rua de São Pedro, o Ti Zé Maria na rua do Outeiro, o Ti Mané Marques na rua da Costa e ainda o Ti Xico da rua de São Pedro. 

Como em todas as atividades e ofícios há sempre uns com mais jeito outros com menos. Uns mais dedicados outros menos. Uns que têm mais vontade de aprimorar os conhecimentos e outros com menos. Uns mais conceituados e outros menos. No ofício dos sapateiros até se fazia a distinção entre os "Remendões", os "Meias-solas" e os "Artistas". Em Montalvão também deve ter sido assim entre dezenas de sapateiros que existiram desde o início do povoado. Mas se foi não é isso que me chegou. Ouvi elogios a todos eles. Uns por uns motivos e outros por outras situações. O que não deixa de ser um orgulho para um montalvanense saber que o montalvismo supera rivalidades e questiúnculas próprias de uma convivência intensa num dia-a-dia difícil e exigente onde a pobreza espreitava a cada pedaço de pão.

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Como é evidente - por motivos mais familiares que outros, pois infelizmente já não conheci nenhum sapateiro montalvanense em plena atividade a exercer o Ofício na sua Oficina - vou escrever acerca do Ti Zé Maria.

Era um artista de grande qualidade. Num tempo em que os montalvanenses primavam por andar descalços - enquanto os pés não estabilizassem o crescimento - ou utilizar calçado usado por irmãos mais velhos, o que dominava no empedrado dos ponedros das ruas ou poeira dos caminhos e azinhagas eram as alpargatas espanholas contrabandeadas ou compradas na loja do señor Fabião. 



Mas as cachópas (raparigas em montalvanês) quando queriam uns sapatos que transformassem, para algumas, os pés de Gata Borralheira em pezinhos de Cinderela iam bater à porta do Ti Zé Maria. Ele com toda a boa vontade do Mundo olhava para aqueles delicados pés e fazia magia. De pedaços de couro e sola surgiam brilhantes sapatos delicados que enterneciam as cachópas e faziam sonhar os cachôpos. 



Eis o exemplo de um artesão que calçou (e bem) algumas gerações e centenas de montalvanenses.

Próxima "paragem": Os Moleiros
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27 outubro 2019

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Os Artesãos

27 outubro 2019 0 Comentários
NOS ANOS 40 MONTALVÃO ATINGIU O APOGEU DEMOGRÁFICO E NA DÉCADA DE 50 APRIMOROU A CAPACIDADE DE MONTALVANENSES TEREM ARTE E OFÍCIO PARA PERMITIR MELHORAR A QUALIDADE DE VIDA DA COMUNIDADE.

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Com quase dois mil habitantes, muitas necessidades e pouco dinheiro os montalvanenses tinham nos seus artesãos as referências para um dia-a-dia de dificuldades. Montalvão era um enorme e carinhoso "Supermercado-a-céu-aberto-do-tamanho-de-uma-povoação" onde o engenho e arte de alguns povoavam os sonhos e eram a realidade de todos.

Numa aldeia com tão elevada densidade populacional incluindo ruas de casas estreitas e ofertas longas os ofícios ainda hoje soam a referência nos sonhos dos montalvanenses, quer habitem ou não, em Montalvão. 



Todos merecem destaque. Todos terão destaque na medida em que quem escreve neste blogue os tiver conhecido, melhor ou pior. Serão testemunhos pessoais ou ouvidos de familiares, alguns dos quais já não estão por cá. Quero acreditar que todos eles, familiares ou acerca de quem se escreverá, num futuro próximo, neste espaço, por lá continuam, pois vivem na memória coletiva dos montalvanenses. São as estrelas que se observam em noites de Lua Nova a cintilar por cima do nosso Montalvão.

Próxima "paragem": Os Sapateiros

NOTA 1: A «Planta Funcional de Montalvão» que ilustra a abertura deste texto com a localização dos ofícios nos Anos 50 foi elaborada a partir de uma imagem de fotografia aérea obtida em 23 de maio de 2015 (a qualidade técnica da obtida em 25 de junho de 1955 não permite trabalhar sobre a mesma com rigor) mas localiza os artesãos nas suas oficinas e habitações tendo como referencial os Anos 50. Como se sabe houve mudanças, principalmente no número de habitações entretanto construídas (cerca de mais 30) além de profundas alterações na fisionomia de inúmeros prédios, mas também em alguns que, na atualidade, resultam de aglutinações de dois e até de três edifícios. 



NOTA 2: Serão considerados "Artesãos" os montalvanenses que no Recenseamento Geral da População realizado em 15 de dezembro de 1950 (o de 1940 apresenta menor diversidade e o de 1960 não foi objeto de consulta) afirmam ter como rendimento principal determinado ofício. A consulta foi feita, no INE (Instituto Nacional de Estatística), entre 1983 e 1984. Depois a informação foi aferida - principalmente por não haver indicação do número da porta que é uma inovação de final do século XX - com montalvanenses que seriam à época contemporâneos dos artesãos, ou seja nascidos entre a última década do século XIX e as duas iniciais do século XX.


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25 outubro 2019

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Montalvão 1950

25 outubro 2019 0 Comentários
O APOGEU DEMOGRÁFICO DE MONTALVÃO OCORREU EM MEADOS DOS ANOS 40 DO SÉCULO XX.


Registo do cadastro rústico na freguesia de Montalvão, cartografado, entre meados da década de 50 e início dos Anos 60

Como não há registos demográficos anuais é necessário recorrer ao Recenseamento Geral da População mais próximo desse auge em número de habitantes, o de 1950 com 2 649 pessoas (menos 23) que há dez anos, no Censo de 1940 (com 2 672 habitantes), mas ainda com reflexos na povoação desse apogeu que deve ter sido conseguido por volta de 1945 a 1947. 
O Recenseamento Geral de 1950 permite obter informação interessante, arquivada no Instituto Nacional de Estatística (os inquéritos por família e individuais realizados em 15 de dezembro de 1950) e nunca publicados ao nível de freguesia, pois a informação detalhada que está publicada só "desce" até ao nível concelhio.


(clicar em cima da imagem para obter melhor visualização)


Legenda: HM/MH - Homens e mulheres; H - Homens; M - Mulheres

Em Montalvão, o Censo de 1950 regista, no aglomerado populacional, sede da freguesia, 1 917 montalvanenses residentes e 483 edifícios construídos com 474 habitados e destes 41 partilhados, ou seja, o mesmo edifício habitado estava dividido - fisicamente, havendo portas separadas para serventia casa/rua - por duas famílias além de cinco (registadas e publicadas) convivências, ou seja, cinco famílias que se encontravam a viver em conjunto, neste caso pais e filhos (ambos casados) habitando o mesmo "fogo".


Sem ter certeza absoluta (só vendo o registo predial) este parece ser um exemplo - em 1950 havia 41 situações destas em 474 edifícios - de uma prática que o sistema de partilhas teve consequências: o mesmo prédio/edifício dividido por duas famílias (metade/metade: neste caso, cada uma com uma porta e uma janela) 

Com os inquéritos é possível saber o número de edifícios habitados em permanência ou habitados mas tendo a família ausente aquando do momento do Censo) por rua tendo em conta a serventia principal pois há edifícios com serventia (portas) para duas ruas. Também foram registados os edifícios de utilização coletiva, essencialmente Igrejas e Capelas, mas também a «Casa do Povo», o «Clube Montalvanense», os «Correios», a «Cabine», o «Lagar de Azeite», os «Fornos», etecetra, mas esses não se enumeram. Apenas os 474 habitados no momento do Censo ou habitados mas de momento (15 de dezembro de 1950) não ocupados. Não inclui o Monte do Santo André nem o Sítio do Bernardino («Burnáldino» em montalvanês). Por rua:

136 - Rua Direita (com rua do Outeiro, rua do Cabo e a travessa da Porta de Cima);

  83 - Rua de São Pedro (inclui duas "ruínhas" e a travessa do Bruzuneiro);

  44 - Rua da Corredoura (inclui a casa do senhor Zé Godinho; não inclui o «Lagar de Azeite», nem a Capela do Espírito Santo e de Santo António);

  42 - Rua da Barca;

  35 - Rua da Costa;

  32 - Rua do Arneiro (inclui Escadinhas do Açougue);

  25 - Rua de Ferro;

  23 - (Rua do) Arrabalde

  14 - Rua da Porta de Baixo;

  13 - Rua de São João (a sul do entroncamento entre o Arrabalde, a rua do Arneiro e a rua da Porta de Baixo);

   7 - Rua das Almas (não inclui o antigo lagar transformado em carpintaria);

   6 - Praça (da República); 

   5 - (Rua das) Traseiras (inclui rua da Cabine);

   4 - Travessa da Praça (não inclui a entrada para o antigo "Hospital da Misericórdia");

   3 - (Rua do) Adro;

   2 - Largo da Igreja (Matriz)

NOTA: Há topónimos atualmente mal atribuídos a merecerem textos neste blogue. Por exemplo: 
1. Rua do Hospital (e não «Travessa da Praça»);
2. Rua do Ferro (e não «Rua de Ferro»);
3. Rua da Igreja (e não «Largo da Igreja» e «Rua do Adro»);
4. Largo da Corredoura ou Corredoura/Calvário (e não «Rua da Corredoura»);
5. Rua das Portas de Cima ou Portas de Cima (e não «Travessa das Portas de Cima»);
6. Azinhaga de São Pedro (e não «Travessa do Bruzuneiro»).


Montalvão em 25 de junho de 1955

Outra informação que consta da recolha desse Censo de 1950 são as profissões, com destaque para os ofícios que vão merecer destaque neste blogue durante os próximos meses. Com um número próximo dos dois mil habitantes (quase três mil em toda a vasta extensão territorial da freguesia) a povoação permitia a sobrevivência de quase dez por cento dos montalvanenses com atividades remuneradas sem estarem ligados ao setor agrícola. São 23 ofícios, alguns "enquadrados à força" na lista das profissões definidas para o IX Recenseamento Geral da População como consta na lista em anexo. 


    
Contar a História e estórias relacionadas com os ofícios estabelecidos dentro da rede viária montalvanense é do mais interessante e entusiasmante que existe
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21 outubro 2019

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A Vida Danada

21 outubro 2019 0 Comentários
OS MONTALVANENSES MUITO SOFRERAM COM A DEBILIDADE DOS TERRENOS.



Que necessitavam para produzir alimentos. O «pão para a boca». Instalaram-se num Monte majestoso tendo por baixo uma paisagem deslumbrante mas os terrenos são do pior que há em Portugal. E os poucos que ainda permitem alguma agricultura produtiva - o resto era quase semear para não perder a semente - foram terrenos que melhoraram com séculos a serem trabalhados por montalvanenses e animais, arando, cavando e estrumando. Na «Carta de Capacidade de Uso do Solo» os poucos da classe B (pois a melhor, a A, é inexistente) são resultado dessa ação durante mais seis séculos de trabalho agrário - agricultura e organização agrícola - e como é óbvio domina a classe E, ou seja, terrenos sem aptidão agrícola (na legenda cartográfica a amarelo) que tal como os do classe D (na legenda cartográfica a castanho claro) só têm capacidade para silvicultura e pecuária. 


Tabela explicativa para a Carta de Capacidade de Uso do Solo; Secretaria de Estado da Agricultura; Escala 1/50 000

Apenas nas cumeadas há terrenos minimamente aceitáveis - classe C  (na legenda cartográfica a cor-de-rosa) para conseguir fazer agricultura de qualidade mínima.

(clicar em cima da imagem para obter melhor visualização)


Extrato da folha 28-B da Carta de Capacidade de Uso do Solo; Secretaria de Estado da Agricultura; Escala 1/50 000; Lisboa; 1969

Mas em Montalvão quase 80 por cento deles eram semeados até aos Anos 50.


(clicar em cima da imagem para obter melhor visualização)


Extrato da folha 315 da Carta Agrícola e Florestal de Portugal; Secretaria de Estado da Agricultura; Escala 1/25 000; Lisboa; 1967

E o Vale d'Ordas como propriedade valiosa (devido à represa de água) com um laranjal e com capacidade para produzir... arroz em anos de muita precipitação.



Tudo o tempo levou...   
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18 outubro 2019

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Clube Montalvanense

18 outubro 2019 0 Comentários
EM MONTALVÃO DURANTE MAIS DE UMA DÉCADA EXISTIU UM CLUBE. 



Um clube localizado na rua da Barca, numa casa arrendada à Xá Joana Gordo, onde os Lavradores («ricos» em montalvanês) se juntavam mas não era elitista. Apesar de se ter organizado como contraponto à «Casa do Povo» que também era dirigida pelos Lavradores (ver NOTA FINAL) estes permitiam o acesso a todo (e qualquer) montalvanense às instalações do «Clube Montalvanense». A primeira televisão que existiu em Montalvão foi instalada no «Clube Montalvanense» possibilitando a muitos ver televisão logo no final dos Anos 50.

A RTP (Rádio Televisão Portuguesa) teve emissões regulares desde 7 de março de 1957 (quinta-feira). Em Montalvão, pouco tempo depois, o «Clube Montalvanense» disponibilizava um aparelho.



Em 8 de março de 1957 (sexta-feira)



O «Clube Montalvanense» teve telefone estando registado na respectiva lista em 1960/61, mas já não consta da lista telefónica de 1970/71.




O «Clube Montalvanense» começou por ter casa arrendada na rua de São Pedro (em baixo na imagem) mas esteve por lá pouco tempo - talvez nem um ano completo - devido à exiguidade das instalações, arrendando depois melhor edifício na rua da Barca.


Edifício da origem do «Clube Montalvanense» na rua de São Pedro

NOTA FINAL: Primeiros Corpos Gerentes da Casa do Povo (instalações iniciais no edifício de gaveto entre a rua Direita e a ruinha para a rua de São Pedro em frente à taberna do Ti Jaime) em 13 de janeiro de 1942, inauguração oficial em 3 de maio de 1942, mas a funcionar desde 1 de abril de 1942:

Assembleia Geral
Presidente: Dr. José Augusto Fraústo Basso
Primeiro Vogal - António Joaquim Fraústo
Segundo Vogal - António Joaquim Belo

Direção
Presidente - César de Faria Pimentel
Secretário - António Possidónio Ramos
Tesoureiro - António de Oliveira Falcão 

CLUBE MONTALVANENSE. Pouco durou, mas é um marco no montalvanismo
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16 outubro 2019

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Os Agricultores e Os Artesãos (II)

16 outubro 2019 0 Comentários
DEPOIS DO CICLO DA AGRICULTURA - FALTARÁ ESCREVER ACERCA DOS LAVRADORES E DO PROLETARIADO RURAL, BEM COMO DAS QUESTÕES AGRÁRIAS - HÁ QUE FAZER REFERÊNCIA AOS OFÍCIOS.



Montalvão como uma das maiores povoações a sul do rio Tejo era auto-suficiente (ou quase, pois sempre havia as três feiras anuais em Nisa) permitindo sobreviver uma vida com muitos montalvanenses durante séculos a nunca saírem dos limites da freguesia.

Os artesãos
Só era possível isso ocorrer - uma economia baseada nos bens existentes na freguesia - pelo facto de se explorar um vasto território agrícola e os artesãos fabricarem, venderem e trocarem bens feitos por eles suprindo as necessidades uns dos outros, ou seja, davam alguma qualidade de vida aos montalvanenses.

Foi assim durante séculos
Ainda assisti aos últimos artesãos de Montalvão. Ainda os vi trabalhar. Quantos "mandados" não fiz a casa deles a pedido das minhas avós. Até passar pelas tabernas onde poucos homens montalvanenses não abancavam umas boas horas por dia. Vai lá chamá-los, diziam as esposas!

Por muito que vá tentar escrever acerca de documentos que consultei (principalmente para se publicarem dados demográficos e de qualidade da habitação nos Censos)
Com destaque para o de 1950 - que permite saber muito de Montalvão - seria injusto tornar a divulgação impessoal e factual. Era estar a trair a minha formação em criança e início de adolescência em que sempre me senti acarinhado, por todos, sem exceção: dos lojistas, aos barbeiros (no meu caso, corte de cabelo), João Belo Lucas (Pêpê), Zé Fidalgo e gente dos «Sete Ofícios». 

De Lisboa a Montalvão
Entre os Verões de 1968 e o de 1977 foram dez anos consecutivos, praticamente sempre entre o dia 13 de junho e o dia 27 ou 28 de setembro. Mais algumas idas pelo Natal, Carnaval e Páscoa. Enquanto em Lisboa era tudo mais impessoal embora vivendo entre bairros populares (Graça, Alfama, Mouraria, Bairro Alto e Bica) em Montalvão regressava-se a uma espécie de Eden. Um jardim de afetos. Lembro-me de nas lojas as esposas perguntarem aos balconistas - Ti chequim da Tróia, senhor Falcão e senhor Jaquim: «Quem é o cachôpo (rapaz) que está grave (roupas à moda de Lisboa)?». «É o neto do Ti ... ou da Xá ...» - respondiam. Estava apresentado pelo lado dos avôs ou avós! Garantia de consideração mútua.

Muito do que sou
Fiquei a dever a todos eles, pois indo por lá apenas três meses por ano, respeitavam-me mesmo sendo um miúdo e eu sempre retribui (penso que nunca falhei) com respeito por quem tinha estima por um rapaz pacato que apenas devia ser para eles muito curioso pois tenho estórias com todos eles e recordo-me de algumas como se fossem hoje. Talvez por não ser uma convivência diária onde é sempre possível haver desavenças mas apenas de ano a ano. Felizmente só recordo estórias engraçadas com todos eles. Principalmente com os três lojistas e os dois alfaiates, o Ti Zé Maria e o Ti Chico. Mas também dos dois cafés, o Senhor João Pereira (partiu muito cedo desta vida e da Vila) com os matraquilhos e o seu reboque de trator implacável que corriam Pé da Serra, Salavessa e Póvoa à cata das Festas e o Café Belo, o do Ti Tomás que tocava no sopro, em deleite, na Praça de Touros: «Toocaaaa a aaggarrrar». Eu ouvia letras saídas da sua corneta que devia ter magia. Ainda o Ti Domingos Ferrador ou o Ti João Henriques da Xá Hermína e da camioneta Bedford que rasava as casas na rua do Arneiro marcando as paredes para a eternidade. Até o señor Fabião, em Casalinho, por ser «Outro Mundo» o do "pirex". Nem em Lisboa se comprava tudo em embalagens já calibradas, em peso (quilo) ou capacidade (litro)! Nunca me esqueci de algumas delas e por vezes rio-me para mim mesmo quando penso nelas.

Era feliz e não sabia...

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14 outubro 2019

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Montalvão Quatro Estações

14 outubro 2019 0 Comentários
A LOCALIZAÇÃO ALTANEIRA DE MONTALVÃO FAZ DELA UM MIRADOURO PARA O MUNDO DA NATUREZA.



O sublime músico Antonio Vivaldi até parece que se inspirou em Montalvão para compor as "Quatro Estações".



No Outono
Dias cada vez mais curtos e noites longas. O "lume" aceso mais cedo e a chamar pelos montalvanenses logo ao Pôr-do-Sol. Folhas amareladas em queda, vento frio do lado de Castelo de Vide. Uns pardais a chilrear e pouco mais.



No Inverno
De vez em quando neva. Não nevando a geada encarrega-se de nos fazer a vida negra com a água que ficou da chuva de noite logo de manhã encaramelada nas poças. Poucas folhas nas árvores do Adro a não ser o cipreste do Castelo que uiva que nem um doido sem rumo. Eh... Vózinha?! Não há cobertores a mais que estes cinco são poucos pois o lençol parece que saiu agora da barrela de tão húmido que se sente!? 



Na Primavera
Os campos enchem-se de bonitos e malmequeres. As mulheres coram a roupa na «mari-neta» que se perfuma com o pólen das flores fazendo concorrência às abelhas que procuram as belas flores das xaras. Há que descobrir os ninhos que florescem desde as laranjeiras (pintassilgos) às rolas (nos sobreiros), mais os piscos (nas oliveiras) e o cegonho e cegonha na torre do relógio da Igreja. As andorinhas é que não são esquisitas. Um beiral branco, uma dúzia de ninhos.



No Verão
Dias e noites do vento suão. Calor de derreter. Sobram as brincadeiras até madrugada dentro. A Festa dos três dias. Os mergulhos na barragem do doutor Mário ou nos pégos do Sever. «Afulér» as vacas nas tapadas junto às azinhagas. As futeboladas contra a Salavessa ou a Póvoa... até mesmo em Casalinho para beber Coca-cola proibida em Portugal. Apanhar cachos e comê-los de enfiada. Os primeiros tortulhos. As melancias à volta da vila que se cuidem não sejam caladas pela calada da noite. E as trovadas de estremecer corpos e mentes. Até só os lençóis na cama são de... mais!

Bem podia ser montalvanense este veneziano (1678) que faleceu em Viena (1741).




Dias e noites em Montalvão. Nunca se esquecem
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11 outubro 2019

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Mitos e Lendas de Montalvão II

11 outubro 2019 0 Comentários
CRESCI A OUVIR DIZER QUE FAZER UMA TORRE PARA INSTALAR O RESERVATÓRIO DE ÁGUA SÓ PODIA SER... ALI!



Estas fotografias têm 63 anos de diferença, entre 1955 e 2018. Pouco tempo depois de ser obtida a primeira começou a ser desmantelada a muralha sul do "castelo" para ser construída a torre para no topo ser instalado o depósito do reservatório de água para abastecer com água canalizada as casas que o solicitassem.

Aproveitando umas idas a Montalvão levando, por acaso alguém que percebe da gestão e distribuição da água, pertencente à EPAL (Empresa Portuguesa de Águas Livres) foi peremptório. O que não deveria ter sido feito foi o que está feito. «Não só aquilo a que vocês designam por "Depósito" podia estar mais a norte junto das escadas para o arruamento à volta do muralha norte como é provável que até pudesse ser feito dentro do "Castelo", quatro metros mais para nordeste - dependendo da consolidação do seu solo interior mesmo com possibilidade de acesso por escada do local onde está - não destruindo (modificando) o património secular. Mesmo em termos de custos ficou muito mais dispendioso. Tendo em conta os meios e a mão-de-obra mais barata que existiam no final dos Anos 50. Desmantelar uma muralha secular para depois voltar a edificá-la criando mais uma esquina de noventa graus não foi apenas um atentado ao património como um desperdício de dinheiro, com um custo equivalente a mais um ou dois metros de altura da torre o que significava que podia ter sido feito numa cota de um metro ou dois abaixo do que tem sem onerar em mais um tostão o projecto».



Foi assim. O amor por uma "terra" tudo desculpa. Mesmo a incúria dos homens e mulheres que em determinado altura da existência de uma localidade tomaram decisões que talvez não se justificassem por não serem as mais indicadas.

Ter água canalizada foi um bem para Montalvão que supera tudo o que possa ter ocorrido
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09 outubro 2019

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A Azinhaga Que Nunca Chegou a Rua

09 outubro 2019 0 Comentários
QUANDO SE TENTA COMPREENDER A EVOLUÇÃO DA REDE VIÁRIA E MALHA URBANA DE MONTALVÃO, PENSA-SE NUMA QUESTÃO METAFÍSICA.
Levantamento do cadastro rústico em 1953

Se Montalvão não tem começado a perder população nos Anos 50 mas, pelo contrário, se tem continuado a crescer para além dos três mil habitantes até aos quatro mil montalvanenses, cresceria para onde? A necessidade de construir mais casas seria premente. Havendo que construir mais 100 ou 150 casas onde seriam estas construídas? Nunca se saberá! Não foi necessário fazê-las. Mas não custa (até dá satisfação imaginar). Acredito que a Corredoura, bem como a rua da Porta de Baixo e a de São João, principalmente a rua das Traseiras/Cabine, talvez a rua das Almas e de Ferro que continuariam a preencher-se de casas cada vez mais afastadas do centro da aldeia. Mas o que parece mais lógico por estar mais central, ligando a rua das Traseiras (depois prolongada para a da Cabine) à rua de Ferro e paralela à rua da Costa seria a azinhaga dos Touris ou Touriles passar a ser uma rua.



A expansão para sul em direcção ao sítio do Bernardino («Bôrnádim» em montalvavês) também parece viável mas é mais aceitável ser possível no final do século XX e início de XXI, com o aumento da quantidade individual de transporte automóvel e de materiais de construção em betão que nas condições existentes em Montalvão nos Anos 50 e 60. Quanto mais perto do centro da aldeia, melhor. A acessibilidade às lojas, casas dos Lavradores e artesãos era muito mais rápida e cómoda vivendo perto do núcleo central que nos extremos.



Quando se conversava com os montalvanenses que tinham 60/70 anos nos Anos 60/70, ou seja, com a idade do século XX estes lembravam-se bem da necessidade que houve em fazer casas nos quintais da rua Direita para o lado da rua de São Pedro que deve ter sido a última rua a ser formada, quer do lado norte (casas nos antigos quintais das casas da rua Direita, lado sul), quer do lado sul da rua de São Pedro pouco depois da casa do "Pátio" em direcção à Ramalhoa (onde foi construído o edifício da Casa do Povo). 

Os decanos da aldeia nos Anos 60/70, muitos deles nascidos em final do século XIX até diziam que para lá do «Pátio» havia a "azinhaga para o São Pedro" que levava à Ermida e para lá da «Casa do doutor Mário» começava o "Caminho da Salavessa" que passava pela Ermida do Espírito Santo e pela de Santo António.



Pelos Censos de 1940 e 1950 houve - mesmo com uma diminuição de população - a construção de mais seis casas, passando de 477 para 483. É provável que algumas dessas casas fossem construídas na Corredoura ou na rua de São Pedro, colocando a Ermida de São Pedro e a do Espírito Santo, mas principalmente a de São Pedro, dentro da localidade.
No Recenseamento de 1940 houve 62 habitantes que pela meia-noite de 12 de dezembro não estavam na freguesia daí o registo de 2 610 presentes em 2 672 residentes; NOTAS: Fogos = edifícios para habitação; V - Varões/Homens; F - Fêmeas/Mulheres; VF - Totais

O núcleo de casas entre a azinhaga das Bruxas (depois da Casa do Povo) e a azinhaga do São Pedro foi construído entre final dos Anos 20 e o início da década de 30. A rua de São Pedro foi-se consolidando até à Ramalhoa nos primeiros vinte anos do século XX e depois da Ramalhoa nos seguintes.  


A capela de São Pedro ficava fora da povoação (era uma ermida) e a do Espírito Santo também, estando esta praticamente a desaparecer. Ambas estiveram séculos para lá dos limites da Vila.





Aquando do inventário dos danos provocados pelo terramoto, no 1.º de novembro de 1775, a descrição (arquivada na Torre do Tombo, em Lisboa) que Vigário Frei António Nunes de Mendonça faz, em 24 de abril de 1758, a pedido do Poder Central, em Lisboa (original e tradução) é inequívoca:


«13 - As Ermidas, quem dentro da Villa, hé sómente a de Sam Marcos, que tem altar próprio, que tem Irmandade, e nada de renda; tem outro altar de Sam Joaõ Baptista; outro de Santa Maria Madalena, que não tem Irmandade nem renda = Fora da Villa tem Igreja do Espírito Santo, que tem Mordomos, e algumas rendas = Tem mais a Igreja de Sam Pedro, quem Mordomos, e alguma renda = ...»
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