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07 março 2021

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Feira dos Passos

07 março 2021 + 0 Comentários

 A FEIRA DE PRIMAVERA NO TERCEIRO DOMINGO DA QUARESMA.



Uma "Feira Anual" que pode realizar-se entre 22 de fevereiro (se a Páscoa for a 22 de março e o Entrudo a 3 de fevereiro, o que é raríssimo) até 28 de março (se a Páscoa for a 25 de abril e o Entrudo a 9 de março).


As feiras de Nisa dividiam-se por duas áreas - a Central (Praça da República) e o gado, no "Campo da Devesa", a Norte - onde havia complementaridade dos artigos a vender e...comprar.


Feira importante para os montalvanenses. Era necessário "ir a Nisa" comprar o que fazia falta para o tempo que mudava. Estava a terminar o Inverno e a iniciar-se o Verão. Começava logo na noite de sábado. Preparar a "trouxa e o conduto" para seguir na manhã de domingo, ainda a nascer o Sol rumo a Nisa. Durante anos caminho de terra batida, depois com a estrada nova em macadame seguindo-se o alcatroamento. Os carros (de muares) e as carroças (de asininos) faziam fila a caminho de Nisa. As dezenas que existiam em Montalvão rumavam à Feira, carregadas de gente e farnel.


Comprar o que faltava e não era produzido em Montalvão sabendo que a feira seguinte seria apenas em junho, a das "Cerejas". Algum vasilhame, sacas e canastras, para compensar estragos em utensílios muito usados ou aumentar a capacidade de armazenamento. Em destaque comprar fazendas para "fazer roupa" a vestir na Páscoa.




Quem não tinha lugar no transporte ou dinheiro para o pagar era fazer os quase 17 quilómetros a pé, para lá e para cá, às vezes para comprar um par de sapatos ou de botas. Quantas vezes quem ia nos carros e carroças não saudava quem ultrapassava por já estarem cansados, de seguirem a pé, calcorreando às vezes até com tempo agreste tantos quilómetros. Era assim a vida naquele tempo.


As Feiras em Nisa eram uma preocupação para os adultos, interessados em comprar ao melhor preço possível o que faltava (e estava pensado desde a última feira, a de Inverno) e um divertimento para as crianças sempre aptas para receber guloseimas e alguma surpresa de última hora. Como é habitual o dinheiro é que mandava. Nunca chegava para tudo o que se queria e desejava.



No regresso, carros e carroças, vinham carregadas com o que se comprava, pois sobrava espaço onde esteve o farnel...que tinha sido comido ao longo do dia. Muitos «catchúpinhes», levados pela ansiedade em esperar por familiares e o desejo de alguma novidade comprada, pelos pais ou padrinhos na Feira, iam tão para lá de Montalvão, nem dando pelo que caminhavam, pois chegavam a ir esperá-los à reta da fonte da Matadeira, para lá da Casa dos Cantoneiros, a sete penosos quilómetros - subidas e descidas, invertendo-se conforme o percurso, como é óbvio - de Montalvão.  Chegava-se à povoação já pelo pôr do sol (os dias, até ao Equinócio da Primavera, ainda eram mais curtos que as noites) cansados mas contentes pois era um domingo que fugia à rotina dos dias sempre iguais. Já a pensar no uso a dar às compras e a sonhar que em junho haveria outro domingo assim!


A última feira. Pouco depois começariam os condicionamentos devido à pandemia provocada pelo SARS-coV-2


O tempo que já lá vai. Hoje é tudo visto como inigualável e parece que perfeito. Nesse tempo nada tinha de romântico. Tudo - comida, ir às fontes buscar água em cântaros, diariamente, vestir as roupas até se romperem, no "fundo" a Vida na Vila - repetia-se ano após ano. Cansativo. Quem nascia pobre sabia que morreria pobre. As festas, os domingos, as feiras, tudo seria igual no próximo ano e nos seguintes...só a idade avançaria!



Mas era assim. E haver possibilidades de ir à Feira (em vez de ficar a ver os veículos de tração animal e quem neles seguia, a desaparecerem na primeira curva da "estrada de Nisa") ou comer umas cacholeiras e morcelas, em vez de apenas o caldo delas era já muito bom! 


A vida em Montalvão durante séculos foi ritmada por igual. Cada um ia envelhecendo sabendo o que o esperava até falecer...



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