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03 abril 2020

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Berços de Pedra

03 abril 2020 0 Comentários
OS EDIFÍCIOS DE MONTALVÃO, HABITADOS POR FAMÍLIAS, FORAM DURANTE SÉCULOS UMA MATERNIDADE.



Todas as casas? Nem todas! Mas não houve edifício familiar construído antes dos Anos 60 que não tivesse sido local de, pelo menos, um parto. E os prédios mais antigos foram maternidades em mais de 40 nascimentos de montalvanenses. Quando olhamos, da rua, para uma casa que tenha mais de 70 anos, estamos a olhar para um local onde nasceram montalvanenses.

Houve anos em que nasceram mais de 60 crianças, ou seja, em média um parto a cada semana. Os choros dos bébés ecoavam um pouco por toda a localidade. Umas vezes na rua da Costa, depois na Corredoura, na rua Direita, na do Ferro, na rua da Barca, depois na de São Pedro, Arrabalde, Arneiro ou Outeiro, todas tiveram partos anualmente. Toda a aldeia era uma maternidade gigantesca, não dividida por quartos, mas por casas. Casas de habitação, berços de pedra.

Todas as casas de Montalvão têm história
Muitas estórias diárias em cada edifício habitado que todos juntos - desde que começaram a ser habitados até à atualidade - completam a História de cada uma das casas familiares montalvanenses. E a história de todas elas, no seu conjunto, é uma parte significativa da História de Montalvão. Para a completar restam as estórias que se passaram nos terrenos agrícolas que constituem a freguesia. A junção das histórias - a da localidade, outros locais com habitação e o espaço rural envolvente que suportava a vida dos montalvanenses - são a «História Total de Montalvão». 

Berços de Pedra
A história completa de cada casa já não é possível fazer - pelo menos com os meios existentes na atualidade - mas ainda se consegue fazer a história de algumas delas. Só consigo fazer a história de uma. Outros conseguirão fazer de outras casas. A história que vou escrever é acerca de um edifício - por que só consigo contar com rigor a "vida" desta casa - mas é como se contasse a história de todas as outras. Ao contar a história desta é uma forma de homenagear todas as outras, pois todas tiveram dentro delas estórias idênticas, variando a dimensão, formato de cada uma, bem como as datas e números a elas associados.  


O prédio construído num quintal, com serventia pela rua das Almas, de uma casa com entrada pela rua do Ferro. Nesta casa da rua das Almas nasceram quatro montalvanenses, entre 1938 e 1960


Um «Berço de Pedra»
Na rua das Almas. É a história do prédio da imagem que está por cima que consigo contar. E é esta que vou escrever. Foi construída no início da década de 30 para um casal que contraiu matrimónio, na Igreja Matriz, em 20 de agosto de 1930. Esta casa foi feita no quintal de outra casa. De um prédio no gaveto entre a rua do Ferro e a rua das Almas. Este edifício tinha um quintal com serventia pela rua das Almas. 



Mais um «Berço de Pedra»
Quando a filha mais velha dos donos deste edifício de gaveto se casou foi construída uma casa no quintal desse prédio para o recém-casal fazer a sua vida. Nesta casa, feita no quintal de outra, nasceram quatro montalvanenses, entre 1938 e 1960. A curiosidade é que o último montalvanense a nascer nesta casa, em 1960, era filho da primeira montalvanense a nascer, em 1938, no prédio feito num quintal de outra casa. De permeio nasceram mais dois montalvanenses, ambos no década de 40, mas isso é outra história. 


A casa de gaveto entre a rua do Ferro e a rua das Almas que tinha um quintal com serventia para a rua das Almas onde se ergueu mais uma casa na primeira metade da década de 30

Dois montalvanenses
Em 20 de agosto de 1930 casaram-se dois montalvanenses. Como era habitual em Montalvão, o esposo era mais velho e a esposa mais nova. O casal teria depois cinco filhos, oito netos e 15 bisnetos. A vida foi feita à volta do rendimento de uma carpintaria, pois o Ti Zé Caratana era carpinteiro. Ele nasceu, pelas 14 horas, em 28 de novembro de 1905, sendo batizado em 11 de fevereiro de 1906. A esposa, filha mais velha dos donos da casa e quintal onde foi construída outra casa, nasceu pelas quatro horas da manhã, em 24 de fevereiro de 1910, com batizado a 26 de maio de 1910. Ele o 9.º batizado em 1906, ela o 28.º batizado em 1910. Vinte e oito batizados e ainda o ano de 1910 não ia a meio. Nasceram 63 crianças, em 1910, entre Montalvão, Salavessa, Santo André e Monte do Pombo. Poucas sobreviveram até aos dois anos.   

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Um casamento
Em 20 de agosto de 1930 consumou-se o casamento. O noivo com 24 anos e a noiva com 20 anos. Batizados e casamento na linda Igreja Matriz, por onde passava a vida de todos os montalvanenses. Velados em casa depois de morrerem, também por lá passaram na última viagem a caminho de cemitério onde repousam.



Uma família
Depois do casamento e até que o edifício erguido no quintal da rua das Almas estivesse concluído nasceram os dois primeiros filhos. O mais velho na rua da Barca e o seguinte no prédio de gaveto, com entrada pela da rua do Ferro já no quintal se erguia, lenta mas em definitivo, a futura casa do casal com o carpinteiro a ter oficina, também, na rua das Almas. 



Quatro partos
O terceiro filho - primeira filha - já nasceu na nova casa da rua das Almas, em 11 de novembro de 1938, tal como o quarto - segunda filha - e o quinto - terceiro rapaz, infelizmente já uma estrela no firmamento sobre Montalvão. Depois passariam quase duas décadas até que este edifício voltasse a ser berço. O primeiro neto nasceu na rua de São Pedro, o segundo - filho mais velho da filha nascida em 1938 - nasceu na mesma casa, em 21 de outubro de 1960. O terceiro neto nasceu na rua de São Pedro e os restantes cinco nasceram noutras ruas e cidades. Foram quatro os nascimentos, entre 1938 e 1960. Em 21 anos e onze meses a "Casa da rua das Almas" foi quatro vezes maternidade. E por aí ficou. Quatro nascimentos lhe deram história. Por quatro se ficou, um edifício que ainda nem 90 anos tem. Mas em Montalvão há edifícios com muitos mais nascimentos que apenas quatro, pois há casas com mais de 200 anos e construídas em locais onde há prédios que foram sendo melhorados durante 700 anos! Uma eternidade.

O terceiro montalvanense a nascer nessa casa da rua das Almas já é apenas uma das estrelas no firmamento celestre sobre Montalvão. Os outros três - dois mais velhos e um mais novo - por enquanto continuam por cá!

É assim Montalvão. Um choro na Corredoura, outro no Arrabalde, um na rua das Almas e outro do princípio da rua de São João. Mais ainda na maior das ruas, a Direita, com a do Outeiro de um lado e a do Cabo do outro. Repetindo-se em sete séculos. Em todas as casas de chorou ao nascer e fez festa por haver mais um filho. 

Foi tempo que existiu, que acabou, mas a memória, enquanto existir um montalvanense, jamais apagará!
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09 fevereiro 2020

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As Parteiras

09 fevereiro 2020 0 Comentários
HOUVE DEZENAS DE PARTEIRAS EM SETE SÉCULOS MONTALVANENSES.



No auge demográfico e social de Montalvão no século XX (Anos 40 e 50), houve a Xá Marí Emília na rua do Arneiro, a Xá Amálha na "Serventia" e a Xá Isabel Teresa no largo da Igreja.


Nos Anos 50 as duas parteiras com mais atividade eram a Xá Amálha (Amália para os que falavam "grave" à Lisboa ou Coimbra) e a Xá Isabel Teresa, mas antes delas há memória da Xá Marí Emília que foi a principal parteira nos Anos 30 e 40 e antes desta outras. E antes destas outras ainda muitas outras recuando até à fundação de Montalvão pois uma localidade não pode existir sem parteiras ou com alguém, que aquando de um final de gravidez, faça nascer os montalvanenses. E depois, da Xá Amálha e da Xá Isabel Teresa, houve a Xá Tomásia Carrilho, filha da Xá Marí Emília, que deve ter sido a última parteira montalvanense, já entre final dos Anos 50 e meados dos Anos 60, quando o forno de que cuidava caiu em desuso com a chegada da energia elétrica (1948) e o estabelecimento das padarias e fornos elétricos. Coube a ela seguir os passos da mãe (Xá Marí Emília) e assegurar os partos quando a Xá Amálha e a Xá Isabel Teresa já não tinham condições físicas, apesar de um acumular incalculável de experiência, para realizar partos com a mestria que a velhice não deixa ter eficácia. Mulheres analfabetas sabiam bem o que fazer e como resolver. Não sabiam ler e escrever mas tinham uma cultura ímpar naquilo que faziam, por isso faziam bem. 


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Muitas crianças colocaram elas no Mundo. Foram as parteiras, ao permitir os nascimentos, que fizeram renascer Montalvão. Foi por elas que Montalvão teve continuidade desde o século XII. Foi por elas que Montalvão ainda teve partos nos Anos 60. A seguir, com o desenvolvimento dos transportes e a necessidade de haver condições para poder resolver situações delicadas passou tudo para o Hospital de Nisa e depois para Portalegre.



Consta que poucas crianças morreram nas suas mãos. Passado um dia, dois dias, uma semana, um mês ou um ano muitas crianças morriam. Elas foram parteiras no tempo em que nasciam mais de 60 crianças por ano em Montalvão. Poucas ficaram nas suas mãos. A taxa de mortalidade infantil era terrível, em Montalvão, como em todo o interior de Portugal, até aos Anos 60. Em Montalvão, nas décadas de 40 e 50, morriam em média, durante o primeiro ano de vida, cerca de quatro crianças por cada cem que nasciam.



Parto
Quando chegava a hora do parto, alguém da família contactava a parteira que estava apalavrada e esta dirigia-se para o quarto onde estava a parturiente. Chegada a hora, ficavam no quarto apenas quatro mulheres: a que ia ser mãe, as duas que iam ser avós (mãe e sogra) e a parteira. Era assim. Tudo tinha que correr bem. Se corresse mal as parteiras tratavam de tudo para tentar que o parto corresse bem!



Mesada
As parteiras não faziam só nascer as crianças, também cuidavam delas e de tudo o que as envolvia - até lavar a roupa - durante o primeiro mês de vida. E a troco de quê? De quase nada. Cada família pagava-lhes como podia. O acerto era pagar "quase nada". Muito trabalharam elas. Muito se esforçaram. Davam vida e tiveram tão pouca vida. Tiveram a que se podia ter numa povoação com rendimentos escassos.



Batizado
Praticamente um mês depois do nascimento, logo nas primeiras saídas dos bébés à rua, já estava aprazado o dia do batismo na Igreja Matriz. Nesse dia era a Parteira que tinha cuidado da criança que a levava ao colo (conhecia-a melhor do que a mãe...) seguindo para a Igreja Matriz, acompanhada pelo padrinho e madrinha da criança, pais, familiares e convidados. O padrinho e a madrinha eram, em regra, repartidos pelo lado materno e paterno. Se fosse rapaz era o padrinho que escolhia o nome. Se fosse rapariga era a madrinha. Geralmente de acordo com os pais, mas nem sempre. Eu sou o melhor exemplo. A minha mãe queria que me chamasse Amadeu mas o meu padrinho (aliás o pai pois o meu padrinho nem cinco anos tinha quando me batizei) teimou que seria Alberto e Alberto fiquei. 



Celebração
Se fosse rapaz era o padrinho e se fosse rapariga era a madrinha a levar o "Goumil" com água (jarra de vidro com bica) deitando sobre a cabeça do bébé a água na pia batismal. Celebrado o ato fazia-se o registo com o cortejo a regressar a casa dos pais acompanhados, também, pelo pároco. Durante o percurso de regresso, os padrinhos e pessoas amigas iam atirando amêndoas e confeitos da ocasião para os lados e para as janelas que ficavam no percurso. Das janelas as pessoas mais chegadas à família, também lançavam amêndoas, rebuçados e outros confeitos misturados com pétalas de flores várias. Os garotos, para os apanharem, metiam-se por todos os lados, empurravam inebriados pela generosidade do dia, caíam de uma assentada, levantavam-se num ápice embaraçando o andamento do cortejo, pelo que iam levando o seu cachação (palmada na nuca) à mistura com a doçaria caída do céu!
Da janela ou da porta da casa, os padrinhos atiravam à rua punhados de fruta da época, como maçãs, castanhas, pêras, nozes, passas de uva e figo, etecetra, que continuavam a ser disputadas pelos catchôpús e catchópas (crianças em montalvanês) e mesmo por pessoas crescidas que não resistiam à tentação e era também uma forma de celebrarem o dia do batizado de mais um montalvanense.
Quando chegava a hora da refeição - almoço se o batizado fosse de manhã ou jantar se o batizado fosse de tarde - rumavam todos à mesa fazendo honras ao cerimonial, desde roupas aos petiscos, honrando um dia com tanto significado, numa festa que se queria alegre e memorável. Acabara de nascer mais um cristão.



A Minha Parteira
Apesar da minha bisavó paterna pelo seu lado materno, a Xá Isabel Teresa, ser Parteira, quando nasci já não tinha idade para assistir a partos e fazer nascer montalvanenses. Mas fez nascer centenas para a vida durante a sua vida. A "minha parteira" foi a Xá Tomásia Carrilho. Naquele dia, na rua das Almas, tudo correu de feição. Quando era criança e acompanhava a minha mãe, lembro-me de esta me dizer. Olha, vem ali ou está ali a senhora que te fez nascer! Eu quando passava pela Xá Tomásia Carrilho curvava-me, num gesto irreflectido, espontâneo, fazendo como que uma vénia. Agora quando penso nisso, talvez o tivesse feito - e fiz bem uma dúzia de vezes - num misto de agradecimento e reconhecimento. Não por mim, seria dar importância desmedida ao meu nascimento, mas por ela. Se estava ali foi porque ela tinha sido competente quando foi chamada a ser competente. Tinham confiado nela e ela soube estar à altura do que lhe era pedido e exigido. Só posso agradecer. 

Obrigado, Xá Tomásia Carrilho.


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