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03 novembro 2019

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Os Moleiros

03 novembro 2019 0 Comentários
ERAM OS PRIMEIROS A CRIAR CONDIÇÕES PARA HAVER O «PÃO NOSSO DE CADA DIA».



Utilizavam a força da água do rio Sever numa obra de destreza humana impressionante. 



Aproveitaram desde tempos ancestrais o caudal do rio quase inexistente a cada Estio para fazerem açudes de lajes de xisto a travar outras lajes que depois quando o rio tinha caudal forte entre finais de Outono e a Primavera desviar a água para o interior das azenhas cuja força da corrente conseguia rodar as mós, moendo o cereal. 




Os açudes no rio permitiam tanto interromper o caudal impetuoso como represar a água, quando corria pouco, fazendo um fluxo forte para mover a pesada mó que esfarelava o grão. Quando não era necessário deixavam o rio correr. Quando havia pouca água no caudal do rio represavam-na pois os açudes tinham um "poço" (pégo) que juntava um volume de água gigantesco para depois ser enviada para passar dentro da azenha e fazer o que tinha de ser feito pois foi para isso que desde tempos de antanho se construíram açudes e azenhas. 



Com o moinho eléctrico construído junto à «Cabine» (instalada em 1948) na rua das Traseiras os sete moinhos do rio foram perdendo importância pois o esforço repartido entre homens e animais era gigantesco. Subir e descer as «Barreiras do Rio» carregando sacas de cereal (barreira abaixo) ou de farinha (barreira acima) era tarefa hercúlea.


Nas cartas topográficas mais antigas - antes da inauguração da Barragem de Cedillo (26 de Outubro de 1975) - é possível localizar as sete azenhas de rio do lado português.

Há ainda um "molino" mais a jusante no rio Sever também do lado espanhol, o Molino do ti Zé do Reté na latitude (mais ou menos dos Dourados). É provável aquando do trabalho de campo - se realizado no Inverno - para elaborar esta Carta Topográfica (escala 1/25 000) publicada em 1968 o molino estivesse submerso pois era o que lhe ocorria metade do ano, muitas vezes entre novembro e abril de cada ano hidrológico. A lógica dos moinhos de rio (azenhas) era funcional. Ver NOTA FINAL  

HOUVE DEZENAS DE MOLEIROS EM SETE SÉCULOS MONTALVANENSES.





No século XX (Anos 30 a 60), houve o Ti Morujo e o Ti Mané Bento na rua da Costa, o Ti Mané Pedro na rua das Almas, o Ti Zé do Reté e o Ti Ica na rua da Barca, o Ti Juan Belo na rua do Outeiro, o Ti Panim na rua do Cabo e ainda o Ti Chapa da rua de São Pedro. Tantos e tão poucos o que ilustra a importância de quem conseguia transformar o grão em farinha para ser pão. 


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Os Moleiros eram os que continuavam o ciclo do pão que começava por ser semeado, mondado, ceifado, debulhado, "limpo" e ensacado. Quando saía o "agricultor" entrava o Moleiro. Este recebia as sacas de trigo - ou de outro cereal - "Levava-as ao Rio" nas suas parelhas, manobrava as seculares "engenhocas" para fazer rodar as mós e transformava o grão em farinha. Era carregar os asnos e regressar à povoação. Depois o dono do grão pagava o trabalho do Moleiro em farinha e o Moleiro tinha pão para comer e vender. Tudo à míngua. 

Havia também Moleiros que compravam o grão, transformavam em farinha e depois vendiam-na a quem não tivesse grão por não poder semear, por falta de terrenos mas necessidade de comer pão.




Com o Moinho Eléctrico criou-se uma divisão entre os Moleiros tradicionais e os dois que tinham usufruto do moinho junto à Cabine, o Ti Chapa e o Ti Panim.

E depois ainda mais modificações. A final. Com a abertura das duas padarias. Uma no início da rua de São João e outra junto à «Cabine» para aproveitar o moinho eléctrico. Tudo acabou. Os Moleiros passaram a fazer parte do nosso imaginário montalvanense.



Entre eles o que me traz mais recordações é o Ti Ica. E por dois motivos. Sempre achei curiosa a "Casa do Marco". O Ti Ica vivia na casa - talvez a primeira da rua da Barca, embora ali não se saiba bem se já é a rua da Barca, mas é uma artéria que é estrada pois lembraram-se de colocar junto a ela um marco quilométrico que assinala : Salavessa: 8 km; Montalvão: 0 km. Sempre me ri com esta informação. Principalmente a última! Além disso a minha mãe sempre falou muito bem do Ti Ica ou não fosse ele o pai de algumas das suas amigas de infância. 

Próxima "paragem": Os Forneiros

NOTA FINAL1: Em rios que têm o caudal muito dependente da precipitação (caudal pluviométrico) como era o rio Sever antes da construção da Barragem, a corrente de água sofre prolongadas estiagens (actualmente é um "lago" devido à água do rio Tejo que a barragem "obriga" a invadir o leito do rio Sever). As azenhas mais a montante trabalham de Inverno mas depois deixam de poder trabalhar na Primavera. As azenhas mais a jusante podem até trabalhar no Verão em anos hidrológicos intensos. A azenha do Moinho Branco (quase no limite da fronteira entre Montalvão e Póvoa e Meadas, que é na confluência da ribeira de São João) era a primeira a trabalhar (logo pouco após as primeiras chuvadas) e a primeira a deixar de trabalhar (Primavera). A azenha do Ti Zé do Reté (a mais próxima da confluência do rio Sever com o rio Tejo) era a última a começar a trabalhar mas também a última a deixar de trabalhar e até podia, em anos hidrológicos com muita precipitação, trabalhar todo o Verão. No Inverno ficava debaixo de água! Ainda uma nota para o tempo em que havia fronteira aduaneira entre Portugal e Espanha. Legalmente, os sete moinhos portugueses só trabalhavam com cereal de Portugal e os dois espanhóis com cereal de Espanha. Mais uma nota, pois os moleiros partilhavam quer os moinhos, quer os momentos do ano hidrológico para poderem satisfazer o que davam à sociedade e aos montalvanenses: trabalho e farinha!   




NOTA FINAL2: Embora correndo o risco de tornar este texto muito extenso é importante publicar um registo que confirma, o que seria de supor, os moinhos do rio devem datar do início do povoamento pois não se vive sem pão e para haver pão tem de se transformar o grão em farinha. No Inventário que foi pedido aos párocos do todo o País para avaliar os danos causados pelo Terramoto do 1.º de novembro de 1755, o pároco de Montalvão, Vigário frei António Nunes de Mendonça é inequívoco, em 24 de abril de 1758 na resposta à complexa pergunta se a localidade tinha serras e como eram e se tinha rios e como eram. A resposta ocupa um terço do inventário por isso a sua publicação integral ficará para um dia destes. Em relação ao rio Sever moinhos e caudal o pároco não podia ser mais exaustivo: 

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         Não tem esta Villa no seu termo Serra alguma, nem nella nascem rios alguns; excepto dois, que correm pello termo, que divide este Reyno do de Castela; hum hé o Rio chamado Sever, que nasce no termo da Villa de Marvaõ, que dista cinco légoas desta Villa. E vai morrer no Rio Tejo, no termo desta Villa; e tem este sete, ou oito légoas de comprido; tem ponte de pedra em distância de uma légoa no termo de Marvaõ aonde chamam a Portagem; porque logo começa o seu cursocaudálico; tem moinhos e assudes; e naõ hé nem pode ser navegável, porque corre por terras muito fragosas e apertadas; hé livre, e somente tem alguns moinhos de paõ, que pagam foro ao Conde de Povolide Senhor da Commenda desta Villa = Das suas águas usaõ os moradores desta Villa com liberdade =...

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.... e corre este rio de sul a norte; e nele entra no termo desta Villa uma ribeira, que chamam de Sam Joaõ, que nasce no termo da da villa de Castello de Vide, e vem passando pelo termo da villa de Póvoa e Meadas, até este termo aonde se acaba o ditto rio; e também tem esta ribeira alguns peixes, e algumas árvores silvestres; e no tempo de veraõ suspende as suas correntes, e fica alguma ágoa represada, em algumas funduras, que tem; o rio acima dito hé caudaloso e sempre corre com ímpeto; mas no tempo de veraõ hé menos impetuoso o seu curso; de sorte, que um destes anos em que houve esterilidade d'ágoas se vio totalmente exausta a sua corrente -
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