Montalvam

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16 julho 2019

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E Depois do Adeus (1212)

16 julho 2019 0 Comentários
A BATALHA DE NAVAS DE TOLOSA VEM DAR ESTABILIDADE À HERDADE DA AÇAFA POIS AFASTOU OS ALMÓADAS DA REGIÃO. 



A Herdade da Açafa era terra inóspita que foi cedida, em 5 de julho de 1199, por D. Sancho I à Ordem dos Cavaleiros do Templo. Pela carta de doação não há povoações, pois não constam referências, sendo os limites estabelecidos pelos acidentes naturais: linhas de talvegues (rios e ribeiras) e linhas de festos (montes e serras). O objetivo era que os poderosos Cavaleiros Templários a povoassem ocupando assim território infiel (islamizado) e fosse um obstáculo ao poder do Reino de Leão que podia conquistar território para Oeste "fechando" numa bolsa o jovem Reino de Portugal que perderia espaço para se expandir para Sul. 


Ibéria cerca de 1157. Em 1212 estava praticamente na mesma embora o Reino de Portugal conseguisse expansão pelo litoral sul mantendo a linha natural do rio Tejo como fronteira estabilizada entre Lisboa e Alcântara (os Almóadas já não conseguiam provocar perda de território na margem direita) e o território da Açafa, a sul do rio Tejo e a Oeste de Alcântara permitia empurrar os muçulmanos para longe da margem esquerda bem como marcar presença num território em que Reino de Portugal e Reino de Leão se juntavam numa fronteira tripartida com os Almóadas

Não havia aglomerados com demografia mínima que justificassem a existência de povoações no vasto território da Herdade da Açafa pois era quase "Terra de Ninguém". Umas vezes trespassado pelos Almóadas, outras pelos Templários havia pouca população que se sujeitasse a tantas escaramuças. A «Batalha de Navas de Tolosa», em 16 de julho de 1212, passam hoje 807 anos, vem mudar, para sempre, a instabilidade constantemente latente e demasiado real. O território passa a ter mais segurança e começa a povoar-se com o surgimento de muitas localidades, entre elas num Monte Ermo surge Monte'alvam

Os limites prováveis utilizando linhas retas e pontos de referência descritos na carta de doação do território da Açafa cedida, em 5 de julho de 1199, por D. Sancho I à Ordem dos Cavaleiros do Templo. Não são descritos aglomerados populacionais mas apenas acidentes naturais como rios, ribeiras, cabeços e picos de serras

Os Cavaleiros da Ordem do Templo foram importantes, tal como todos os cristãos com capacidade e hábitos guerreiros, para unidos derrotarem os Almóadas na «Batalha de Navas de Tolosa». E entre todos, os Templários eram aqueles que pelejavam contra os muçulmanos e estavam de olho nos leoneses, ou seja, deambulavam pelo território da Açafa, sendo aliados fundamentais para o Rei de Portugal, D. Afonso II poder cumprir o seu papel junto dos outros Reis da Ibéria (Castela, Aragão e Navarra) que afrontaram e dizimaram os muçulmanos. Os Cavaleiros Templários que defendiam a Açafa tinham frequentes escaramuças com os Almóadas, conhecendo bem o modo como estes combatiam e se escondiam, as suas estratégias bélicas e manhas que utilizavam. Poucos ou ninguém estavam tão treinados para combater os muçulmanos como os cristãos que cavalgavam pela Herdade da Açafa. O rei de Leão, rival de Castela, recusou-se a combater. Afonso IX cometeu um erro histórico. O Reino de Leão acabaria com a sua morte em 1230. O Reino de Leão terminou unido ao de Castela. 



O Reino de Portugal, através do seu monarca D. Afonso II não participa diretamente na «Batalha de Navas de Tolosa» mas o Rei de Portugal envia uma parte do seu exército regular e a elite militar entre as forças componentes das Ordens do Templo, Santiago, Hospital e Avis (Calatrava) para auxiliar o rei de Castela, D. Afonso VIII. A comandar os Cavaleiros do Templo - os mais experientes em escaramuças na Açafa com os Almóadas -  estava o Grão-Mestre Gomes Ramires eleito por reunião do Capítulo-Geral no início de 1210, ainda com D. Sancho II como Rei de Portugal. Em 26 de março de 1211 é aclamado rei, D. Afonso II que continua a ter confiança no Grão-Mestre. 

A ação dos Cavaleiros Templários na Herdade da Açafa dava-lhes um domínio sobre a "Arte da Guerra com os Almóadas" que os tornavam peritos em conquistar praças. Depois de pelejarem em Navas de Tolosa ainda foram «passar a fio de espada e picada de lança» uns quantos muçulmanos nas vizinhas Baeza e Úbeda. Talvez se tenham ficado só por aqui pois o seu Grão-Mestre (D. Gomes Ramires) acabaria por morrer em Úbeda

Os cristãos têm total sucesso na batalha, em 16 de julho de 1212, há precisamente 807 anos, mas há baixas mortais entre muitos cavaleiros portugueses (e não foi um acaso, pois Castela soube valer-se da ausência do Rei de Portugal para colocar a elite militar portuguesa no frente de combate), mesmo Mestres de várias ordens. D. Ruy Diaz de Yanguas, Mestre da Ordem de Calatrava... morre. D. Pero Árias, Mestre da Ordem de Santiago... morre. 


Os cavaleiros da Ordem do Templo eram peritos em perceber como combatiam os Almóadas pela frequência com que mediam forças com eles na «Herdade da Açafa»

D. Gomes Ramires parece ter ficado ferido - as fontes divergem, há quem afirme que morreu três dias depois devido aos ferimentos - mas também se conta que antes de regressar a Portugal participa em duas refregas com cerco a duas Praças (localidades) Almóadas. Logo um dia depois da famosa batalha tem sucesso no cerco de Baeza (17 de julho) mas em Úbeda, a 25 de julho, nove dias depois da grande batalha é ferido mortalmente na escalada das muralhas para conquistar a Praça. O seu corpo é trazido para Portugal e sepultado em Tomar, na igreja de Santa Maria dos Olivais. 



Os entendidos entenderão. Mesmo em terreno favorável ao inimigo (que estava instalado numa elevação) a «União Cristã» foi imparável. Os "infiéis" que não morreram na refrega, morreram na perseguição durante a fuga. Nenhum lugar era seguro para os Almóadas naquele glorioso 16 de julho de 1212.




Depois da «Batalha de Navas de Tolosa», a estabilidade territorial permitiu aos Cavaleiros Templários fundar duas vilas (Nisa e Montalvão) e mais tarde ter duas comendas (Alpalhão e Arez). É provável que a boa localização geoestratégica de Nisa tenha dado a esta a primazia de surgir na Açafa, com Montalvão logo a seguir numa posição privilegiada de acesso à margem norte do rio Tejo pela Lomba da Barca. Em 1199 (aquando da doação da Açafa) não existiam. Em 1212 certamente que não. Nisa (Nissa) parece ter sido fundada, entre 1229 e 1232, em território templário por colonos franceses da região de Nice, começados a arribar a Portugal (arredores de Lisboa e Sesimbra) por volta de 1209. Montalvão ainda mais tarde. Arez e Alpalhão muito mais tarde. Povoados em território da Ordem dos Hospitalários, como Tolosa e Amieira ainda mais.


Máxima expansão dos Almóadas até 16 de julho de 1212. Depois da derrota em Navas de Tolosa foi sempre a perder território.

O pouco espaço humanizado eram pequenos núcleos de famílias ocupando propriedades vastas, entre o rio Tejo, a ribeira de Nisa e o rio Sever (até mais longe, mesmo a ribeira de Calatrucha ou o rio Salor) ainda de fisionomia romana, terras muito pouco férteis, difíceis de cultivar e trabalhar, por isso de horizonte distante, muitas vezes abandonadas por ocupações sucessivas entre visigodos não cristãos e convertidos ao Cristianismo, muçulmanos e depois entre estes e cristãos, com destaque para os Templários. Após este 16 de julho de 1212 tudo muda com o território pacificado por se terem afastado os Almóadas para o Sul. Definitivamente!



O que é certo é que a fundação de Montalvão faz-se quando era território templário e já estava livre das escaramuças entre cristãos e muçulmanos. Muitas crianças iam nascendo, entre os gentios que acompanhavam os Cavaleiros Templários, no território da Açafa. 

Um Monte Ermo até meados do século XIII passaria a Monte'alvam. Isso é certo!

NOTA: O texto e tradução da Doação da Herdade da Açafa já foi publicado neste blogue (clicar) (clicar)
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12 julho 2019

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Ó Sino da Minha Aldeia

12 julho 2019 0 Comentários
ESTE SOM É INCONFUNDÍVEL. ESTE É O SINO QUE TODOS OS MONTALVANENSES RECONHECEM ONDE QUER QUE ESTEJAM. EM QUALQUER PARTE DO PLANETA OU DO UNIVERSO.


EM MONTALVÃO, NISA, PORTALEGRE, LISBOA, MADRID, BRUXELAS, NOVA IORQUE, NOVA ZELÂNDIA, EVEREST OU PÓLO NORTE E SUL. ATÉ NA FACE OCULTA DA LUA.



Na torre do relógio, em Montalvão, o sino repica as horas um minuto depois da(s) primeira(s) badalada(s)



De Fernando Pessoa por Fernando Pessoa

O Ti Zé Caratana é que me ensinou, aí por 1970, que não há dois sons sineiros iguais, dependendo da quantidade e tipo de metal (umas gramas fazem muita diferença), da forma da campânula e do badalo. Do comprimento e da largura da campânula. Do tipo de lingueta. Qualquer pequena alteração muda todo o som. Como em tudo não era só ele que sabia isto, mas como ninguém nasce ensinado alguém tem de contar a outro o que sabe e este um dia contará a um outro e assim evoluiu a Humanidade com o conhecimento a ser partilhado de geração em geração. 


01. Jugo, cabeça ou suporte
02. Asa
03. Coroa
04. Ombro
05. Cintura
06. Rebordo
07. Pé
08. Lábio
09. Borda
10. Lingueta (Badalo)


Lembro-me do Ti Zé Caratana agarrar num tronco de azinheira e fazer o suporte (jugo) para o outro sino, o da torre Norte, a dos toques eucarísticos - que ainda lá está firme e hirto. Ao ter questionado, em 1974 ou 1975, quanto tempo duraria, o Ti Zé Caratana afirmou peremptório: «Feito de azinho! Vais ouvir o sino, tal como os teus filhos, netos e até bisnetos»
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01 julho 2019

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Montauban, Montalbano, Montalbán

01 julho 2019 0 Comentários
TALVEZ APENAS VASCO DE MONTALVAM.



É deveras interessante estar em Montalvão e pensar na origem do topónimo.


Há certezas para todos os gostos e opiniões.

Desde origem geográfico-orográfica: Monte'alvão/Montalvão como significado de «monte branco» ou «monte alvo» embora se questione porque não ficou «Montebranco», «Montalvo» (há um mas podia haver dois!) ou mesmo «Monte Branco» havendo «Castelo Branco» por perto!

Mas também com origem noutras povoações desde Montauban (França), a Montalbano (em Itália, bela elevação não muito longe de Florença) e até Montalbán (Espanha).

Pois pode ser. Pois podem ser.




A 16 de abril de 1287, em Castelo Branco, o Capítulo-Geral da Ordem do Templo e o Cabido da diocese da Guarda reuniram-se, resultando um documento, onde está explícito (em caligrafia preto no branco)... Montealuã pronunciando-se Montealvã

E por que não «Monte'alvam» depois «Montealvã» de "a vão" ou "em vão" como que a pairar/suspenso ou de "alvo" para alguém ou algo? 



E por que não a homenagem de um herói templário (Dom Vasco Fernandes, nascido em 1261) a um herói lendário da cristandade, desde o século XI, com nome honrado em várias culturas e nações europeias:

Renaud de Montauban (depois herói-magno no livro «Chanson des Quatre Fils Aymon», de Huon de Villeneuve; 1497) 

Rinaldo di Montalbano (depois herói no livro «Orlando Furioso», de Ludovico Ariosto; 1516)  

Reinaldo de Montalbán (citado como exemplo no livro «Don Quijote de La Mancha», de Miguel Cervantes; Parte I; 1605)

E devidamente traduzido - pelo ilustre e distinto Feliciano de Castilho, entre outros - para a Língua Portuguesa como "Reinaldo de Montalvão" em «Dom Quixote de La Mancha».



Pois bem... certamente que a origem do topónimo «Montalvão» nunca se saberá qual é e foi! Dificilmente se conseguirá obter a certeza do que o tempo calou!

Mesmo com direito a ópera do mestre G. F. Händel denominada Rinaldo (di Montalbano). Num excerto magnífico com a ária (Lascia ch'io pianga) de uma ópera genial (Rinaldo) em toda uma obra de excelência (G.F. Händel).

 

Montalvão ou Vasco de Montalvam!?

NOTA: Dedicada, por este blogue, a Montalvão a ópera  Rinaldo (de Montalbano) em português, Reinaldo (de Montalvão)









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29 junho 2019

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Festa de São Pedro

29 junho 2019 0 Comentários
AO «LUSCO-FUSCO», EM 28 DE JUNHO, COMEÇA A NOITE DE SÃO PEDRO. A ÚLTIMA FESTA DE JUNHO SELAVA O TEMPO EM QUE O FOLGUEDO POPULAR SE SOBREPUNHA, MUITAS VEZES, AO CARÁCTER RELIGIOSO.



O dia de São Pedro (29 de junho), em Montalvão, era festejado pelos pastores e cabreiros. Este dia tinha enorme importância na profissão deles pois era em 29 de junho que iniciavam e terminavam os contratos com os seus patrões (os «ricos») uso que ainda perdurava até há pouco. Assim, quando durante o ano algum pastor saía de casa do amo (os «ricos») com quem estava contratado, comentava-se: «Aquele fez hoje São Pedro». Igualmente quando algum pastor era visto em Montalvão onde vinha tratar assuntos profissionais ou particulares (alguma urgência com um familiar), ou seja, afastava-se dos rebanhos onde devia permanecer todo o ano, observavam: «Parece que é Dia de São Pedro, vêm os pastores à vila» (em montalvanês, Montalvão é conhecido por "vila", ou seja, a designação mais abrangente - vilas há muitas - é antiquíssima, tendo em conta que Montalvão só há um!).


Os pastores deslocavam-se a Montalvão de asno. Era com os burros e burras que se faziam as «Cavalhadas pelo São Pedro». Os asnos eram dos "ricos" que os colocavam à disposição dos seus pastores para quando estes tinham de deslocar os rebanhos entre tapadas a maior distância. Também eram utilizados para a vinda dos pastores à vila no dia de São Pedro. Para as «Cavalhadas» no «Largo da Corredoura» misturavam-se burros e burras dos pastores e cabreiros com asnos de outros habitantes. 




Havia comerciantes e artesãos da aldeia que também tinham asnos para fazem alguma agricultura de ajuda à economia aldeã e para pequenas deslocações: pessoais ou ajuda a transportar alfaias agrícolas e de tudo um pouco, desde sementes às colheitas, com albarda, de angarelas ou com carroça.   



Os contratos (ajustes) eram variáveis. Podiam ter componente monetária, componentes mistas ou apenas componente em "arreios" (alimentação, vestuário e habitação junto aos rebanhos). A mista - dinheiro e bens (trigo, azeite, feijões, grão, fruta, etecetra) - era a mais usual. 




Um dos aspectos mais interessantes do "ajuste" era a atribuição aos pastores do «polvilhal», ou seja, de um determinado número de cabeças de gado, ovino e/ou caprino, que ficavam de sua pertença e que se juntavam ao rebanho do patrão, sendo por isso, marcados geralmente com um corte "personalizado" na orelha esquerda. A gestão do «polvilhal» era extremamente importante para a sobrevivência do pastor quando este já tinha constituído família visto ser fonte importante de rendimento em dinheiro.



As «Cavalhadas» com burros e burras não eram tão competitivas como as do Santo António (remediados, com mulas e machos) e São João (ricos, com cavalos e éguas).



Muitas vezes nem eram realizadas no «Largo da Corredoura» mas sim, no amplo adro, fronteiro à capela de São Pedro. Também mais "baratos" eram os serviços religiosos na capela em detrimento da Igreja Matriz ou na Igreja da Misericórdia. 



Em (justa) homenagem aos pastores e cabreiros, até aos asnos, uma enorme música para quem a merece. Tal como merecerão que este blogue, num dia ou ano destes, teça com esmero um texto acerca do pastoreio, bem como da economia da lã, do leite e do queijo.  




Eis Montalvão cuja origem remonta ao mais puro rito do Cristianismo Templário. As actividades humanas decorriam pontuadas pelas cerimónias do Divino
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24 junho 2019

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Festa de São João

24 junho 2019 0 Comentários
A MAIOR E MAIS EXPRESSIVA DAS FESTAS DE JUNHO. EM MONTALVÃO DA RESPONSABILIDADE DOS RICOS.


O São João assinalando o nascimento de João Baptista é a mais expressiva e festejada comemoração no verão, por ser já uma data de festa popular antes do Cristianismo que aproveitou as comemorações pagãs em honra do Solstício de Verão (21/22 de junho). Tal como o Natal "herdou" os festejos populares pagãs referentes ao Solstício de Inverno (21/22 de dezembro). Na prática a «Festa do São João» durava três dias: 23, 24 e 25!



Entre a «Água Nova de São João» e os figos estiveiros
Aqueles acepipes roxos sem igual! Que não são frutos mas sim sicónios, ou seja, invólucro com as inflorescências das figueiras. Quando se come um figo, comem-se "flores" da figueira!



Sendo organizada pelos lavradores havia que fazer o melhor que fosse possível
A cada ano havia um responsável escolhido no ano anterior, era o Lavrador-Festeiro, mas auxiliado por todos os outros lavradores («os ricos», em montalvanês) para desempenhar cabalmente as suas funções. Com uma dezena de "ricos" em Montalvão tocava várias vezes a cada um o lugar de Lavrador-Festeiro ao longo da sua vida. O Festeiro-Mor (Lavrador-Festeiro) distinguia-se dos outros apenas por haver necessidade de centralizar algumas iniciativas - hoje chamar-se-ia logística - para que a Festa de São João tivesse o maior brilho possível, estando quem estava envolvido na sua organização. A festa era de todos os montalvanenses e visitantes mas o seu sucesso dependia do modo como era organizada. A existência de um Festeiro-Mor entre os "ricos" permitia que este cedesse instalações da sua casa - os maiores  edifícios da aldeia eram os dos "ricos" - como local onde se efectuavam os encontros ou reuniões entre todos, não só para a organização da Festa - geralmente era uma repetição do que vinha de tempos de antanho, de gerações para gerações, ainda que se fosse adaptando à realidade social e demográfica existente - como também para as refeições que coincidiam, geralmente, com os encontros para definir o que seria feito a seguir e fazer o balanço do que já estava realizado, ajustando os pormenores para que houvesse brilho e dignidade aos festejos. As reuniões/encontros obedeciam a praxes ancestrais, curiosas e rigorosamente cumpridas.  

Festividades na véspera
A meio da tarde do dia anterior (23 de junho), cerca das quatro ou cinco horas (dependendo do calor desse dia), o tamboreiro com o seu tambor dirigia-se a casa do Festeiro-Mor para se apresentar. Seguia-se uma arruada a rufar, isto é, percorria todas as ruas habitadas a tocar o tambor anunciando a Festa a todos os montalvanenses. Próximo do «Pôr-do-Sol» (em Montalvão, por finais de junho, cerca das 21 horas, quando em prática a hora de verão) o tamboreiro tornava a fazer outra arruada para convocar os lavradores (ou "ricos") que quisessem tomar parte na «Festa de São João», os quais afluíam à casa do Festeiro-Mor, onde eram acolhidos alegremente pela família do principal festeiro e conduzidos à mesa guarnecida, abundantemente, de comidas e bebidas. Esta praxe determinava que estando presentes em alegre convívio comprometiam-se a serem os festeiros desse ano. Um compromisso denominado "cabresto": cada um responsabilizava-se por contribuir financeiramente, desenvolver o trabalho ou iniciativas necessárias, além dos encargos com a componente religiosa que era o principal, pois o objectivo primordial era assinalar e comemorar, o melhor possível, o nascimento de São João Baptista, ou seja, dignificar muitos séculos depois, quem baptizou Jesus Cristo. No final, as despesas eram repartidas equitativamente por todos os que assumiam o "cabresto", embora cada um tivesse tarefas diversificadas tentando fazer o melhor que podia para corresponder às exigências de uma festa como esta. Ao Festeiro-Mor estavam destinados os compromissos tradicionais, enquanto os outros escolhiam de acordo com o que lhes apetecia naquele ano. Podiam fazer o que era habitual fazer a cada ano ou trocar com outro tentando fazer o mesmo com outras soluções e de outra maneira... inovando. Para as refeições, o Festeiro-Mor contratava uma cozinheira e um homem, geralmente um casal que já era conhecido de anos anteriores pela sua eficácia e bom desempenho, para servir a mesa e tomava nota de todos os gastos, desde pão e sal às iguarias. 
Após a primeira recepção na «Casa da Festa», saíam todos à rua para do exterior assistirem ao hastear ("arvorédâ" em montalvanês) da «Bandeira do São João» guardada aquando da escolha e "tomada de posse" do Festeiro-Mor no 24 de junho do ano anterior. Os montalvanenses que eram vizinhos do Festeiro-Mor ou que estavam de passagem juntavam-se por baixo da janela. A «Bandeira» era colocada, numa das janelas da casa, acto que era desempenhado pela esposa ou filha mais velha (se já capaz de o fazer) do Festeiro-Mor. No peitoril da janela, previamente, tinha sido colocado um lençol de linho "cercado", ou seja, guarnecido de renda em toda a sua volta. Por cima deste era lançada, debruçada, uma colcha ou coberta de damasco na qual assentava o pau ou mastro da Bandeira desfraldada e, para que não caísse, a extremidade inferior do mastro da Bandeira era fixada ao encosto de uma pesada cadeira, um cadeirão. Com o pano da Bandeira no exterior e a haste já firme, a esposa ou filha que colocara a Bandeira gritava para os festeiros e para o povo:

«Fetó, Meu Divino São João!» partindo o tamboreiro noutra arruada anunciando pela aldeia que estava arvorada a Bandeira de São João.

Quando a «Capela de São João» estava aberta ao culto religioso tendo ao fundo, no interior da mesma, a imagem de São João Baptista antes da Bandeira ser içada na «Casa da Festa» os festeiros ("os ricos") iam em romagem à «Capela de São João» levando o Festeiro-Mor - na vanguarda da romagem - a «Bandeira de São João» enquanto quatro festeiros, colocando o andor aos ombros, sempre com o Festeiro-Mor na dianteira com a «Bandeira» subiam a rua do Arrabalde e colocavam o Santo na capela da Igreja da Misericórdia que era durante a noite e o dia de São João, o centro religioso da aldeia. É provável que em tempos imemoriais o centro das solenidades religiosas fosse, mesmo, na Capela. Mas, isso, o tempo encarregou-se de o esconder de nós, mortais nascidos no século XX.


A Capela de São João localizava-se na rua de São João, lado esquerdo de quem sobe em direcção à Igreja Matriz, quase no enfiamento da rua das Portas de Baixo, onde está hoje a casa com varanda corrida e azulejos exteriores no piso térreo

Entretanto ia anoitecendo, e já tarde, de novo o tamboreiro em arruada partia a chamar os festeiros para a ceia na mesma casa, a da Festa, finda a qual se dava início às «Cavalhadas». Estas a sério, com cavalos e éguas, em vez de machos e mulas (Santo António) e burros ou burras (São Pedro).


O «Morôco» dos cavaleiros, utilizados pelos Lavradores e os seus filhos, na «Festa de São João». De ponta a ponta, um metro-e-meio. Vermelho tapeado a flores brancas. Na orla, enfeite metálico prateado

E o "Povo" montalvanense?
Além de participar na transferência da imagem de São João Baptista, entre igrejas, e no içar da Bandeira na «Casa da Festa» tal como nas cerimónias religiosas que entretanto podiam ocorrer (e ocorriam) na missa diária na Igreja Matriz tratavam dos últimos preparativos, juntando o máximo que podiam de rosmanhinho (que havia e há "toneladas" ao redor de Montalvão), marcela (que estalava quando aquecida para gáudio da pequenada («catchôpos e catchópas» em montalvanês) e algum alecrim para na noite de 23 para 24 fazerem fogueiras, cada família a maior que podia fazer, aproveitando para «Saltar a Fogueira» principalmente os filhos e amigos dos filhos. Eram noites de verão inesquecíveis as fogueiras de 12 para 13 (Santo António), 23 para 24 (São João) e 28 para 29 de junho (São Pedro) de cada ano.



Cavalhadas. Dia I. Noite
De entre os festeiros lavradores, os mais novos iam preparar-se e às suas montadas. Vestiam calça branca e pelos ombros o «marôco», capa de paninho vermelho bordado a pano branco enfeitado com fitas de várias cores. As montadas apresentavam-se com a crineira e o rabo ornamentados com flores, e a cobrir o peito, preso ao peitoril e à sela, um lençol branco, qual gualdrapa medieval. 
Preparada a montada, o cavaleiro subia para a sela, com a «facha» acesa e dirigia-se para a «Casa da Festa», onde se concentravam. A «facha» era constituída por um pedaço de cana com um coto de vela protegida por uma armação de papel, como nas procissões, mas em forma de cubo aberto por cima.
Todos reunidos, com o tamboreiro a rufar o seu tambor, o Festeiro-Mor, o filho ou quem o representasse, de «Bandeira» ao alto e seguido pelos outros, cavalgavam até à Praça (central nas traseiras da igreja de Misericórdia) local onde teria lugar o "aquecimento" para as «Cavalhadas». Chegados à Praça (então um largo, em quadrado, de terra batida) davam, a passo, três voltas ao recinto, colocavam a «Bandeira» numa janela também preparada com o lençol "cercado" e a colcha de damasco. Com a bandeira desfraldada, largavam em correrias, mostrando a sua destreza. Eram autênticas exibições de equitação com os cavalos e éguas a mostrarem o que tinham aprendido durante a vida, em particular, durante o ano findo. Havia quem se esmerasse em passes e rodopios do mais fino quilate. Com o "aquecimento" concluído largavam, pela rua Direita e rua de São Pedro, rumo ao «Largo (rectangular) da Corredoura», onde, desde o cimo (Leste) até ao final (Oeste) corriam à desfilada, em compita de velocidade, dois a dois, até se irem eliminando ficando um apurado vencedor.



Os cavaleiros, terminadas as «Cavalhadas» na Corredoura regressavam, pela rua Direita e rua de São Pedro, à Praça onde repetiam as três voltas a passo em torno do largo, recolhiam a «Bandeira» que, acompanhada por todos era reconduzida à «Casa da Festa». Com estas solenidades terminavam as exibições equestres da noite de São João. 
Nas ruas, cheirava intensamente a rosmaninho e alecrim queimado nas fogueiras e a aldeia ficava envolvida num imenso fumaçal com odor inebriante e agradável. Junto às casas dos "ricos" podia haver foguetes no ar e até exibições de «fogo-preso».   



Florias dos homens
A festa nocturna continuava com as «Florias dos Homens». Com a «Bandeira» na vanguarda empunhada pelo Festeiro-Mor, os festeiros entravam na igreja da Misericórdia, já repleto de montalvanenses, onde estava o andor de São João "armado" (devidamente ornamentado com flores envolvidas em tecidos finos e alegres) e preparado para seguir em procissão do dia seguinte, o "seu" dia. Rodeavam o andor muitos devotos, sobretudo mulheres, das quais duas entoavam louvores a São João com acompanhamento a adufes ritmados. As devotas cantoras (entoadeiras) revezavam-se havendo sempre um par em acção e, assim, continuavam até de madrugada, quase até (e até) ao «Nascer-do-Sol»(em Montalvão, por finais de junho, cerca das seis horas, quando em prática a hora de verão) . A música destes cânticos de louvores correspondia a uma salmondia lenta, repetindo incansavelmente, os mesmos e poucos versos, milhares de vezes durante as horas deste cerimonial em honra de São João Baptista (embora deva ser pronunciado em montalvanês. Só que há palavras e termos que não sei, só inventando, e isso está fora de hipótese):

«São João é bom santinho
Se não fosse tão velhaco
Foi à fonte com três moças
Foram três e vieram quatro

Ó meu divino São João Baptista
Ó meu Santo marinheiro
Levai-me na vossa barca
Até ao... (qualquer lugar ou localidade que termine em -eiro, como por exemplo, Rio de Janeiro; Herdade do Pereiro; Barreiro; salgueireiro)

Ó meu São João Baptista
Quem te deu a fita verde?
Foi uma moça solteira
De uma doença que teve»

Chegados os festeiros junto da imagem de São João, deitavam/faziam os seus "votos" em louvor do Santo, pedindo saúde para todos e a divina protecção para mais um ano da lavoura que se avizinhava.
Acabada a «Floria dos Homens» junto do andor, já na rua, o homem do tambor a rufar de forma diferente do tocar durante o dia, percorria as ruas, então já madrugada dentro, em sinal de estarem findos os actos festivos desta véspera e de ser conveniente cada um recolher às suas casas para o merecido, embora curto, repouso. 

Festividades no dia
O dia 24 era praticamente feriado. Não oficial mas oficioso. Os lavradores (os "ricos") davam o dia ao feitor e seus proletários rurais. Os artesãos fechavam portas e só atendiam urgências inadiáveis. Os pequenos proprietários trabalhavam a dobrar nos dias antecedentes para poderem estar livres no dia de São João pois animação e religiosidade não escasseavam. Antes pelo contrário. Montalvão tinha essa, entre muitas particularidades, tantas e tão diversificadas, que a tornam singular entre milhares de povoações em Portugal e no Mundo. Está consagrada a Nossa Senhora da Graça (por influência de Nisa - sede de concelho - na segunda-feira depois da Páscoa), tem como principal devoção (Nossa Senhora dos Remédios, em 8 de setembro) e como grande dia de festejos, São João Baptista, em 24 de junho. Actualmente, resta Nossa Senhora dos Remédios (ou «senhô'drumédes» em montalvanês) que congrega um pouco de todas as outras festas e folguedos, já inexistentes, em três dias que variam de ano para ano, em torno do 8 de setembro.



Cavalhadas. Dia II. Manhã
Na manhã do dia de São João de novo se corriam as «Cavalhadas» mas com um outro cerimonial, onde e fazia apelo à destreza em detrimento da velocidade. Os cavaleiros, de chapéu alto, sobrecasaca preta, calça branca e esporas, montavam sem o lençol na frente da montada. Chegados à Praça (quadrangular) era apresentada e oferecida por um homem do povo ao cavaleiro mais idoso uma cana recentemente  colhida, completa com as suas longas folhas. O cavaleiro levava a cana para casa depois de agradecer a oferta. Nas «Cavalhadas» da manhã e que continuavam pela tarde se não houvesse tourada, eram exibidos os actos de destreza a cavalo no Largo da Corredoura (rectangular) onde, a atravessar a rua e a conveniente altura, estava uma corda da qual pendiam várias argolas de ferro. O cavaleiro, em corrida a galope, e munido de uma vara simulando uma lança, procurava enfiar esta numa das argolas e retirá-la da corda. Certamente reminiscências dos torneios medievais (ou «Justas») contemporâneos da fundação de Montalvão em final do século XIII e início do século XIV.



Touradas na Praça
Na parte da tarde, logo depois de almoço, era frequente fazer-se a tourada de verão na Praça. Fechavam-se as duas ruas (São Pedro e Direita) e ruínhas (entre a Igreja da Misericórdia e a Igreja Matriz, ligações a norte e sul) com carretas (puxadas por vacas e bois), carros (puxados por mulas e machos) e carroças (puxadas por burros e burras). Também serviam de assento para quem quisesse assistir resguardado. As touradas eram mais frequentes quando algum dos "ricos" tinha um touro (boi não castrado), vacas "tourinas" ou bezerros e era, nesse ano, o Festeiro-Mor. Dava logo outro impacte ao São João desse ano. As touradas só o eram de nome. Havia pessoas a correr à frente dos animais e por vezes a tentar pegá-los. Quer uns quer outros, muitas vezes já com o seu "copito a mais" eram colhidos. Cheguei a ver alguns homens marcados por cornadas, como Ti Manel Têxêra (Teixeira) e houve mortes. Com a inauguração, em 1933, da Praça de Touros, ao fundo das duas azinhagas - a da continuação da rua do Ferro e a da continuação da rua das Portas de Cima - de ligação à «Fonte Cereja» as "touradas" passaram a fazer-se no recinto devidamente apetrechado para tal, com outras condições, incluindo "embolas" nos chifres permitindo mais segurança aos atrevidos com mais ou menos "grão na asa". Como até aos Anos 20, o dia da «Festa de Nossa Senhora dos Remédios» era comemorado no local da ermida (e apenas num dia ou quando em dois os montalvanenses pernoitavam por lá) não havia touradas por essa festa. Depois com a construção da Praça de Touros começaram a fazer-se touradas no dia anterior e no dia seguinte. As "Festas da Senhora" passaram a três dias comemorados no «Largo da Corredoura». E na actualidade, talvez desde meados os Anos 90 do século XX, num recinto próprio, junto à «Praça de Touros» do outro lado da «Estrada da Salavessa» que é mais «Estrada para a Salavessa».



Missa e Procissão
Chegada a hora da Missa, todos os festeiros se encaminhavam para a Igreja Matriz a fim de assistirem aos actos litúrgicos. Por fim, era a «Procissão», à frente o tamboreiro e outro homem a deitar os foguetes (o fogueteiro), a seguir a «Bandeira de São João» levada pelo Festeiro-Mor ou um seu representante, ladeado por outros dois, um de cada lado. Depois do andor com a imagem de São João Baptista levado aos ombros por quatro cavaleiros - geralmente também festeiros - ainda com os trajes de cavalgar, mas apeados. Os restantes ladeavam o andor e por fim o padre levando a «Cruz», seguido do povo montalvanense e visitantes de aldeias e vilas vizinhas. O percurso era o habitual * (ver NOTA na legenda da imagem com o itinerário da procissão). Era uma das maiores procissões, a par da Semana Santa, dos Passos e Corpo de Deus. Mas era sem dúvida, a mais buliçosa quando comparada com as outras, onde o recato religioso era maior. O foguetório dava-lhe esse cunho entre um misto de Fé e Folguedo, com a miudagem (e até alguns adultos) mais entretidos a tentar apanhar as canas dos foguetes depois destas caírem, muitas vezes nas tapadas e quintais adjacentes ao limite da aldeia, que propriamente no simbolismo da Procissão. Recolhida a procissão ia cada um para sua casa.


Na Procissão da São João o percurso era o habitual com a excepção do andor sair da Igreja da Misericórdia e chegar à Igreja da Misericórdia (substituindo na saída e chegada a Igreja Matriz). * Quando a capela de São João estava dedicada ao culto, o andor saía da Igreja da Misericórdia mas recolhia à Capela de São João, ou seja, depois de descer a rua de São Pedro e a rua do Arneiro em vez de inflectir para a esquerda, subindo o Arrabalde, inflectia para a direita descendo a rua de São João com a capela logo a menos de 15 metros do cruzamento da rua do Arneiro com a rua de São João, e do lado direito de quem desce a rua de São João. É provável que em tempos "muito antigos" a Procissão saísse e chegasse à Capela de São João. 

Nomeação do Festeiro-Mor para o ano seguinte
Pela tarde realizava-se a cerimónia de transmissão da «Bandeira» ao Festeiro-Mor do ano seguinte. Dentro da igreja, o Festeiro-Mor cessante passava a «Bandeira» para as mãos do escrivão que junto ao andor e com ela erguida, proclamava:

«Saiu eleito por mais votos para alferes de São João Baptista e para dar a «Festa» segundo os usos e costumes no ano de 1... para o ano de 1..., o senhor ....... Está por aí ou alguém por ele?»

Era da praxe o nomeado, que por via de regra estava presente, aguardar que a chamada se fizesse por três vezes. Só à terceira voz avançava, já com o lenço de seda na mão pronto para receber a «Bandeira». Com ela erguida seguia para sua casa acompanhado de todos os presentes e colocava-a à janela preparada com o lençol cercado e colcha de damasco, para que todo o Povo soubesse quem era o novo Festeiro-Mor. Convidava os acompanhantes a entrarem e servirem-se dos bolos e vinhos.
A «Bandeira» ficava exposta até à noite, para as "Florias das Meninas", e ao princípio da noite havia ceia durante a qual se comentavam os acontecimentos do dia, com louvores e chufas que não alteravam a boa disposição.

Florias das meninas
À noite, a filha do Festeiro-Mor, ou não a tendo, a menina mas íntima da casa, a quem era dado o nome de "Flor de Laranjinha", tomava nas mãos a «Bandeira» e ladeada por mais duas meninas, as «Madrinhas», juntamente com grande grupo de raparigas atrás, tangendo almofarizes e adufes em cadência com o tambor que seguia ao lado, tlim, tlim, tlintintim, o Festeiro-Mor e muito povo, dirigiram-se primeiro à Igreja da Misericórdia (ou à capela de São João tendo em consideração a alternativa já indicada neste texto) em visita a São João Baptista e depois percorriam as ruas. A esta ou aquela janela, a dona da casa pedia a insígnia e com ela presa nas mãos agitava-a para a direita e esquerda, dando o seu ventó:

«Fetó, meu divino São João» e acrescentava o seu voto. Por fim regressavam a casa.

«Água Nova de São João»
À meia-noite as raparigas iam em grupo à fonte de Nossa Senhora dos Remédios, a quatro quilómetros, ou aos chafaries de Santa Clara, de Paules, encher as enfusas com a "água nova de São João". Também deitavam um ovo sem casca num copo de água para antes do nascer do Sol observarem as formas caprichosas que tomara a clara, procurando interpretá-las como seria a profissão do futuro marido.
Nesta mesma noite as raparigas faziam "capelas" de ramos de videira enfeitadas com cravos. Uma de cada vez punha-a na cabeça e recitava:

«São João casai as moças
Que vos trazem capelas
Àqueles que as não trazem
Deixai-as ficar donzelas

São João casai as moças
Que vos fazem fogueiras,
Àquelas que as não fazem
Deixai-as ficar solteiras»

... e outros semelhantes.

Festividades no dia seguinte
No dia 25 de junho, dia seguinte ao da «Festa de São João», ainda havia, na «Casa da Festa» o almoço dos festeiros que aceitaram a organização das comemorações do São João desse ano e à tarde o jantar, orientado pelo Festeiro-Mor, findo o qual se faziam as contas de todas as despesas que eram equitativamente repartidas por todos, como boa e democrática prática.



Eis Montalvão cuja origem remonta ao mais puro rito do Cristianismo Templário. As actividades humanas decorriam pontuadas pelas cerimónias do Divino
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