ESTE SOM É INCONFUNDÍVEL. ESTE É O SINO QUE TODOS OS MONTALVANENSESRECONHECEM ONDE QUER QUE ESTEJAM. EM QUALQUER PARTE DO PLANETA OU DO UNIVERSO.
EM MONTALVÃO, NISA, PORTALEGRE, LISBOA, MADRID, BRUXELAS, NOVA IORQUE, NOVA ZELÂNDIA, EVEREST OU PÓLO NORTE E SUL. ATÉ NA FACE OCULTA DA LUA.
Na torre do relógio, em Montalvão, o sino repica as horas um minuto depois da(s) primeira(s) badalada(s)
De Fernando Pessoa por Fernando Pessoa
O Ti Zé Caratana é que me ensinou, aí por 1970, que não há dois sons sineiros iguais, dependendo da quantidade e tipo de metal (umas gramas fazem muita diferença), da forma da campânula e do badalo. Do comprimento e da largura da campânula. Do tipo de lingueta. Qualquer pequena alteração muda todo o som. Como em tudo não era só ele que sabia isto, mas como ninguém nasce ensinado alguém tem de contar a outro o que sabe e este um dia contará a um outro e assim evoluiu a Humanidade com o conhecimento a ser partilhado de geração em geração.
Lembro-me do Ti Zé Caratana agarrar num tronco de azinheira e fazer o suporte (jugo) para o outro sino, o da torre Norte, a dos toques eucarísticos - que ainda lá está firme e hirto. Ao ter questionado, em 1974 ou 1975, quanto tempo duraria, o Ti Zé Caratana afirmou peremptório: «Feito de azinho! Vais ouvir o sino, tal como os teus filhos, netos e até bisnetos»
COMPLETAM-SE HOJE 820 ANOS EM QUE DOM SANCHO I ENTREGOU À ORDEM DOS CAVALEIROS DO TEMPLO A HERDADE DA AÇAFA.
A Herdade da Azafa/Açafa a sul do rio Tejo. A azul: linhas de água; a castanho - linhas dos cabeços/topos
A doação da «Herdade da Açafa», em 5 de julho de 1199, teve grande importância para a consolidação do território de Portugal, com destaque para o sul do rio Tejo e colocar uma fronteira de norte para sul entre as conquistas cristãs repartidas com o Reino de Leão em território dos Almóadas. E foi fundamental, com a ocupação e pacificação por parte dos Templários para o surgimento de aglomerados populacionais, entre eles, Montalvão em 1278. Entretanto, neste mesmo ano de 1199, em 27 de novembro, Dom Sancho I concedia Foral a Guarda elevando-a a cidade (quando era um pequeno lugarejo à época) e pouco depois o Papa concedia-lhe o privilégio de ser Diocese reactivando mais a norte a outrora esplendorosa e influente Egitânia (atual Idanha-a-Velha) nunca imaginando que meio século depois iria criar um conflito entre o Bispo da Guarda (expansionista) e a Ordem do Templo (a tentar conservar o seu território aproveitando a barreira natural do rio Tejo) depois de terem progressivamente "perdido" para a Diocese da Guarda todo o território que receberam em 5 de julho de 1199 a norte do rio Tejo. Um conflito que durou entre 1242 e 1287, durante o qual foi fundada a templária Monte alvam. O texto original da doação da «Herdade da Açafa» (excerto a sul do rio Tejo):
A tradução do texto: Parte também além do rioTejo pela foz da ribeira deFigueiró como entra no rio Tejo dali defronte de Melriça (Cabeço de Vide)e corre a Mongaret (Serra de São Mamede), dali a Cimalha da água da ribeira de Avid, dali ao Castelo de Terron como caminho ao Mosteiro de Alpalandro, e dali ao Semedeiro de Benfaian, dali ao Porto de Mulado rio Salor como correm as águas para o rio Tejo. O texto completo e respetiva tradução podem ser lidos em clicar.
É deveras interessante estar em Montalvão e pensar na origem do topónimo.
Há certezas para todos os gostos e opiniões. Desde
origem geográfico-orográfica: Monte'alvão/Montalvão como significado de
«monte branco» ou «monte alvo» embora se questione porque não ficou
«Montebranco», «Montalvo» (há um mas podia haver dois!) ou mesmo «Monte
Branco» havendo «Castelo Branco» por perto! Mas também com origem noutras povoações desde Montauban (França), a Montalbano (em Itália, bela elevação não muito longe de Florença) e até Montalbán (Espanha). Pois pode ser. Pois podem ser.
A 16 de abril de 1287, em Castelo Branco, o Capítulo-Geral da Ordem do Templo e o Cabido da diocese da Guarda reuniram-se, resultando um documento, onde está explícito (em caligrafia preto no branco)... Montealuã pronunciando-se Montealvã
E por que não «Monte'alvam» depois «Montealvã» de "a vão" ou "em vão" como que a pairar/suspenso ou de "alvo" para alguém ou algo?
E por que não a homenagem de um herói templário (Dom Vasco Fernandes, nascido em 1261) a um herói lendário da cristandade, desde o século XI, com nome honrado em várias culturas e nações europeias: Renaud de Montauban (depois herói-magno no livro «Chanson des Quatre Fils Aymon», de Huon de Villeneuve; 1497) Rinaldo di Montalbano (depois herói no livro «Orlando Furioso», de Ludovico Ariosto; 1516) Reinaldo de Montalbán (citado como exemplo no livro «Don Quijote de La Mancha», de Miguel Cervantes; Parte I; 1605) E devidamente traduzido - pelo ilustre e distinto Feliciano de Castilho, entre outros - para a Língua Portuguesa como "Reinaldo de Montalvão" em «Dom Quixote de La Mancha».
Pois
bem... certamente que a origem do topónimo «Montalvão» nunca se saberá
qual é e foi! Dificilmente se conseguirá obter a certeza do que o tempo
calou! Mesmo com direito a ópera do mestre G. F. Händel denominada Rinaldo (di Montalbano). Num excerto magnífico com a ária (Lascia ch'io pianga) de uma ópera genial (Rinaldo) em toda uma obra de excelência (G.F. Händel).
Montalvão ou Vasco de Montalvam!? NOTA: Dedicada, por este blogue, a Montalvão a ópera Rinaldo (de Montalbano) em português, Reinaldo (de Montalvão)
HÁ 459 ANOS PODE TER SIDO PUBLICADO O PRIMEIRO MAPA INTEGRAL COM TODO O TERRITÓRIO DE PORTUGAL CARTOGRAFADO.
E dele já constava Montalvaõ assim como de quase todos os que se lhe seguiram. A data de 20 de maio de 1560 é dúbia como revela este excelente texto acerca desse primeiro mapa de Portugal (clicar). 1662
Pedro Teixeira Albernaz (clicar) consegue já maior precisão na localização relativa ainda que a exatidão no século XXI não pode ser exigida ao século XVII.
1688
Mapa do cartógrafo Frederico de Witt publicado nos Países Baixos (clicar) 1798
Mapa das estradas e vias militares para uso do serviço postal indicando as léguas e as horas que gasta o correio a pé. 1830
No século XIX a cartografia continuava a progredir. Eis um mapa do Marquês de Fortia d' Urban (clicar)
1865
A cartografia rigorosa de Filipe Folque com nome em rua de Lisboa (Avenidas Novas) e merecidíssima (clicar).
1945
A folha de Castelo Branco (em 18) para o território de Portugal. Cartografia da Península Ibérica impressa em Espanha (Madrid) na escala 1/250 000. O território português foi cartografado tendo por base a «Carta Itineraria de Portugal»; Secção Cartográfica Militar/Madrid; 1/250 000 (Folhas 14 a 19); 1929 a 1937 Uma longa caminhada que permitiu progredir durante séculos. Uma constante. A presença de Montalvão
NÃO HÁ DOIS SINOS COM O
MESMO SOM. BASTAM CINCO GRAMAS DE BRONZE A MAIS OU A MENOS. CINCO CENTÍMETROS
ACIMA OU ABAIXO NA CAMPÂNULA. ESTA SER MAIS LARGA OU MAIS ESTREITA PARA SOAR
UMA BADALADA DIFERENTE.
O TEXTO DA «DOAÇÃO DA HERDADE DA AÇAFA» É EXPLICITO.
Os cavaleiros da Ordem do Templo e o seu domínio na Açafa vão ser
importantes para a consolidação de Portugal, pois enquanto afastavam os
sarracenos, dos almorávidas aos almóadas, para Sul, estancaram o poder do Reino
de Leão (depois anexado, em 1230, ao reino de Castela) em envolver
Portugal tomando-lhe o Sul.
A «Doação da Açafa» ocorreu em 5 de julho de 1199. Um território vasto
em espaço, limitado em povoamento e bem delimitado pelas linhas de
águas ou talvegues (rios e ribeiras) e as linhas de festos
ou altitudes (cabeços ou cimos), ou seja, fronteiras naturais. Como ainda na actualidade
entre regiões e países.
EM
nome de Deus. Como na verdade o costume tenha força de lei e por autoridade da
lei conhecemos as acções dos Reis e Príncipes que se devem perpetuar as escrituras
porque assim perpetuadas não se perdem da memória dos homens, e estejam
presentes a todas as coisas que muitos anos antes passarão. Portanto, Eu D.
Sancho pela graça de Deus, Rei de Portugal juntamente com meu Filho El-Rei D.
Afonso, e com os outros meus Filhos, e Filhas, faço carta a vós D. Lopo
Fernandes Mestre da Milícia do Templo em nosso Reino, e a vossos Freires assim
presentes como futuros de Açafa, o qual lugar vos damos, e a todos vossos
sucessores por direito hereditário para sempre; e isto faço por Deus, e pelo
bom serviço, que temos recebido de vós, e de todos os Cavaleiros da Milícia do
Templo, e cada dia recebemos; e pelas Igrejas do Mogadouro e Penas-Ruivas, as
quais nos destes bem paramentadas de tudo quanto pertence ao culto Eclesiástico.
Cujos termos da Açafa são estes. Parte com Belver como entra a água do rioOcreza no rio Tejo,
e como ou donde entra a água da ribeira dePracana no rio Ocreza
e dali como vai a água da ribeira dePracana a caminho de Idanha
no Cabeço de Seixo, e dali aonde entra a água da
ribeira deSeixo
na ribeira de Bostelim, daqui a fonte da ribeira de Carvalho, dali ao Recefe Mourisco como entra na corrente da ribeira de Isna, dali o cabeço
que está entre da ribeira de Isna e a ribeira de Tamolha aos Pardineiros
Velhos, dali pela grande serra que está entre
a ribeira de Isna e a ribeira de Tamolha; dali desce à foz da ribeira de Oleiros e da foz ribeira de Oleiros à estrada de Covilhã à foz da ribeira
de Cambas, dali ao cabeço deMoncaval; dali ao cabeço de Asina
como vai para a ribeira de Alpreada que fica
no termo de Idanha. Parte também de Idanha ao rio Tejo
até ao rio Ponsul; dali ao cabeço de Mercoles como vai ao cabeço da Cardosa. Parte também além do rioTejo pela foz da ribeira
deFigueiró como entra no rio Tejo dali defronte de Melriça
(Cabeço de Vide) e corre a Mongaret (Serra de
São Mamede), dali a Cimalha da água da ribeira de Avid, dali ao Castelo
de Terron como caminho ao Mosteiro de Alpalandro,
e dali ao Semedeiro de Benfaian, dali ao Porto de Mula do rio Salor
como correm as águas para o rio Tejo. Damos por isso a vós e à vossa Ordem o
sobredito lugar por direito hereditário pelo amor de Deus, pelas sobreditas
Igrejas que acima nomeamos, e a vós concedemos que povoeis o tal lugar do
melhor modo que puderes; e termos por certo e valioso que se governem os
moradores dele livremente pelo Foral, que por vós lhes for dado; e aqueles que
herdares no tal lugar fiquem herdados. Vós porém sereis obrigados a receber-nos
no tal lugar, e a todos os que de nossa geração nos sucederem como Reis, e
Senhores vossos todas as vezes, que a eles quisermos ir. Portanto todo aquele,
que esta nossa Carta vos guardar inteiramente, e a todos os vossos sucessores
seja bendito do Senhor. Assim seja. E aquele que presumir, tentar quebrá-lo ou
diminuí-lo seja maldito e tudo o que fizer seja errado e sem valor. Foi esta
Carta feita em Covilhã, no quinto dia do mês de Julho da Era de mil duzentos
trinta e sete.Nós
os Reis que esta Carta mandamos fazer a certificamos em presença dos abaixo
assinados nela, e fizemos estes sinais -----I-----I-----I-----Os que presentes
se acharam &c. D. Gonsalo Mendo Mordomo da Curia. Conf. / D. Paio Monis Alfers Mor.
Conf. / D. Raimundo Paio Governador de Covilham. Conf. / Martim Lopes Trancozo. Conf. / D. Lourenço Soares Lamego. Conf. / Egas Affonso Alafone. Conf. / D. João Fernandes Trinchante mor. Conf. / Martim Arcebispo de Braga. Conf. / Martins Bispo do Porto. Conf. / Pedro Bispo de Lamego. Conf. / Nicolau Bispo de Vizeu.
Conf. / Pedro Bispo de Coimbra. Conf. / Soares Bispo de Lisboa. Conf. / Paio Bispo de Ebora. Conf. / D. Osorio.test./ Rodrigues Pedro. test. / Pedro Nunes. test. / Soeiro Soares.
test. / Fernando Nunes. test.
Uma região inóspita, quente e seca, imprópria para fixar
populações em número demográfico elevado por falta de condições agrícolas baseadas no
Linho (tecidos e vestuário), Porco (enchidos/carne para todo o ano), Cabras (calçado e apetrechos, leite e queijos ou carne fresca), Caça, Asnos (transporte e trabalho), Oliveira (fruto, madeira e azeite), Sobreiro (lande/comida para porcos, madeira para queimar e cortiça),
Vinha (uvas e vinho), Azinheira (bolota alimento humano e madeira para construção), Xaras (lenha) e o cereal possível. Longos estios com escassez de água que mal conseguia matar a sede aos humanos durante quatro/cinco meses em doze. Uma região
assolada por ser confluência de três fronteiras: portugueses, leoneses e povos
islamizados. Objectivo: Os Templários cristianizarem, povoarem e conseguirem
manter o Reino de Portugal com dimensão suficiente impedindo o Reino de Leão de
o transformar numa bolsa condenada a perder a independência. Povoar, lutar
contra o Islão e marcar presença junto dos leoneses empurrando-os
para o centro da Ibéria onde estavam os castelhanos.
Próxima paragem em 1212: O contributo da Açafa para a decisiva batalha de "Navas de Tolosa"
Em plena Reconquista Cristã para retirar território aos sarracenos (e fazer de um pequeno condado uma nação valente) os Reis de Portugal com o seu séquito conquistavam para Sul mas para o interior Leste as dificuldades eram maiores em tomar posse dos mesmos, ou seja, impor os valores do Cristianismo e o poder de Portugal. O litoral foi mais fácil de reconquistar aos mouros e povos islamizados pois contavam com a ajuda dos «Cruzados» do norte da Europa que ao rumar à Palestina passavam junto da costa ocidental da Europa.
A reconquista do interior apresentava problemas de resolução difícil. Terrenos pouco povoados, inóspitos, pobres, sem recursos alimentares onde se passava mas não se ficava. Além disso para Sul «caminhavam a pelejar para acrescentar território», pelo menos, três Reinos cristãos - Portugal, Leão e Castela - em busca de mais espaço para não só estabilizar (por pacificação) o que já estava conquistado a Norte, facilitando a fixação de população, mas para ir alargando território. O Reino de Portugal ainda se deparava com a sua idiossincrasia. Só podia pensar em conquistar para Sul e Leste pois a Oeste tinha o Mar. Para Sul mais facilidades que os dois outros Reinos cristãos na reconquista do território (devido ao litoral) mais dificuldade em chegar primeiro pelo interior, disputado "palmo-a-palmo" com o reino de Leão. Território vasto pouco povoado ainda com reminiscências romanas. Grandes propriedades dominadas por culturas de sequeiro aproveitando as poucas ribeiras de caudal ao ritmo das chuvadas para algum regadio. Vida difícil no solo esquelético, seco e quente, de pasto ralo, com sementeiras e colheitas suportadas por trabalhadores rurais a viver agrupados em "Montes" onde faziam as suas vidas e pouco mais conheciam que os limites dessas herdades vastas, dolorosas e inóspitas. Com os conflitos entre os valores do Alcorão implantados nos gentios e a passagem de cavaleiros cristãos a tentar expulsar os povos islamizados gerou-se em territórios vastos e pouco povoados a necessidade de habitar locais altaneiros que permitissem observar a chegada e a partida desses cavaleiros que vinham para se impor.
O Primeiro Soberano (D. Afonso Henriques que reinou até 6 de Dezembro de 1185) começou por doar à Ordem de Santiago, em 1172, um vasto território a Sul do castelo de Monsanto e a Leste do castelo de Abrantes sem fim, a não ser o que os cavaleiros às ordens do Conde de Sarriá, D. Rodrigo, conseguissem ocupar. Não parece que tenha havido sucesso territorial conquistado mas houve conhecimento adquirido pois D. Sancho I (que reinou entre 6 de Dezembro de 1185 e 26 de Março de 1211) pode ser mais preciso e conciso nas doações que fez para expulsar o poder islamizado, ocupar os territórios e alargar o Reino instaurado pelo seu pai. Em 1197, confirmou a doação à Ordem do Templo dos territórios da Idanha (a Sul do castelo de Monsanto) e no ano seguinte (1198 ou 1199) a vasta Herdade da Açafa (a Leste do castelo de Abrantes). E nesta havia já fronteiras bem definidas e lugares de referência para que o território a ocupar e defender fosse efectivo e delimitado. O ano de 1199 é o que mais se adequa à doação, em 5 de julho de 1199, visto ser Mestre da Ordem do Templo o cavaleiro português D. Lopo Fernandes (citado no documento de doação) que morreu em combate junto de D. Sancho I, em Agosto de 1199, na tentativa de conquista da praça de Cidade Rodrigo ao Reino de Leão. Uma guerra entre Portugal (D. Sancho I) e Leão (D. Afonso IX) com Castela (Afonso VIII) à espreita, para definir a vanguarda da luta contra o Islão. Com o Reino de Leão a envolver o Reino de Portugal a expansão a Leste ficava comprometida a Norte do rio Tejo com a consciência que o território não passaria de uma estreita faixa entre leoneses e o oceânico mar atlântico. Havia que garantir alargamento a Sul do Tejo onde quem mais sucesso tivesse frente aos sarracenos mais território conseguiria. Infelizmente o 7.º Mestre da Ordem do Templo, D. Lopo Fernandes teve mestrado breve (1195/1197) quando dele muito se esperava.
Pouco tempo antes de morrer em Cidade Rodrigo, D. Lopo Fernandes, recebeu de D. Sancho I a responsabilidade de "cristianizar" (derrotar, pacificar e povoar) um território vasto bem definido nos limites e com os locais habitados discriminados e enumerados. Fica o texto da «Doação da Azafa/Açafa» para quem souber latim. Para amanhã (ou um dia destes) a apreciação aos topónimos que constam da doação. Este território contém o actual Montalvão que não sendo descrito, não passaria, em 1199, de um Monte Ermo.
São como as vacas do senõr Insébio a lavrar sem chocalho! (Ir para uma festa ou cerimónia mal ataviado/vestido) É uma jangada à Ti Meguens. (Fazer algo mal feito que se desfaz com pouco) Parecem as comédias do señor Costa! (Fazer de algo sério uma fantochada) É como a Chá Machada. Ela os põ, ela os tira! (Quem dá de má vontade também pode tirar) Boas como as cadeirinhas do Bento! (Quem valorizava o que não prestava) Olhem batatas da Marí Lambona! (Andar com roupa esburacada ou grosseiramente remendada) São como as vacas do senõr Jaquim! (Pensar que está bem vestido e passar por desarranjado) Hora-e-meia, Jã Fernandes! (Medir mal o tempo)
Foram tempos bem passados. Primeiro na casa da Rua das Almas (onde nasci). Depois na da Rua de São Pedro (onde passava as Férias Grandes mesmo grandes, de meados de Junho a início de Outubro). O Ti Zé Caratana ou JAL (como ele gravava no xisto das propriedades) nas divisórias para não "ter trabalhos". Passar o dia no «Lagar» (ex-lagar de azeite da aldeia depois oficina de carpinteiro na Rua das Almas). Ou andar em cima do trilho de madeira na eira da «Tapada do Pontão». Ou não conseguir beber a água salobra cheia de aranhiços no pocinho da «Fonte Cereja». Ou ir apanhar uvas na «Cerejeira» e roubar uma romã. Ou ir ao «Lamaceiro» ripar o grão-de-bico. Ou ir passar o dia na «Charneca» entre medronheiros e figueiras da índia com uma boa nascente para alimentar os dois socalcos com horta. Ou ir à «Nave-Cravis» com aquele palheiro típico que dava para duas propriedades distintas. Ou ir ao «Monte Pombo» ver o pinheiro manso e meia dúzia de sobreiros. As oliveiras eram comuns a todas as propriedades. No total uns seis hectares. Quase metade na «Tapada do Pontão» dividida em quatro: eira, cova, mina e última. O Ti Zé Caratana tinha dois burros que já não sou do tempo da égua. O meu burro era o «Redondo». O burro mais bonito da Vila. Até pensos rápidos aquele burro teve por causa das feridas e dos inoportunos mosquitos, melgas, moscas, varejeiras e moscardos que se aproveitavam das fragilidades do asno. Quem não ia muito em graça com gastar pensos rápidos em burros por ser "atitude burra" era a avó Ana da... Graça. Mas o melhor eram os enchidos quando ainda estavam crus no fumeiro do lume, lá na cozinha dos primeiros pisos. Distinguir uma linguiça de um chouriço é que era o diabo para quem não sabia. Lá as horrorosas morcelas e farinheiras sonsas eram fáceis de identificar. Longe! Mais as cacholeiras e os mouros. Tudo no fumeiro. O toucinho estava condenado ao saleiro. Bom, bom era o Lombo, o Paio, a Bexiga, o Painassedisso, o Buxo e o Guarda-fumeiro. O presunto era caso à parte e estava atafulhado em sal. À minha vontade o porco só dava destes petiscos. Ainda fresca de vez em quando tombava do céu da chaminé uma gota de unto. A carne estava a curar-se. Já vi médicos menos atenciosos para com as carnes. O avô Zé Caratana era uma enciclopédia. E gostava de se rir dos netos que estudavam na cidade mas que não "pescavam" adivinhas montalvanenses. 1. Sou frio, também sou quente, Sou fraco, também sou forte, Nunca posso estar parado. Vejam lá a minha sorte! 2. Qual é coisa, qual é ela? Assobia sem boca E corre sem pés, Bate na cara E não vês? 3. Qual é coisa, qual é ela? Que se põe na mesa Corta-se e não é para comer? 4. Adivinhar, adivinhar Qual é a coisa primeira Que se faz ao acordar? 5. Qual é coisa, qual é ela? Que quanto maior é Mais perto fica do chão?
Quando acabavam as adivinhas ou histórias e começavam os provérbios é que tudo começava a andar para trás porque invariavelmente acabava no mesmo de sempre. Sempre 1. A aranha vive do que tece; 2. Bem rico é quem nada deve; 3. Cada macaco no seu galho; 4. De boas intenções está o Inferno cheio; 5. Deitar cedo, cedo erguer, dá saúde e faz crescer. Tempos que já foram mas que ainda são (ou não estivesse a escrever acerca deles)
A UTILIZAÇÃO DO TERRITÓRIO ONDE SE INSTALOU O CONCELHO (AGORA FREGUESIA) DE MONTALVÃO TEVE OCUPAÇÃO PRECOCE MERCÊ DA CONFLUÊNCIA DE DOIS IMPORTANTES RIOS, O TEJO E O SEVER.
Abundam vestígios pré-históricos com «Antas e Dolmenes», vários muito próximos de locais onde existiam fontes, chafarizes e nascentes de água que durante séculos sustentaram a aldeia de água potável até ser construído o depósito, em 1961, nas "barbas" do Castelo para abastecer a aldeia e levar água canalizada de casa de cada um. Também nos leitos dos rios Tejo e Sever há inscrições paleolíticas rupestres nas rochas de xisto desses cursos de água com motivos do dia-a-dia (desenhos de animais e plantas, até de aspecto humano, ou seja, antropomórficos) além de cultos à Natureza (Sol, Lua, Estrelas e outros fenómenos astrais) que marcavam o ritmo diário, semanal e anual, de toda uma vida dessas pequenas comunidades que deviam ter pouco contacto entre elas e ocupavam o território episodicamente ao sabor das necessidades num tempo em que a mortalidade elevada e a natalidade problemática faziam com que as comunidades humanas fossem mais nómadas que sedentárias vivendo da Natureza. Temporariamente (por isso) pouco sedentárias. VESTÍGIOS PRÉ-HISTÓRICOS NO CONCELHO DE NISA
Um tema interessante historicamente ou pré-historicamente falando mas que não é do âmbito do que se quer para este blogue que não visa historiar Montalvão desde o início dos Tempos. Simplesmente porque não existia como aglomerado populacional. Existiam seres humanos que ocupavam temporariamente um espaço adverso no tempo da «Recolecção» em clima (calor e secura) e qualidade dos terrenos para cultivo. Para agricultura, num tempo de baixa demografia, havia terras mais fáceis de trabalhar e com maior produtividade.
Há a feliz circunstância de a Sul de Montalvão as formações rochosas do Maciço Antigo terem sido generosas estabelecendo uma "fronteira geológica" onde a Sul temos granitos e a Norte os xistos.
Foi nesta "fronteira" que os povos que as foram habitando perceberam que as plantas e animais sofriam mutações devido às mudanças do tipo de terreno que suportavam a cadeia alimentar: terrenos diferentes geram plantas de espécies diferenciadas e estas atraem determinados herbívoros que são vítimas de predadores carnívoros sem contemplações. Foi nesta «linha de demarcação geológica» que se ergueram alguns dos maiores menires da Península Ibérica.
Menir da Meada, freguesia de Póvoa e Meadas, no concelho de Castelo de Vide. Um monumento extraordinário à evolução do Ser Humano
Muitas das pedras que outrora foram postas por Seres Humanos que habitaram o espaço, esporadicamente, com intenção de demarcação, protecção ou homenagem, foram depois removidas pelos agricultores, lavradores e pastores - com natural desconhecimento da sua importância - que destruíram para seu uso individual ou colectivo aproveitando a pedra ou pedras: lajes e colunas.
O que interessa é perceber como vai nascer a localidade de Montalvão e não a existência de micro-comunidades dispersas num vasto território. Como surgiu um aglomerado populacional tão simples, ordenado e que rapidamente passou da não existência para uma das maiores aldeias do Alto Alentejo.
Em breve o que conta O desejo e interesse da imberbe e mui-jovem Coroa portuguesa nestes espaços no (então) extremo da reconquista, realizada de Norte para Sul e o modo como se encontrou uma possibilidade de alargar o território pelejando muçulmanos que haviam ocupado terras outrora cristãs mas tolerantes, deixando coexistir os dois cultos.
A entrega à «Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão» dos territórios inóspitos, pouco povoados, nas duas margens do rio Tejo, a Oeste entre o leito da ribeira de Ocreza/ ribeira de Figueira e a Leste, entre o rio Erges e o rio Salor. A "Herdade da Açafa" que em 1198 passa a fazer parte dos «Domínios Templários» para que divulgassem, povoassem, defendessem e expandissem a fé cristã em território islâmico.
Em breve, neste blogue, todo o documento em latim da doação, em 1198, por D. Sancho I da "Herdade de Açafa" (com as principais localidades e limites) à «Ordem dos Templários» sediados em Portugal, no Convento de Cristo, em Tomar, desde 1168, depois de se transferirem de Soure doado aos "Templários", em 19 de Março de 1128, por D. Teresa e confirmado pelo seu filho... D. Afonso Henriques, em 13 de Março de 1129. Começa, em 1198, a pré-história de Montalvão quando era Mestre da Ordem do Templo, D. Lopo Fernandes. No texto de hoje escreveu-se, essencialmente, acerca da pré-história do povoamento, episódico, no território onde um dia se instalou o concelho (mais tarde freguesia) de Montalvão. No próximo texto escrever-se-à acerca da "Herdade da Açafa" num vasto espaço, onde mais tarde é fundada uma localidade que nascendo do nada parece ser tudo!
AQUELA PRONÚNCIA NO NORTE DO ALTO ALENTEJO QUE JÁ É O NORTE DO ALENTEJO.
Infelizmente vai-se perdendo a pronúncia típica de uma região muito específica, entre o Norte do Alto Alentejo, o Sul da Beira Baixa e a raia espanhola que durante muitos anos era quase um enclave espanhol em Portugal reminiscência da "Herdade da Açafa" criada antes do ano de 1200 que em breve merecerá o devido destaque neste blogue. Há palavras e o modo de dizê-las. Em Montalvão um simples "Dói-me a cabeça" diz-se "dói-me a cabôiça". "Piquéste-te nús úrtegans" é simplesmente "Picaste-te nas urtigas! "Amassé pã nu algudé pra finté" é apenas "Amassar pão no alguidar para levedar"! Para recordar os pregões (os perdidos e achados à moda antiga) ou modos de avisar e relembrar (clicar). Inconfundível