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30 novembro 2019

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Festa de Santo André

30 novembro 2019 + 0 Comentários
A 30 DE NOVEMBRO, OS HABITANTES DO MONTE DE SANTO ANDRÉ ASSINALAVAM O SEU SANTO PADROEIRO.


Era uma festa bem popular e que se "perdia no tempo" o início da consagração do Monte a Santo André. Nos Anos 40 e 50, a taberna do Cananã, na rua do Meio (no topo, contrário ao local da Capela), brilhava com deslumbramento, embora a Capela estivesse em ruínas. Em 2019, retomou-se a tradição junto à Capela.


O Santo André, em 1758, não devia ter qualquer habitante pois não aparece nomeado junto aos seis lugares referenciados pelo Vigário Frei António Nunes Pestana de Mendonça, existentes no concelho de Montalvão: Monte de Rollo, Monte do Pégo do Bispo, Monte do Amaro Fernandes, Monte do Pombo, Monte da Salavessa e Montalvão.    



Em relação aos edifícios religiosos, a pergunta é:



(Transcrição) «Se tem algumas Ermidas, e de que Sanctos; et estam dentro, ou fora do Lugar, e a quem pertencem?»

A Ermida de Santo André merece destaque no citado inventário:



(Transcrição) «As Ermidas, quem dentro da Villa, hé somente a de Sam Marcos, que tem altar próprio, que tem Irmandade, e nada de renda; tem outro altar em Sam Joaõ Baptista; outro de Santa Maria Madalena, que naõ tem Irmandade nem renda = Fora da Villa tem Igreja do Espírito Santo, que tem Mordomos, e algumas rendas = Tem mais a Igreja de Sam Pedro, quem Mordomos, e alguma renda = tem mais a Igreja de Santa Margarida, que naõ tem Irmandade, nem renda = Tem mais a Igreja de Santo André Appóstollo, que também naõ tem renda, nem Irmandade, e somente no seu dia se lhe canta uma missa por conta das rendas, que deixou Frey Pedro Carrilho ao hospital =» 

Tudo indica que a Capela fosse mesmo, durante muitos anos, uma Ermida, ou seja, um edifício de culto cristão que ficava num lugar ermo, que não era habitado. As pessoas, as casas, as famílias, o bulício, ou seja, a vida dos habitantes do Santo André, surge depois. Bem depois! No final do século XIX já há registos de batismo com crianças nascidas no lugar do Santo André!

Instituto Geográfico e Cadastral; secção CC (Montalvão); escala 1/5 000; Campanha de 1959
 

O Santo André, em 1940, tinha mais de duas centenas de habitantes.


No Recenseamento de 1940, no Santo André, habitavam 240 pessoas - 119 homens e 121 mulheres - que pela meia-noite de 12 de dezembro ocupavam os 65 fogos; NOTAS: Fogos = edifícios para habitação; V - Varões/Homens; F - Fêmeas/Mulheres; VF - Totais

O Santo André (durante decénios Monte de Santo André) era o lugar da gente mais pobre dos pobres de Montalvão. Hoje está deserto. Mas há sempre histórias, mesmo em lugares hoje desertos mas que já estiveram a abarrotar de montalvanenses.



A Festa de Santo André começava ao pôr-do-Sol de 29 de novembro com folguedos vários para na manhã seguinte (30 de novembro) haver missa, na Capela, consagrando o Santo protetor à sombra do qual se foi organizando um pequeno povoado.


Uma espécie de Milagre de Santo André

Há muitos, muitos anos nasceu um homem numa modesta casa do Santo André. 



Chamava-se Ti Manel Texêra. Cresceu e casou para outra casa do Santo André. Um pouco melhor para poder dar espaço aos filhos que o casamento adivinhava.



Analfabeto, pobre, pé descalço, sem bens a herdar a não ser o que ganhava à jorna decidiu que havia outra vida para além da pobreza. Deixou o «Santo» e foi viver para a «Vila» numa modesta casinha encravada nas traseiras da Igreja de Misericórdia. 



Foi aqui que nasceu o seu filho, segundo do casal depois de uma filha nascida, ainda, no Santo André.



Um dia o filho, ainda antes do tempo da ida à Escola mas mesmo à justa no ano em que devia ter começado - por isso entrou um ano depois - deslocou o fémur numa qualquer brincadeira de criança. Entretanto mudara já para uma casa, com melhores condições, no Fundo da Rua. Sem que a criança pudesse andar normalmente, vivia a coxear, foi-lhe dada como que uma sentença final: nada havia a fazer... tinha reumatismo. Viveria a sua existência a mancar. Após meses, condenado a uma vida como entrevado, o Ti Manel Texêra, analfabeto decidiu que o filho não seria um inválido. Se ele conseguiu sair do destino que o Santo André lhe reservava na pobreza, o filho também conseguiria desviar-se do destino a que os médicos desinteressados e com outras ocupações, que iam à Vila o condenaram, a mancar uma vida. Sem saber ler, nem escrever, depois de ver o filho, em esforço, a coxear, pegou nele de tronchas ("às costas") apanhou transporte para um comboio e foi a Coimbra! À procura do doutor Moura, importante médico no Hospital de Coimbra, nascido em Montalvão. O Ti Texêra, um homem analfabeto que só conseguia contar as estações mas não sabia ler onde estava. Não é de crer que, em Montalvão, muitos alfabetizados, até letrados, a tal se dispusessem! Em Coimbra, o diagnóstico foi feito: não era reumatismo, era o fémur... deslocado! Chegou passados três dias, a Montalvão, com o filho, ao seu colo, engessado da cabeça aos pés e eis que passados seis meses acamado - no final a mãe, Xá Marí Jaquina, colocava-o nos degraus da escada obrigando-o a gritar enquanto fazia funcionar, de novo, as articulações - a criança voltava a andar. Normalmente como os da sua idade. 



Acompanhou o pai, depois, a singrar na vida. 

 

A fazer carvão, a tirar cortiça, a apanhar azeitona, em Montalvão e arredores e na Beira Baixa, do Ocreza ao Pônsul.

Fotografia de Artur Pastor

Acabou a morar numa casa que sendo de uma família pobre tinha dimensão e qualidade como a dos Lavradores com criados. Talvez o melhor edifício de um pobre de Montalvão equiparada às casas de alguns "ricos".




O filho retirado à invalidez de uma vida pela coragem e sábia decisão de um pai analfabeto, fez o que tinha que fazer:

Em Montalvão estudou
Na Beira Baixa com o pai trabalhou
Em todo o lado o pai ajudou
Na tropa muito marchou
Na Índia telegrafou
Na Matriz da Vila casou
Em Ficalho fiscalizou
Na Figueira da Foz cavou
Filhos criou
Em Lisboa muito labutou
A todos tudo possibilitou
Desta vida se libertou
A morte levou
Tudo porque o pai ao destino o resgatou 

Montalvão também tem destes heróis. Os heróis improváveis e desconhecidos como o Ti Texêra!
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27 novembro 2019

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Da Guarda a Montalvão 820 Anos

27 novembro 2019 + 0 Comentários
HÁ 820 ANOS, EM 27 DE NOVEMBRO DE 1199, O REI DOM SANCHO I CONCEDIA CARTA DE FORAL A UM LUGAR - GUARDA - COM POUCA IMPORTÂNCIA GEOPOLÍTICA NA ÉPOCA MAS QUE DEVIDO A ESTA CONCESSÃO VAI SER FUNDAMENTAL PARA A FUNDAÇÃO DE MONTALVÃO.


Embora há 820 anos ninguém percebesse. Mas isso não é sequer questão. O Futuro a Deus pertence.  



Esta efeméride, com 820 anos, não estando relacionada diretamente com Montalvão terá importância mais de setenta anos depois, para o aparecimento da povoação que foi o concelho mais a norte do norte do Alentejo e ainda é a freguesia mais ao alto do Alto Alentejo.



Entre a Guarda e Montalvão distam cerca de 110 quilómetros em linha reta. Além de alguns dias de caminho, em 1199 e durante muitos séculos depois. Mas, com Diocese em 1203, tendo suporte papal, depressa entendeu que havia muito território a ocupar impondo regras e concedendo proteção divina, reivindicando o direito episcopal ao território outrora pertencente ao Islão. A Guarda herdou o estatuto, em importância e prestígio da antiquíssima povoação sueva - convertida e fonte fecunda do cristianismo no oeste da Ibéria - Egitânia (Idanha-a-Velha) daí os naturais e habitantes da Guarda se denominarem egitanienses, mesmo a mais de seis dezenas de quilómetros a norte de Idanha-a-Velha! A Diocese da Guarda depressa revelou o que se esperava: ser expansionista, principalmente, para sul. Por exemplo, até Idanha-a-Velha (modelo cristão transferido para a Diocese da Guarda) pertencia aos «Templários» pois fazia parte da margem norte (em relação ao rio Tejo) da "Herdade da Açafa" cedida pelo rei de Portugal à Ordem do Templo.




Só que ao expandir-se para o Sul vai encontrar resistência no território que o mesmo rei D. Sancho I concedera à «Ordem Militar dos Cavaleiros Pobres do Templo de Salomão», alguns meses ou 145 dias antes (5 de julho de 1199). Os «Templários» vão cedendo face ao poder crescente do Bispo da Guarda mas conseguem, aproveitando a fronteira natural que o rio Tejo permitia, conservar o território na margem esquerda desse rio.

Mas foi um confronto desigual. De um lado um Bispado poderoso e do outro frades, igualmente poderosos, mas sem o poder de um Bispado. Apesar de guerreiros, intrépidos e orgulhosos, a Ordem dos Cavaleiros Templo só podia adiar até ao limite perder o poder absoluto - religioso, económico e social, incluindo o criminal - com que geria o território que pacificara e povoara. Algumas povoações foram mesmo fundadas ou tiveram forte proteção dos «Templários». 



A "Herdade da Açafa" foi um espaço durante décadas trespassado pelo conflito entre cristãos e muçulmanos com os leoneses "à espreita". Esta espécie de território único que ia passando de uns para outros foi constituindo uma espécie de "unidades territoriais menores" para melhor ser organizado e administrado, os concelhos. Entre eles Montalvam ou Montealvaõ que durante anos, até ao final do século XIII teve, certamente, poucos habitantes e dispersos por todo o concelho, nos lugares onde a sobrevivência de núcleos familiares restritos estava mais facilitada pelas características geográficas, tal como ocorria desde a Pré-história, sem formarem qualquer núcleo populacional importante. Mas a necessidade de afirmação da Diocese da Guarda obrigou-a a adquirir direitos episcopais, englobando a riqueza, mesmo que escassa, produzida num território praticamente desertificado em termos demográficos. Até Nisa - bem localizada e com condições geográficas (solos, topografia e clima - humidade e temperatura) mais favoráveis que todo o restante território da Açafa a sul do rio Tejo - teve dificuldade, no imediato, em conseguir fazer crescer a população. 


Delimitação (reconstrução sobre mapa do século XVII) do território que irá estar excomungado pelo Bispo da Guarda, entre 1242 e 1287


O conflito vai gerar uma forte reação do Bispo da Guarda que excomunga, a partir de 1242, tudo o que era território reivindicado pelo Bispado mas recusado pela Ordem do Templo. São décadas de conflito latente sem desenvolvimento eficaz. Há ações pontuais para "libertar" território reivindicado. É destas que surge a possibilidade de povoar um Monte enorme, perfeito na orientação nascente/poente, ermo, que estava como que suspenso, atingindo no horizonte as serranias a dezenas de quilómetros em todos os sentidos e dominando uma vasta peneplanície limitada por quatro cursos de água que a isolam do resto do território: rio Tejo, rio Sever (afluente do rio Tejo), ribeira de Nisa (afluente do rio Tejo) e ribeira de São João (afluente do rio Sever).            


Eis Montalvão a surgir quase do nada em termos demográficos que não geográficos e sóciopolíticos. 
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25 novembro 2019

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José Pedro Martins Barata 41

25 novembro 2019 + 0 Comentários
COMPLETAM-SE HOJE 41 ANOS DO FALECIMENTO DO MONTALVANENSE POR ADOPÇÃO, JOSÉ PEDRO MARTINS BARATA.



A propósito dele já houve dois textos neste blogue:
O primeiro para assinalar dos 40 anos do seu falecimento (clicar);
O segundo para comemorar os 123 anos do seu nascimento (clicar).



E ficou prometida uma recensão crítica ao seu trabalho acerca de Montalvão que será sobre os textos escritos, visto que a obra fotográfica publicada é muito parcelar, embora já de grande qualidade.


Conheci e falei (pouco...) com o homenageado
Eu como habitual frequentador, no Verão, da carpintaria do Ti Zé Caratana e ele como curioso para dialogar com o dono da carpintaria, na rua das Almas. Como é evidente estava longíssimo de imaginar, no início dos Anos 70, a importância do "Senhor da Póvoa" para o conhecimento de Montalvão embora tenha ficado desde essa data com três opúsculos:
- «Apontamentos sobre a fala viva de Montalvão no extremo-norte alentejano» (1966);
- «As Xácolas em Montalvão e em Póvoa e Meadas no extremo-norte alentejano» (1966);
- «Tradições religiosas em Montalvão e em Póvoa e Meadas no extremo-norte alentejano» (1969).
A que fui acrescentando "informação". 

Recensão crítica
São documentos importantes que mostram, primeiro a dedicação à aldeia dos seus antepassados e depois paixão pelo que via. Montalvão era uma espécie de umbigo do Mundo como se depois fosse o próprio Mundo. O isolamento se trouxe angústia e dificuldades, por outro lado preservou a identidade secular trazendo-a até ao século XX. Ele percebeu isso e escreveu-o deixando um legado de valor incalculável. Não há "bela sem senão". Mas a mais não era obrigado. Faltou registar em som a «fala viva» de Montalvão pois as palavras que anotou não eram pronunciadas como as escreveu. Além de centenas de expressões e termos únicos, como:  alárve (palerma), bouchêgo (pêssego), campreádo (inconveniente), férra (pá doméstica), manhouva (indeciso), paparou (desajeitado), tronchas (às costas) ou xaringár (incomodar). Todos sabemos que até um "simples" buraco é... bureque em Montalvão!

O muito obrigado é sempre pouco para quem tanto fez e deixou!

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23 novembro 2019

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Os Lojistas

23 novembro 2019 + 0 Comentários
HOUVE DEZENAS DE LOJISTAS EM SETE SÉCULOS MONTALVANENSES.




No apogeu demográfico em Montalvão, entre os anos 40 e 50, as lojas concentravam-se na via mais central da povoação, a rua Direita, no troço final para Oeste denominada do Cabo e no início para Leste com o nome de Outeiro: a loja do senhor Augusto e sua esposa D. Branca, a da Xá Hermínia (com salsicharia), a do Senhor José (ido de Lisboa), a mercearia do Ti Possidónio e a dos panos da Xá Flávia (também salsicharia). Na Praça, gaveto com o rua de São Pedro, a do senhor António Falcão e no Arrabalde, a do Jaquim Morujo. 

(clicar em cima da imagem para obter melhor visualização)



Num povoado como Montalvão, quase com três mil habitantes, muita e variada necessidade de bens para o dia-a-dia, as lojas eram de paragem diária obrigatória. Fosse de manhã, à tarde ou ao anoitecer poucos montalvanenses - principalmente as mulheres e crianças que passavam mais tempo no povoado que no campo - não rumavam a uma loja para comprar algum utensílio ou ingredientes para fazer comida ou cuidar da casa. E fazer roupa...



As lojas tinham "de tudo ou quase". Neste aspeto eram iguais mas depois havia algumas mais iguais que outras, ou seja, com mais especialização embora vendessem de tudo. E não tendo naquele dia haveriam de o ter no dia seguinte ou muito próximo disso...



A da Xá Hermínia, em Lisboa (tirando a parte da salsicharia) seria uma retrosaria (agulhas, alfinetes, botões e linhas). Já a do Senhor António Falcão seria uma espécie de loja "Casa Africana" em versão aldeia sem pronto-a-vestir. Panos do mais fino, as popelinas. O Ti Jaquim Morujo era uma espécie de "vale tudo", desde os indispensáveis panos até pregos e alguns utensílios que nem ele já devia saber para que serviam, tão antigos eram. Como candeias de iluminar a azeite quando já havia luz elétrica! A do Senhor Augusto era a que tinha as "novidades". Quem queria saber o que havia de novo em Nisa, sem ir a Nisa, ia à loja do Senhor Augusto e da Dona Branca. E foi lá que começou, em Montalvão, o Telefone e esteve anos-a-fio o posto dos Correios. Um mundo. E assim se fazia Montalvão. 



Quem comprou em quase todas as lojas - nos final dos Anos 60 e início de 70 - ainda havia, pelo menos quatro, tem estórias em todas. Entretanto o Senhor Augusto tinha dado lugar ao Ti Xequim da Tróia. Talvez a melhor estória pessoal tenha sido nesta loja, bem central, na rua Direita.



A minha avó materna tinha "recebido instruções" das filhas para modificar os pequenos almoços dos netos. Numa manhã recebi um mandado. Vai à loja do Xequim da Tróia comprar pó para tingir. Lá fui.

Ó senhor Jaquim da Tróia a minha avó quer pó para tingir. O lojista questionou: E de que pó? O azul ou o ocre? Eu respondi: Não sei! De que cor tem a casa as barras? São azuis! Então deve querer caiar de ocre. Leva lá este! 
Quando cheguei a casa - nem dois minutos levava o caminho entre a loja e a casa na rua de São Pedro - a minha avó diz: Não é deste pó. É pó para tingir o leite. Lá regressei eu à loja para fazer a troca. Um cartucho de pó para tingir a cal por uma embalagem espanhola de chocolate acacauzado, que nalgumas "coisas" Montalvão ficava mais perto de Espanha que de Portugal:



Em Lisboa era mais Milo, Ovomaltine ou Toddy. Cola-Cao era Montalvão ou Casalinho.



Próxima "paragem": Os Ferreiros 

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21 novembro 2019

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Estradas: Montalvão Sem Nisa (Século XX)

21 novembro 2019 + 0 Comentários
ERA UMA VEZ MONTALVÃO E NISA FICOU DE FORA!





1809
As ligações são muito difusas. Existem mas percebe-se que apenas as principais localidades têm caminhos largos. Entre localidades maiores e menores restam caminhos estreitos (trilhos) muitas vezes impraticáveis em invernias agrestes. O "drama" é que durante um século praticamente não há cartografia geral. Há mais localizada à volta das principais cidades (capitais de distrito) e entre estas. O "vazio" está sempre em vias de poder deixar de o ser com o avolumar do interesse em investigar e descobrir. Até lá...


(clicar em cima desta e de quase todas as imagens permite melhor visualização das mesmas)





1901
A estrada que liga Alferrarede a Montalvão, a Nacional n.º 359 começou de "mansinho". Ei-la em 1901. Por Mouriscas até Mação. Interrupção. De Nisa para Montalvão ficou curto, pouco depois da Ribeira de Nisa lá no topo da cumeada onde estava a «Casa dos Cantoneiros» Mas importante pois neste ponto há uma encruzilhada mesmo com caminhos de "terra batida": para Sul (Nisa); para Leste (Póvoa e Meadas); para Norte (Montalvão e Salavessa - pelos Barros ou Barreiros Vermelhos); e para Oeste (Pé da Serra e desvio para a Salavessa). Montalvão uma ilha rodeada de terra!




Há muito que se exigia
A estrada tinha que ligar Montalvão à «rede nacional» e não ficar um caminho de "terra batida" entre o Monte Queimado e Montalvão. Nasceria, mais tarde, a variante n.º 3. Mas... demorou!


1918
A estrada que liga Alferrarede a Montalvão, a Nacional n.º 359 continuou aos "soluços". Ei-la em 1918. Por Mouriscas até Mação e já em Furtado. Interrupção. Pequeno troço entre Amieira e Vila Flor. Interrupção. Bom "avanço" de Nisa a Montalvão, ficando pouco depois do ribeiro de Fivenco ou Fevêlo (em montalvanês) nos Barros ou Barreiros Vermelhos que era a via principal, por ser a mais segura e para tração animal - embora não a mais curta (esta era pela Corredoura) - entre Montalvão e a Salavessa. Nos Anos 70 era possível encontrar montalvanenses com 75/80 anos que se lembravam do "macadame da estrada de Nisa só chegar à ponte do ribeiro de Fevêlo". Montalvão planeada em ser ligada a Nisa, por piso duro, na principal carta existente em Portugal, a editada pela Vacuum Oil, em 1918. 



Mas também em edição "oficial" na Carta Corográfica de Portugal






1950
A estrada que liga Alferrarede a Montalvão, a Nacional n.º 359 praticamente concluída uns... cem anos depois. Ei-la em 1950. Por Mouriscas até à Amieira. Interrupção mas previsão de ligação, por Vila Flor, para lá da Falagueira em Monte Claro. De Nisa para Montalvão estava concluída, embora como variante 3. A ideia seria fazer a ligação entre Alferrarede (Abrantes) e Portalegre, por Póvoa e Meadas, Beirã e Santo António das Areias. Não "saiu do papel" certamente por habilidade em ligar Nisa a Póvoa e Meadas pelos muros das barragens do Poio (inaugurada em 1932) e, embora quase 30 anos depois, a da Póvoa (inaugurada em 1928) com estradas em macadame a do Poio e já em alcatrão a da Póvoa. Solução mais simples e... barata. As linhas de água estavam ultrapassadas por elas próprias. Montalvão deixou de ser uma ilha rodeada de terra!



Em 1937 entre Nisa e Montalvão a estrada de macadame (piso duro) estava concluída. Seguiram-se pormenores, entre eles o alcatroamento.  Depois o que houve foi a construção de vias rodoviárias mais importantes que a EN 359 envolventes às ligações para Montalvão (ver NOTA FINAL)


1969
A estrada que pretendia ligar Alferrarede a Portalegre, a Nacional n.º 359 deixa de fazer sentido pois o troço entre Montalvão (com mais rigor cumeada atrás da "ex-Casa dos Cantoneiros") e a Beirã não será construído. 

A tracejado o troço entre a estrada Nisa/Montalvão para a Beirã (via Póvoa e Meadas) que nunca passou do papel

A Estrada Nacional n.º 359 vai ter inúmeras variantes. Quatro (mas vão ser mais...) Ei-la em 1969.  Por Mouriscas até Envendos e depois a findar na Amieira. Interrupção. Seguia-se o troço de ligação a Nisa pelo Monte Claro. Depois a habitual e ancestral ligação a Montalvão, pela variante 3. No outro extremo o troço Portalegre para a Beirã com a variante 4 que ligará a Beirã à Fadagosa pela Herdade do Pereiro. 




1979
A estrada que liga Alferrarede (subúrbio de Abrantes) a Montalvão, a Nacional n.º 359 com ligação a sul de Envendos para a margem do rio Tejo onde havia uma "barcaça" (o símbolo (\\) no mapa é esse...) para transporte de automóveis e outros veículos de tração animal/pessoas para a Amieira. Ei-la em 1979. Por Mouriscas, Mação, Envendos, Amieira e Vila Flor. Depois a ligação que, prevista, nunca foi construída, entre Vila Flor, Albarrol e Monte Claro. Daqui até à «ex-Casa dos Cantoneiros». Depois a variante 3 para Montalvão, pois a EN 359 nunca foi construída na ligação à Beirã por Póvoa e Meadas numa ligação a Leste da «ex-Casa dos Cantoneiros». E o troço - Portalegre à Beirã - que tinha começado do outro lado, pois a estrada (EN 359 era, no "papel" era uma ligação, Portalegre - Alferrarede - Portalegre). Mais uma variante, a 4, da Beirã à Fadagosa.






1989
A estrada que liga Alferrarede a Montalvão (desde Nisa variante 3), a Nacional n.º 359 com duas alternativas a sul de Envendos com a construção da barragem do Fratel (inaugurada em 1973 e posterior utilização para atravessar o rio Tejo). Ei-la em 1989. Por Mação até Envendos e depois a findar na Amieira ou a alternativa pela barragem do Fratel e ligação a Nisa pelo Monte Claro. A ligação a Montalvão há muito que estava concluída. No outro extremo, a EN 359 que ligará Portalegre à Fadagosa (variante 4 desde a Beirã), por Santo António das Areias, Beirã e Herdade do Pereiro.




1999
O Novo «Plano Rodoviário Nacional» tudo vai modificar com a previsão da construção de uma via rápida com separador central entre a A1 e o IP2, paralela ao rio Tejo "decalcando" a EN 359 mas forçando passagens a cortar acidentes de terreno, com viadutos ou esventrar elevações, impossível de fazer no século XIX. A Nacional n.º 359 degradada como quase sempre esteve por ser incipiente desde a origem cumpre: Alferrarede - Mouriscas - Mação - Furtado - Envendos - Amieira ou Gardete/Fratel (variante 7) - Monte Claro - Nisa - Montalvão (variante 3 desde a "ex-Casa dos Cantoneiros"). Interrupção que nunca passou de projeto. Depois o outro extremo, pela Beirã (desta a variante 4 da Herdade do Pereiro à Fadagosa) - Santo António das Areias - Portalegre.  



2019
Na atualidade as estradas deixaram de ter interesse em estarem numeradas. A ex-SCUT (ex-Sem Custos para o UTilizador) ou A-23/IP-6/E 806 (Autoestrada 23/Itinerário Principal 6/Estrada Europeia 806) "abafou" a centenária EN 359 - Alferrarede para Montalvão, embora variante 3 depois da cumeada (limite da freguesia de Montalvão para as duas freguesias de Nisa (para Oeste) e para a freguesia de Póvoa e Meadas (para Leste). A tal interrupção que nunca passou de projeto. Depois a variante 4, pela Beirã - Barretos - Santo António das Areias - Portalegre. 
     


Custou... mas foi!

NOTA 1: Quando a Estrada Nacional n.º 359 foi pensada e iniciada (meados do século XIX) fazia todo o sentido pois Montalvão, bem como toda a região do concelho de Nisa tinha ligações muitos fortes a Abrantes, desde militares a eclesiásticas, como se escreverá um dia destes neste blogue. Quando a EN 359 foi concluída, em final dos anos 30, já fazia pouco sentido. Mas isso só significou que o País evoluiu noutro sentido cem anos depois. Quando terminou a construção do troço final, em macadame, até ao início da rua de São João/Arrabalde estava já, em execução, pelo Município de Nisa, desde 1934, a transformação do antigo caminho (piso mole em terra batida por séculos de utilização) entre Montalvão e a Póvoa e Meadas em estrada municipal (mais estreita) em piso duro (macadame) para ligar com o troço que o Município de Castelo de Vide já tinha construído até à "fronteira" entre os dois concelhos que coincidem com a "fronteira" entre as duas freguesias: Montalvão e Póvoa e Meadas;
 
NOTA 2: A localização de Montalvão (sede de Concelho e depois de Freguesia) num extremo, permite-lhe ter uma posição de charneira rodoviária que aumentou com a construção da barragem de Cedillo. Tem mais três estradas em piso duro (alcatroado): 
Ligação a Póvoa e Meadas e desta a Castelo de Vide;
Ligação à Salavessa, o segundo (agora apenas "outro") grande aglomerado populacional da freguesia;
Ligação a Espanha (tem dias, de vez em quando...) pela Barragem de Cedillo por uma variante circular que evita a passagem pelo centro da povoação e que tem muito para contar pois foi pensada nos anos 60 - para evitar a circulação de veículos pesados para permitir a construção da barragem - mas apenas executada nos Anos 90! 

"Pano para mangas" para num dia destes (aproveitando o frio e a chuva que apareceu por Portugal) escrever acerca delas!
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