Páginas
16 maio 2020
14 maio 2020
Ciclo da Parreira III
| 14 maio 2020 | 0 Comentários | | 00:00 |
A PARREIRA/VIDEIRA ERA O ARBUSTO-PREFERIDO DOS MONTALVANENSES.
Planta exigente fez parte da vida - mais do imaginário - dos montalvanenses durante séculos.
Planta originária da Ásia Central desenvolveu-se por todas as regiões com clima temperado do Hemisfério Norte com destaque para a Europa, principalmente no Sul junto do Mar Mediterrâneo.
Arbusto-trepadeira muito importante desde o final da Idade do último degelo "matou a fome e sede" a muitos europeus, desenvolvendo-se em áreas isoladas. Esta "domesticação" permitiu ao longo de séculos desenvolver sub-espécies que são hoje as variedades de uvas e vinho.
Na Bacia do Mar Mediterrâneo a parreira (ou videira) tem as melhores condições para crescer e multiplicar-se com inúmeras variedades que depois permitem cruzar as mesmas produzindo uvas com sabores diversificados e vinhos de alta qualidade e tão diferentes que, por vezes, nem parecem ser obtidos do mesmo arbusto, em latim, Vitis Vinifera L. Pode vinho e uvas não parecerem provir da mesma espécie mas vêm. A parreira acaba por estar para a Flora como os cães para a Fauna. Ambos seres vivos manipulados pelo Ser Humano durante milénios.
Associada ao Cristianismo - azeite, pão e vinho - cedo começou a ser "domesticada" criando-se inúmeras variedades.
É um arbustro-trepadeira muito exigente em trabalho (poda) além de necessitar de estar constantemente a ser desparasitada (sulfatagem) para além da localização - encostas com muita exposição ao Sol - em vastas encostas soalheiras. E estas escasseiam na freguesia de Montalvão.
O Alentejo é terra de cereal (pão), azeite e cortiça. E bolotas para porcos. Montalvão é uma espécie «de Alentejo do Alentejo».
Apenas os Lavradores («os ricos» em montalvanês) tinham possibilidade de fazer vinho para consumo próprio. Que se saiba só havia duas vinhas - ou seja com número de parreiras e produção de cachos de uvas - para fazer vinho. A "Vinha do Senhor Alberto» lá para as Naves/Dourados («Dourédes» em montalvanês) e as parreiras na encosta ensolarada da Cereijeira («Cerinjêra» em montalvanês) quando era do senhor Jaquim Roberto, antes deste ter necessidades financeiras que o obrigou a vender a enorme propriedade em parcelas compradas por uma dúzia de "remediados" montalvanenses.
Os cachos de uvas são colhidos em Setembro - geralmente depois das festas de Nossa Senhora dos Remédos («Senhô'Drumédes» em montalvanês) - consumidas às refeições ou os cachos pendurados nos tetos dos sobrados para se transformarem em passas.
A Parreira é uma planta que oferece múltiplas utilizações.
1. Os seus frutos em cacho são apetitosos para serem consumidos diariamente, em bagos, as uvas;
2. Outra utilização é extrair a polpa dos bagos fermentando o sumo da uva para produção de vinho;
3. O mosto - peles, polpa e graínhas (bago dos cachos de uvas) com engaços moído (mais complexos como se pode ler (clicar) - produzia a aguardente;
4. Os cachos de uvas também podem ser utilizados noutras épocas do anos, no Inverno, Primavera e Verão como passas.
Quem quiser saber mais (clicar).

Este blogue irá acompanhar o "Ciclo do Parreira" com quatro publicações por ano, utilizando uma nobre parreira de Montalvão.
A. Verão - Início da frutificação e crescimento das uvas (publicado em 10 de setembro de 2019);
Ler Mais ►
Planta exigente fez parte da vida - mais do imaginário - dos montalvanenses durante séculos.
Planta originária da Ásia Central desenvolveu-se por todas as regiões com clima temperado do Hemisfério Norte com destaque para a Europa, principalmente no Sul junto do Mar Mediterrâneo.
Arbusto-trepadeira muito importante desde o final da Idade do último degelo "matou a fome e sede" a muitos europeus, desenvolvendo-se em áreas isoladas. Esta "domesticação" permitiu ao longo de séculos desenvolver sub-espécies que são hoje as variedades de uvas e vinho.
Na Bacia do Mar Mediterrâneo a parreira (ou videira) tem as melhores condições para crescer e multiplicar-se com inúmeras variedades que depois permitem cruzar as mesmas produzindo uvas com sabores diversificados e vinhos de alta qualidade e tão diferentes que, por vezes, nem parecem ser obtidos do mesmo arbusto, em latim, Vitis Vinifera L. Pode vinho e uvas não parecerem provir da mesma espécie mas vêm. A parreira acaba por estar para a Flora como os cães para a Fauna. Ambos seres vivos manipulados pelo Ser Humano durante milénios.
Associada ao Cristianismo - azeite, pão e vinho - cedo começou a ser "domesticada" criando-se inúmeras variedades.
É um arbustro-trepadeira muito exigente em trabalho (poda) além de necessitar de estar constantemente a ser desparasitada (sulfatagem) para além da localização - encostas com muita exposição ao Sol - em vastas encostas soalheiras. E estas escasseiam na freguesia de Montalvão.
O Alentejo é terra de cereal (pão), azeite e cortiça. E bolotas para porcos. Montalvão é uma espécie «de Alentejo do Alentejo».
Apenas os Lavradores («os ricos» em montalvanês) tinham possibilidade de fazer vinho para consumo próprio. Que se saiba só havia duas vinhas - ou seja com número de parreiras e produção de cachos de uvas - para fazer vinho. A "Vinha do Senhor Alberto» lá para as Naves/Dourados («Dourédes» em montalvanês) e as parreiras na encosta ensolarada da Cereijeira («Cerinjêra» em montalvanês) quando era do senhor Jaquim Roberto, antes deste ter necessidades financeiras que o obrigou a vender a enorme propriedade em parcelas compradas por uma dúzia de "remediados" montalvanenses.
Os cachos de uvas são colhidos em Setembro - geralmente depois das festas de Nossa Senhora dos Remédos («Senhô'Drumédes» em montalvanês) - consumidas às refeições ou os cachos pendurados nos tetos dos sobrados para se transformarem em passas.
A Parreira é uma planta que oferece múltiplas utilizações.
1. Os seus frutos em cacho são apetitosos para serem consumidos diariamente, em bagos, as uvas;
2. Outra utilização é extrair a polpa dos bagos fermentando o sumo da uva para produção de vinho;
3. O mosto - peles, polpa e graínhas (bago dos cachos de uvas) com engaços moído (mais complexos como se pode ler (clicar) - produzia a aguardente;
4. Os cachos de uvas também podem ser utilizados noutras épocas do anos, no Inverno, Primavera e Verão como passas.
Quem quiser saber mais (clicar).

Este blogue irá acompanhar o "Ciclo do Parreira" com quatro publicações por ano, utilizando uma nobre parreira de Montalvão.
A. Verão - Início da frutificação e crescimento das uvas (publicado em 10 de setembro de 2019);
C. Inverno - Recuperação do arbusto durante os dias de Sol mais escasso com o desenvolvimento das folhas que permitirão o aparecimento dos cachos (publicar hoje, em 15 de maio de 2020 * tardio devido ao confinamento provocado pela COVID-19);
D. Primavera - Inflorescências e floramentos (a publicar em 5 de junho de 2020). Ficando em definitivo como texto permanente neste blogue.
D. Primavera - Inflorescências e floramentos (a publicar em 5 de junho de 2020). Ficando em definitivo como texto permanente neste blogue.
Uma homenagem ao arbusto que, escasseando na freguesia, deu alegria (por vezes em excesso) - como uvas, vinho, aguardente ou passas - a milhares de montalvanenses durante 700 anos.
Próxima paragem, a fechar esta primeira fase dos «Ciclos Agrícolas», num dia destes, no Futuro próximo. A Figueira: a árvore-mística para os montalvanenses: multi-presente dos quintais às tapadas mais longínquas, a árvore da folha que tapou Adão e Eva e o tronco que segurou a corda com que Judas traidor se enforcou. A Figueira que, por isso, tem frutos sem dar flor!
Próxima paragem, a fechar esta primeira fase dos «Ciclos Agrícolas», num dia destes, no Futuro próximo. A Figueira: a árvore-mística para os montalvanenses: multi-presente dos quintais às tapadas mais longínquas, a árvore da folha que tapou Adão e Eva e o tronco que segurou a corda com que Judas traidor se enforcou. A Figueira que, por isso, tem frutos sem dar flor!
09 maio 2020
Fitas
| 09 maio 2020 | 0 Comentários | | 00:00 |
CASA QUE NÃO TIVESSE FITAS NA PORTA DA RUA ERA CASA ABANDONADA.
As fitas anti-mosquedo nas portas eram um clássico de Montalvão. E tal como as barras em torno das janelas, portas e empenas permitiu dar cor a uma aldeia branca.
Por isso estava-se sempre a mudar a cor das fitas de plástico, até porque era fácil (e não muito caro) alterar. As duas ripas horizontais que, entre elas, prendiam as fitas mantinham-se. Mudavam-se as fitas que nunca chegavam a velhas. As fitas também protegiam as portas de madeira, muitas vezes duas meias portas, da chuva (Inverno) e do calor (Verão). Havia ainda um outro efeito este, talvez, mais pessoal. Naqueles dias de calor abafado de Verão, mesmo com as portas fechadas, ouvir as fitas a bater umas nas outras baralhadas mesmo que por uma ligeira brisa de vento, o som que elas emitiam, provocava uma sensação tão agradável que até parecia fazer o calor ser menos penoso.
«Ó neto?! Tens que fazer um mandado (recado, em linguagem "grave", ou seja, à moda de outras terras)! Vai ao Xequim da Tróia ou à Xá Hermína e compra fitas diferentes destas azuis e brancas que já precisam de ser mudadas! Até porque as barras agora estão caiadas a azul!»
«Ó vó! E de que cor?»
«Não deve haver muitas diferentes. Escolhe umas que não sejam azuis, nem brancas!»
Adorei, pois as cores que menos gostava, por causa dos futebóis eram riscas azuis e brancas, além de fazerem lembrar os pijamas!
Na loja - já não me lembro qual - pasmei. Daquela vez havia tantas cores que a loja parecia ter um arco-íris dentro dela. Fiz as contas. A largura era sempre a mesma (já sabia de cor) pois levava 36 fitas.
«Quantas cores há?»
Riu-se (talvez por saber que se dizia ter sempre fitas das mesmas, e poucas, cores!): «Oito!»
«Quero seis cores, menos a branca e a azul. Seis fitas de cada uma das outras seis cores.»
Cheguei a casa e comecei a trabalhar. Tirar as fitas azuis e brancas e colocar as seis cores, inovando, duas a duas em vez de uma a uma. Duas vermelhas, duas pretas, duas verdes, duas amarelas, duas castanhas e duas violetas (não sei se foi esta a ordem, mas foram estas as cores). Repetindo a ordem mais duas vezes. Trinta e seis fitas. Coloquei os ganchos das ripas nos pregos do batente da porta e gostei.
O primeiro a chegar foi o meu avô. Espantado!
«Quem é que fez isto?»
«Fui eu!»
«A tua avó já viu?»
«Não!»
«E foi a tua avó que te disse para pores essas cores todas?»
«Não! Disse para escolher cores diferentes das azuis e brancas».
«Bom! Agora é esperar! Mas esta porta fica a parecer as comédias do senhor Costa lá na Praça!»
Pelo que se passou a seguir a minha avó não parece ter gostado... nem desgostado! No Verão seguinte já lá estavam as fitas azuis e brancas. Mas as barras de cal também já eram... ocre!
E assim se ia fazendo Montalvão...
Ler Mais ►
As fitas anti-mosquedo nas portas eram um clássico de Montalvão. E tal como as barras em torno das janelas, portas e empenas permitiu dar cor a uma aldeia branca.
Por isso estava-se sempre a mudar a cor das fitas de plástico, até porque era fácil (e não muito caro) alterar. As duas ripas horizontais que, entre elas, prendiam as fitas mantinham-se. Mudavam-se as fitas que nunca chegavam a velhas. As fitas também protegiam as portas de madeira, muitas vezes duas meias portas, da chuva (Inverno) e do calor (Verão). Havia ainda um outro efeito este, talvez, mais pessoal. Naqueles dias de calor abafado de Verão, mesmo com as portas fechadas, ouvir as fitas a bater umas nas outras baralhadas mesmo que por uma ligeira brisa de vento, o som que elas emitiam, provocava uma sensação tão agradável que até parecia fazer o calor ser menos penoso.
«Ó neto?! Tens que fazer um mandado (recado, em linguagem "grave", ou seja, à moda de outras terras)! Vai ao Xequim da Tróia ou à Xá Hermína e compra fitas diferentes destas azuis e brancas que já precisam de ser mudadas! Até porque as barras agora estão caiadas a azul!»
«Ó vó! E de que cor?»
«Não deve haver muitas diferentes. Escolhe umas que não sejam azuis, nem brancas!»
Adorei, pois as cores que menos gostava, por causa dos futebóis eram riscas azuis e brancas, além de fazerem lembrar os pijamas!
Na loja - já não me lembro qual - pasmei. Daquela vez havia tantas cores que a loja parecia ter um arco-íris dentro dela. Fiz as contas. A largura era sempre a mesma (já sabia de cor) pois levava 36 fitas.
«Quantas cores há?»
Riu-se (talvez por saber que se dizia ter sempre fitas das mesmas, e poucas, cores!): «Oito!»
«Quero seis cores, menos a branca e a azul. Seis fitas de cada uma das outras seis cores.»
Cheguei a casa e comecei a trabalhar. Tirar as fitas azuis e brancas e colocar as seis cores, inovando, duas a duas em vez de uma a uma. Duas vermelhas, duas pretas, duas verdes, duas amarelas, duas castanhas e duas violetas (não sei se foi esta a ordem, mas foram estas as cores). Repetindo a ordem mais duas vezes. Trinta e seis fitas. Coloquei os ganchos das ripas nos pregos do batente da porta e gostei.
O primeiro a chegar foi o meu avô. Espantado!
«Quem é que fez isto?»
«Fui eu!»
«A tua avó já viu?»
«Não!»
«E foi a tua avó que te disse para pores essas cores todas?»
«Não! Disse para escolher cores diferentes das azuis e brancas».
«Bom! Agora é esperar! Mas esta porta fica a parecer as comédias do senhor Costa lá na Praça!»
Pelo que se passou a seguir a minha avó não parece ter gostado... nem desgostado! No Verão seguinte já lá estavam as fitas azuis e brancas. Mas as barras de cal também já eram... ocre!
E assim se ia fazendo Montalvão...
06 maio 2020
As Salsicheiras
| 06 maio 2020 | 0 Comentários | | 00:00 |
HOUVE DEZENAS DE SALSICHEIRAS EM SETE SÉCULOS MONTALVANENSES.

No auge demográfico e social de Montalvão no século XX (Anos 40 e 50), houve a Xá Jula na Praça, a Ti Fegénia na rua do Outeiro, a Xá Hermína na rua Direita a chegar à do Cabo e a Xá Rebéta na rua de Sam Pedro.
Apenas conheci duas salsicharias - era bilingue pois fora de Montalvão eram charcutarias - a da Xá Hermínia e a da Xá Roberta. Curiosamente não me lembro de fazer mandados/mandédes (recados em linguagem grave) à loja da Xá Hermínia para comprar enchidos, mas sim para algum produto alimentar, para coser ou fitas de plástico coloridas para pôr nas portas da rua afastando o mosquedo. Lembro-me de ir fazer compras de uns chouriços, linguiças ou as malfadadas farinheiras à loja da Xá Roberta pois ficava quase em frente, mas um pouco mais para oeste da casa dos meus avós maternos na rua de São Pedro. A Xá Rebéta herdou três qualidades da sua avó materna: o nome (eram as duas Robertas); o oficio e habilidade (a avó dela também tinha uma salsicharia, embora na rua Direita, que não conta para este rol pois funcionou nos Anos 10 até aos Anos 30, e aqui escreve-se acerca dos Anos 40 e 50); e a capacidade de enfrentar as adversidades que a vida lhe pregou. Ficou viúva muito nova, pouco mais de 20 anos, e teve que lidar com um acidente que limitou a habilidade manual do seu filho único. Nunca desmoreceu e pode ser vista como um dos exemplos do que são capazes as mulheres montalvanenses perante os escolhos que a vida lhes vai colocando no caminho. Uma mulher com M grande, de mulher e de Montalvão. Um éme a dobrar.
A avó Roberta (também enviuvou e teve continuar a cuidar da salsicharia e ir amparando os quatro filhos, embora já casados, dois rapazes e duas raparigas, uma delas mãe da Roberta) tinha uma salsicharia na rua Direita com quintal atrás como quase todas as casas da rua Direita e as das extremidades desta, do Cabo para Oeste e do Outeiro para Leste.
Esta (imagem acima) era a salsicharia, na rua Direita, da avó Roberta da Xá Rebéta. No quintal desta casa da rua Direita fez-se outra casa, esta para a rua de São Pedro. Uma casa com varanda no primeiro piso. Pois é! Quase em frente a esta casa, do outro lado da rua de São Pedro, ficava a salsicharia da Xá Rebéta.
A curiosidade é que, nesta rua de São Pedro, se deste lado vivia um tio (pelo lado da avó materna) da Xá Rebéta do outro lado era a salsicharia dela que vivia com a mãe Joana, ou seja, irmão do tio que viveu desde final dos Anos 60 nesta casa... até nela morrer, em meados dos Anos 70, e ser velado.
Próxima "paragem": Os Latoeiros
Ler Mais ►

No auge demográfico e social de Montalvão no século XX (Anos 40 e 50), houve a Xá Jula na Praça, a Ti Fegénia na rua do Outeiro, a Xá Hermína na rua Direita a chegar à do Cabo e a Xá Rebéta na rua de Sam Pedro.
Não era fácil, até meados do século XX ser proprietário de um porco e criá-lo. Não tanto, mas também, em conseguir diariamente a ração de comida («vienda» em montalvanês). Mas a principal dificuldade era ter um espaço de terreno afastado da aldeia mas logo nos arredores para fazer uma furda de modo a poder ir, pelo menos duas vezes por dia, alimentá-lo. Se a casa tivesse um quintal grande até era possível uma furda, mas eram raríssimas as casas com um quintal suficientemente adequado para poder fazer uma furda sem incomodar os vizinhos com o cheiro e dejetos poluidores e lamacentos que os porcos produzem abundantemente. Ora não havendo porco, não havia matança, não havendo matança, não havia enchidos.
Se poucas famílias tinham porco, poucas tinham enchidos para o dia-a-dia. Mas os enchidos faziam muita falta para conduto («merenda para o campo» ou «acompanhamento da refeição» em linguagem grave) não os podendo ter havia que os comprar. Onde? Nas salsicharias (charcutarias em linguagem grave). Em Montalvão, mesmo no auge demográfico dos Anos 40 para 50 as quatro salsicharias chegavam pois o dinheiro escasseava.
Se poucas famílias tinham porco, poucas tinham enchidos para o dia-a-dia. Mas os enchidos faziam muita falta para conduto («merenda para o campo» ou «acompanhamento da refeição» em linguagem grave) não os podendo ter havia que os comprar. Onde? Nas salsicharias (charcutarias em linguagem grave). Em Montalvão, mesmo no auge demográfico dos Anos 40 para 50 as quatro salsicharias chegavam pois o dinheiro escasseava.
(clicar em cima desta e de quase todas as imagens permite melhor visualização das mesmas)
Havia até duas salsicharias que eram "mistas": a da Xá Hermínia também era loja que vendia um pouco de tudo e a da Xá Júla era também açougue (vendia carne fresca de outros animais: borregos, ovelhas, cabras e chibos).
As salsicharias vendiam essencialmente carne de porco em enchidos, mas alguma - pouca - carne fresca de porco. Um dia destes há que falar isoladamente da vida montalvanense de cada um destes animais que bem o merecem: juntado-lhes as galinhas e os coelhos. E porque não o gado muar, asnino e cavalar. Além das vacas.
Havia até duas salsicharias que eram "mistas": a da Xá Hermínia também era loja que vendia um pouco de tudo e a da Xá Júla era também açougue (vendia carne fresca de outros animais: borregos, ovelhas, cabras e chibos).
As salsicharias vendiam essencialmente carne de porco em enchidos, mas alguma - pouca - carne fresca de porco. Um dia destes há que falar isoladamente da vida montalvanense de cada um destes animais que bem o merecem: juntado-lhes as galinhas e os coelhos. E porque não o gado muar, asnino e cavalar. Além das vacas.
Apenas conheci duas salsicharias - era bilingue pois fora de Montalvão eram charcutarias - a da Xá Hermínia e a da Xá Roberta. Curiosamente não me lembro de fazer mandados/mandédes (recados em linguagem grave) à loja da Xá Hermínia para comprar enchidos, mas sim para algum produto alimentar, para coser ou fitas de plástico coloridas para pôr nas portas da rua afastando o mosquedo. Lembro-me de ir fazer compras de uns chouriços, linguiças ou as malfadadas farinheiras à loja da Xá Roberta pois ficava quase em frente, mas um pouco mais para oeste da casa dos meus avós maternos na rua de São Pedro. A Xá Rebéta herdou três qualidades da sua avó materna: o nome (eram as duas Robertas); o oficio e habilidade (a avó dela também tinha uma salsicharia, embora na rua Direita, que não conta para este rol pois funcionou nos Anos 10 até aos Anos 30, e aqui escreve-se acerca dos Anos 40 e 50); e a capacidade de enfrentar as adversidades que a vida lhe pregou. Ficou viúva muito nova, pouco mais de 20 anos, e teve que lidar com um acidente que limitou a habilidade manual do seu filho único. Nunca desmoreceu e pode ser vista como um dos exemplos do que são capazes as mulheres montalvanenses perante os escolhos que a vida lhes vai colocando no caminho. Uma mulher com M grande, de mulher e de Montalvão. Um éme a dobrar.
A avó Roberta (também enviuvou e teve continuar a cuidar da salsicharia e ir amparando os quatro filhos, embora já casados, dois rapazes e duas raparigas, uma delas mãe da Roberta) tinha uma salsicharia na rua Direita com quintal atrás como quase todas as casas da rua Direita e as das extremidades desta, do Cabo para Oeste e do Outeiro para Leste.
Esta (imagem acima) era a salsicharia, na rua Direita, da avó Roberta da Xá Rebéta. No quintal desta casa da rua Direita fez-se outra casa, esta para a rua de São Pedro. Uma casa com varanda no primeiro piso. Pois é! Quase em frente a esta casa, do outro lado da rua de São Pedro, ficava a salsicharia da Xá Rebéta.
A curiosidade é que, nesta rua de São Pedro, se deste lado vivia um tio (pelo lado da avó materna) da Xá Rebéta do outro lado era a salsicharia dela que vivia com a mãe Joana, ou seja, irmão do tio que viveu desde final dos Anos 60 nesta casa... até nela morrer, em meados dos Anos 70, e ser velado.
Próxima "paragem": Os Latoeiros
04 maio 2020
Ciclo do Sobreiro III
| 04 maio 2020 | 0 Comentários | | 00:00 |
O SOBREIRO ERA A ÁRVORE-VIRTUOSA DOS MONTALVANENSES.
Planta magnífica esteve no imaginário dos montalvanenses durante séculos.
4. A madeira é muito dura e compacta para ser trabalhada, mas é de excelência, desfeita em "cavacas" para ser queimada como aquecimento ou para cozinhar. O Ti Zé Caratana (principal carpinteiro de Montalvão, ou como ele "justificava", teria de ser carpinteiro ou não se chamasse José, como José era o carpinteiro pai de Cristo) utilizava um robusto tronco achatado de sobreiro para fazer de cadeira e banca de trabalho.
A. Verão - Início da frutificação e crescimento da lande. Descortiçamento (publicado em 3 de agosto de 2019);
Aproveitando as elevadas temperaturas de Verão - quanto mais elevadas, menos sofre o sobreiro - é a época de retirar a cortiça. Empilha-se na propriedade onde é retirada das árvores, deposita-se para secar, pesar menos (perdendo líquido) para depois facilitar o transporte.
D. Primavera - A pequena e verde lande a crescer (a publicar em 30 de maio de 2020). Ficando em definitivo como texto permanente neste blogue.
A primeira cortiça é a "falca" (aos 25 anos) depois da "secundeira" (aos 34 anos) e finalmente a cortiça (aos 43 anos). Dependendo da qualidade e espessura dos ramos do sobreiro vai-se sempre retirando "falca" e "secundeira" em direção ao topo da copa. Se um sobreiro durar cerca de 200/220 anos foi-lhe retirada cortiça 23/24 vezes.
Quem é que não gosta de levar o farnel num tarro («ferrado» em montalvanês) ou beber num couche («coutche» em montalvanês)? Beber como os deuses!
Ler Mais ►
Planta magnífica esteve no imaginário dos montalvanenses durante séculos.
Chegou ao território atual da freguesia de Montalvão muito antes deste existir como povoado - até mesmo haver atividade pré-histórica no território da atual freguesia - pois é uma espécie autóctone (natural deste clima e solos desde que há flora no Planeta).
Com a actividade humana foi ocupando a maior parte dos terrenos da freguesia longe do povoado substituído por oliveiras/olivais nas propriedades junto de Montalvão. Entre tapadas e herdades o sobreiro é a Árvore-Rei. Se há mais exemplares de oliveiras - estas podem coexistir juntas, estão alinhadas e mais próximo umas das outras fazendo dos olivais núcleos contínuos - o Montado ocupa vastas áreas com os sobreiros dispersos, afastados mas "espraiando-se" por inúmeros quilómetros quadrados.
![]() |
| Adaptação do portal "Brigada da Floresta" (clicar) e "Guia Ilustrado de 25 árvores de Lisboa" (clicar) |
Com a actividade humana foi ocupando a maior parte dos terrenos da freguesia longe do povoado substituído por oliveiras/olivais nas propriedades junto de Montalvão. Entre tapadas e herdades o sobreiro é a Árvore-Rei. Se há mais exemplares de oliveiras - estas podem coexistir juntas, estão alinhadas e mais próximo umas das outras fazendo dos olivais núcleos contínuos - o Montado ocupa vastas áreas com os sobreiros dispersos, afastados mas "espraiando-se" por inúmeros quilómetros quadrados.
O Sobreiro é tão virtuoso que tudo dele se aproveita.
1. A sua frondosa sombra e proteção todo o ano destaque para a frescura do Verão, pois a folha é persistente renovando-se pela idade e não pela estação do ano;
2. A casca (cortiça) retirada a cada nove anos, no Verão, depois do sobreiro atingir os 25 anos. Boa fonte de rendimento, ainda permite fazer utensílios para alimentação naqueles nós nos troncos que tão jeito fazem para transportar conduto, beber água ou fazer um gaspacho («gaspatche» em montalvanês);
3. Os frutos (lande) boa fonte de alimento para o gado porcino (porcos e javalis) imprópria para consumo humano devido à sua amargura;
4. A madeira é muito dura e compacta para ser trabalhada, mas é de excelência, desfeita em "cavacas" para ser queimada como aquecimento ou para cozinhar. O Ti Zé Caratana (principal carpinteiro de Montalvão, ou como ele "justificava", teria de ser carpinteiro ou não se chamasse José, como José era o carpinteiro pai de Cristo) utilizava um robusto tronco achatado de sobreiro para fazer de cadeira e banca de trabalho.
![]() |
| Considerado o sobreiro mais velho de Portugal com 235 anos |
Este blogue irá acompanhar o "Ciclo do Sobreiro" com quatro publicações por ano, utilizando um nobre sobreiro de Montalvão.
A. Verão - Início da frutificação e crescimento da lande. Descortiçamento (publicado em 3 de agosto de 2019);
Aproveitando as elevadas temperaturas de Verão - quanto mais elevadas, menos sofre o sobreiro - é a época de retirar a cortiça. Empilha-se na propriedade onde é retirada das árvores, deposita-se para secar, pesar menos (perdendo líquido) para depois facilitar o transporte.
B. Outono - Amadurecimento e apanha da lande (publicado em 30 de dezembro de 2019);
![]() |
| A Lande bem diferente em tamanho (mais pequenas), sabor (mais amargas) e utilização (para alimentação dos porcos) em relação às bolotas das azinheiras |
C. Inverno - Inflorescências e floramentos que polinizados darão a lande do novo ano. As folhas tenras e comestíveis que cresceram nos últimos meses desde que os dias têm também crescido, ou seja, desde o Solstício de Inverno (publicado em 4 de maio de 2020);
D. Primavera - A pequena e verde lande a crescer (a publicar em 30 de maio de 2020). Ficando em definitivo como texto permanente neste blogue.
A primeira cortiça é a "falca" (aos 25 anos) depois da "secundeira" (aos 34 anos) e finalmente a cortiça (aos 43 anos). Dependendo da qualidade e espessura dos ramos do sobreiro vai-se sempre retirando "falca" e "secundeira" em direção ao topo da copa. Se um sobreiro durar cerca de 200/220 anos foi-lhe retirada cortiça 23/24 vezes.
Uma homenagem à Árvore que deu trabalho a milhares de montalvanenses durante 700 anos. E matou a sede a outros tantos.
Quem é que não gosta de levar o farnel num tarro («ferrado» em montalvanês) ou beber num couche («coutche» em montalvanês)? Beber como os deuses!
Subscrever:
Comentários (Atom)








































