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27 fevereiro 2021

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Entre Évora e a Guarda (1260)

27 fevereiro 2021 1 Comentários

CHEGOU O MOMENTO EM QUE O TERRITÓRIO ONDE ESTÁ MONTALVÃO ENTRA NUMA NOVA FASE DA SUA EXISTÊNCIA. 




Antes de se formar uma povoação - geralmente organizada à volta de uma Igreja - há que ir definindo "administrativamente" o território que lhe vai servir de sustentação. Depois para surgir uma povoação é necessário que esta esteja devidamente organizada, com funções e capacidade de implantar-se, crescendo de uma forma sustentada, sem depender de outras, embora haja sempre alguma complementaridade entre aglomerados populacionais próximos. Uma povoação não é um conjunto de casas. É um espaço habitado coerente, agregado e capaz de oferecer condições de vida a quem nele habita. O território montalvanense não é exceção e nem é necessário recuar até à Pré-História. Seria um romance romântico mas cheio de lacunas com milhares de anos. 



Recuemos, até 5 de julho de 1199, com a doação da "Herdade da Açafa" à Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão (Templários), como já se escreveu neste blogue (clicar) (clicar). Depois durante cem anos, até que crescesse à volta de uma Igreja que com o tempo, cresceria e seria Matriz, o território foi-se organizando, primeiro pacificado pelos Templários, depois cobiçado pelo Bispado da Guarda entrando em conflito com a Ordem do Templo que se recusa a ceder o que restava da «Herdade da Açafa" a sul do rio Tejo, tendo como consequência ser excomungado, em 1242 (clicar). A Ordem do Templo continua a resistir, em 1248 (clicar). Sentindo o perigo do Poder do Bispo da Guarda face a perda de importância das Ordens Religiosas, os Templários procuram a proteção do Bispado de Évora, em abril de 1250 (clicar). Com a Ordem do Templo incapaz de assegurar a manutenção do que restava da "Açafa" e em resultado da resolução de um conflito de delimitação de influências/fronteiras, em 22 de março de 1260, a Diocese de Évora entrega o território à Diocese da Guarda. Estava consumado o que o influente Bispado da Guarda exigia há 12 anos, desde 1248.     


A Ordem dos Templários colocada de lado nas negociações não reconhece, em 1260, o direito da Diocese da Guarda na jurisdição do seu espaço a sul do rio Tejo, mas também já tinha o território sob excomunhão desde 1248. Em 1260, deixa é de ter a "proteção" do Bispado de Évora, acordada em 1250. Mas só, em 1287, a Ordem do Templo reconhecerá que o território terá a jurisdição da Diocese da Guarda. Os «Cavaleiros Templários» cediam face ao Poder. Os Bispados sobrepunham-se, definitivamente, às Ordens Religiosas. O Clero organizaria, administrativamente, o que os «monges-guerreiros» haviam conquistado, aos Sarracenos/Maometanos (muçulmanos), de Norte para Sul, ao longo de quase um século. 


A expansão da Diocese de Évora depois de estabelecida em resultado da Reconquista do território ocupado pelos Almóadas


Durante anos, a Diocese da Guarda e a de Évora mantiveram um conflito na delimitação da fronteira entre os dois bispados. Évora queria que fosse o rio Tejo a delimitar a fronteira por ser uma "barreira natural" mas a Guarda mantinha que o território de Nisa, Montalvão e Alpalhão eram seus. Os bispos das duas Dioceses chegaram a delegar a "terceiros" - ao chantre de Lisboa e ao arcediago da Covilhã - plenos poderes para estudarem, julgarem e decidirem acerca da questão. Esta arrastou-se sem que houvesse decisão, embora se saiba de algumas reuniões, até numa em Portalegre. Finalmente os dois Bispados decidiram por fim à contenda. Não entregaram a questão a ninguém, decidindo reunir-se. D. Rodrigues Fernandes, bispo da Guarda e D. Martinho, bispo de Évora, com os respetivos representantes dos dois Cabidos, Martim Pedro, pela Guarda e Lourenço Pais, por Évora, deram plenos poderes a Pero Martins, deão da Guarda e Paio Pais, deão de Évora, para estudarem a questão e apresentarem uma solução justa. Os comissionados receberam esta incumbência em 9 de março, reuniram-se e a 22 do mesmo mês, na granja da Torrejana (pensa-se que numa herdade da atual freguesia de Galveias, pertencente à Ordem de Avis) os dois prelados, os árbitros e os deputados de ambos os cabidos assinavam um acordo complexo (cuja composição em Latim) será colocada no final do texto de hoje, bem como a tradução do excerto generoso que envolve Montalvão, ainda que difícil pela linguagem dos tabeliões da época. O texto está todo traduzido mas é demasiado longo para ser colocado num blogue. Até porque há tantos pormenores que são mais porMaiores. No mais importante:

-  A diocese da Guarda recebeu os termos de Nisa, Montalvão, Alpalhão, Castelo de Vide, Marvão, Portalegre, Alegrete, Coudosera e Albuquerque (estes dois lugares atualmente em Espanha), com os castelos, pertenças e lugares intermédios;


- A diocese de Évora manteve Elvas, Arronches, Monforte, Assumar, Alter do Chão, Crato, Arez e Amieira (do Tejo), os seus termos, castelos, pertenças e lugares intermédios. 



O território de Montalvão passou definitivamente para a jurisdição do Bispado da Guarda.   




Até 16 de abril de 1287 - quando a Ordem do Templo faz o acordo de cedência face à Diocese da Guarda - distam 27 anos em que muitos acontecimentos condicionaram o povoamento do território levando a que surgisse, com a pujança que lhe garantiria a continuidade durante séculos, uma das povoações mais imponentes do Norte Alentejano tendo em conta a realidade do povoamento no século XIV (1301 a 1400).


O próximo ou próximos acontecimentos vão fazer parar este blogue em 1261, nascimento do futuro Rei Dom Dinis, em Lisboa, e de Dom Vasco Fernandes de Távora, em Santarém (data e local provável) cidade de que foi comendador entre 1288 e 1293. Até 1287 - quase cem anos depois da entrega da Açafa e organização de Montalvão - muito há para dizer.


NOTA: Apesar de ter todo o acordo traduzido para português tendo por optar, entre o texto em latim e a tradução, a decisão é publicar o texto "original" (embora em tipografia, mas existe o manuscrito):

(clicar em cima desta e de quase todas as imagens permite melhor visualização das mesmas)



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18 fevereiro 2021

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Os Espingardeiros

18 fevereiro 2021 0 Comentários
HOUVE DEZENAS DE ESPINGARDEIROS EM SETE SÉCULOS MONTALVANENSES.



No auge demográfico e social de Montalvão no século XX (Anos 40 e 50), houve o Ti Juân e Jaquim Mourato, pai e filho, a morar na rua de «Sam Poidre». 

Em Montalvão sempre houve alguma * abundância de caça - perdizes, lebres, coelhos, rolas e outra "passarada" - além de batidas a lobos e raposas quando ameaçavam o gado doméstico - e em tempos mais recuados até meados do século XIX - a linces, javalis, veados e corsas. 

* alguma pois foi escasseando até aos Anos 60 do século XX devido à ocupação de, praticamente, todo o espaço rural.

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Atividade minuciosa, perigosa mas importante para um povoado que tinha de ser quase auto-suficiente. O que não era cultivado, criado ou elaborado, em Montalvão, restava comprar fora, nas feiras de Nisa e aproveitar os vendedores ambulantes que se lembravam de passar por Montalvão.


Na freguesia montalvanense, ainda se faziam batidas (caçadas) a javalis bem "dentro do século XX" pois até aos Anos 30 havia alguns terrenos com mato, por arrotear, principalmente nas vertentes mais abruptas (Barreiras) dos rios Sever e Tejo, bem como nas três principais ribeiras: Sam Seman (São Simão), Fevêlo (Fivenco) e «Feguêra Dôuda» (Ficalho). 


A população era de 1 819 pessoas (1900) mas de 2 672 montalvanenses (incluindo Salavessa e Monte do Pombo) em 1940, calculando-se cerca de 3 mil em meados dos Anos 40 quando se inicia o declínio demográfico, com 2 649 habitantes em 1950. No auge demográfico só as «Barrêras» quase na vertical junto à foz, com o rio Tejo, desses quatro cursos de água não tinham ocupação agrícola, nem que fosse uma «olevêrinha».   





Foi uma atividade restrita e que pela sua minúcia ia passando de pai para filho, geração após geração. Os últimos espingardeiros viviam na rua de São Pedro, lado sul, praticamente no "enfiamento" da «Ruínha de Baixo" que ligava a rua Direita à rua de São Pedro. Em Montalvão nunca houve "travessas" isso é um modismo (mal...) importado de Lisboa. A «Ruínha de Cima» ligava a rua do Cabo à rua de São Pedro, tendo na do Cabo a taberna do Sam Seman e do outro quase o início da azinhaga das Bruxas (agora da Casa do Povo). Das Bruxas, por ser um "entroncamento perfeito", ou seja, com quatro caminhos. A azinhaga do «Sam Poidro» ligava depois com a das Bruxas num "cotovelo" onde estava a famosa "Fonte Sourissa" (onde muita gente se suicidou, afogando-se). Só a rede das azinhagas «ao redor da Vila» e as suas estórias dão para um texto à parte.



Os espingardeiros por serem únicos e lidarem com pólvora eram gente respeitada e de quando em vez tinham a visita da "Guarda" que antes de haver Posto da GNR, no «Burnáldine», inaugurado em 16 de maio de 1946, vinham em parelha, em muares, de Nisa percorrendo a Salavessa e o Pé da Serra antes de regressarem a Nisa mostrando a existência do Poder Central e inteirando-se das ocorrências com o Regedor. 





Era assim a vida e vivência dos montalvanenses até começarem a debandar do povoado. Havia de tudo, mas tudo em quantidades reduzidas. Uma família de espingardeiros chegava (e sobrava) para uma freguesia com quase três mil habitantes em meados dos Anos 50.


Próxima "paragem": Os Pedreiros






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