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27 fevereiro 2021

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Entre Évora e a Guarda (1260)

27 fevereiro 2021 + 1 Comentários

CHEGOU O MOMENTO EM QUE O TERRITÓRIO ONDE ESTÁ MONTALVÃO ENTRA NUMA NOVA FASE DA SUA EXISTÊNCIA. 




Antes de se formar uma povoação - geralmente organizada à volta de uma Igreja - há que ir definindo "administrativamente" o território que lhe vai servir de sustentação. Depois para surgir uma povoação é necessário que esta esteja devidamente organizada, com funções e capacidade de implantar-se, crescendo de uma forma sustentada, sem depender de outras, embora haja sempre alguma complementaridade entre aglomerados populacionais próximos. Uma povoação não é um conjunto de casas. É um espaço habitado coerente, agregado e capaz de oferecer condições de vida a quem nele habita. O território montalvanense não é exceção e nem é necessário recuar até à Pré-História. Seria um romance romântico mas cheio de lacunas com milhares de anos. 



Recuemos, até 5 de julho de 1199, com a doação da "Herdade da Açafa" à Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão (Templários), como já se escreveu neste blogue (clicar) (clicar). Depois durante cem anos, até que crescesse à volta de uma Igreja que com o tempo, cresceria e seria Matriz, o território foi-se organizando, primeiro pacificado pelos Templários, depois cobiçado pelo Bispado da Guarda entrando em conflito com a Ordem do Templo que se recusa a ceder o que restava da «Herdade da Açafa" a sul do rio Tejo, tendo como consequência ser excomungado, em 1242 (clicar). A Ordem do Templo continua a resistir, em 1248 (clicar). Sentindo o perigo do Poder do Bispo da Guarda face a perda de importância das Ordens Religiosas, os Templários procuram a proteção do Bispado de Évora, em abril de 1250 (clicar). Com a Ordem do Templo incapaz de assegurar a manutenção do que restava da "Açafa" e em resultado da resolução de um conflito de delimitação de influências/fronteiras, em 22 de março de 1260, a Diocese de Évora entrega o território à Diocese da Guarda. Estava consumado o que o influente Bispado da Guarda exigia há 12 anos, desde 1248.     


A Ordem dos Templários colocada de lado nas negociações não reconhece, em 1260, o direito da Diocese da Guarda na jurisdição do seu espaço a sul do rio Tejo, mas também já tinha o território sob excomunhão desde 1248. Em 1260, deixa é de ter a "proteção" do Bispado de Évora, acordada em 1250. Mas só, em 1287, a Ordem do Templo reconhecerá que o território terá a jurisdição da Diocese da Guarda. Os «Cavaleiros Templários» cediam face ao Poder. Os Bispados sobrepunham-se, definitivamente, às Ordens Religiosas. O Clero organizaria, administrativamente, o que os «monges-guerreiros» haviam conquistado, aos Sarracenos/Maometanos (muçulmanos), de Norte para Sul, ao longo de quase um século. 


A expansão da Diocese de Évora depois de estabelecida em resultado da Reconquista do território ocupado pelos Almóadas


Durante anos, a Diocese da Guarda e a de Évora mantiveram um conflito na delimitação da fronteira entre os dois bispados. Évora queria que fosse o rio Tejo a delimitar a fronteira por ser uma "barreira natural" mas a Guarda mantinha que o território de Nisa, Montalvão e Alpalhão eram seus. Os bispos das duas Dioceses chegaram a delegar a "terceiros" - ao chantre de Lisboa e ao arcediago da Covilhã - plenos poderes para estudarem, julgarem e decidirem acerca da questão. Esta arrastou-se sem que houvesse decisão, embora se saiba de algumas reuniões, até numa em Portalegre. Finalmente os dois Bispados decidiram por fim à contenda. Não entregaram a questão a ninguém, decidindo reunir-se. D. Rodrigues Fernandes, bispo da Guarda e D. Martinho, bispo de Évora, com os respetivos representantes dos dois Cabidos, Martim Pedro, pela Guarda e Lourenço Pais, por Évora, deram plenos poderes a Pero Martins, deão da Guarda e Paio Pais, deão de Évora, para estudarem a questão e apresentarem uma solução justa. Os comissionados receberam esta incumbência em 9 de março, reuniram-se e a 22 do mesmo mês, na granja da Torrejana (pensa-se que numa herdade da atual freguesia de Galveias, pertencente à Ordem de Avis) os dois prelados, os árbitros e os deputados de ambos os cabidos assinavam um acordo complexo (cuja composição em Latim) será colocada no final do texto de hoje, bem como a tradução do excerto generoso que envolve Montalvão, ainda que difícil pela linguagem dos tabeliões da época. O texto está todo traduzido mas é demasiado longo para ser colocado num blogue. Até porque há tantos pormenores que são mais porMaiores. No mais importante:

-  A diocese da Guarda recebeu os termos de Nisa, Montalvão, Alpalhão, Castelo de Vide, Marvão, Portalegre, Alegrete, Coudosera e Albuquerque (estes dois lugares atualmente em Espanha), com os castelos, pertenças e lugares intermédios;


- A diocese de Évora manteve Elvas, Arronches, Monforte, Assumar, Alter do Chão, Crato, Arez e Amieira (do Tejo), os seus termos, castelos, pertenças e lugares intermédios. 



O território de Montalvão passou definitivamente para a jurisdição do Bispado da Guarda.   




Até 16 de abril de 1287 - quando a Ordem do Templo faz o acordo de cedência face à Diocese da Guarda - distam 27 anos em que muitos acontecimentos condicionaram o povoamento do território levando a que surgisse, com a pujança que lhe garantiria a continuidade durante séculos, uma das povoações mais imponentes do Norte Alentejano tendo em conta a realidade do povoamento no século XIV (1301 a 1400).


O próximo ou próximos acontecimentos vão fazer parar este blogue em 1261, nascimento do futuro Rei Dom Dinis, em Lisboa, e de Dom Vasco Fernandes de Távora, em Santarém (data e local provável) cidade de que foi comendador entre 1288 e 1293. Até 1287 - quase cem anos depois da entrega da Açafa e organização de Montalvão - muito há para dizer.


NOTA: Apesar de ter todo o acordo traduzido para português tendo por optar, entre o texto em latim e a tradução, a decisão é publicar o texto "original" (embora em tipografia, mas existe o manuscrito):

(clicar em cima desta e de quase todas as imagens permite melhor visualização das mesmas)



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18 fevereiro 2021

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Os Espingardeiros

18 fevereiro 2021 + 0 Comentários
HOUVE DEZENAS DE ESPINGARDEIROS EM SETE SÉCULOS MONTALVANENSES.



No auge demográfico e social de Montalvão no século XX (Anos 40 e 50), houve o Ti Juân e Jaquim Mourato, pai e filho, a morar na rua de «Sam Poidre». 

Em Montalvão sempre houve alguma * abundância de caça - perdizes, lebres, coelhos, rolas e outra "passarada" - além de batidas a lobos e raposas quando ameaçavam o gado doméstico - e em tempos mais recuados até meados do século XIX - a linces, javalis, veados e corsas. 

* alguma pois foi escasseando até aos Anos 60 do século XX devido à ocupação de, praticamente, todo o espaço rural.

(clicar em cima desta e de quase todas as imagens permite melhor visualização das mesmas)




Atividade minuciosa, perigosa mas importante para um povoado que tinha de ser quase auto-suficiente. O que não era cultivado, criado ou elaborado, em Montalvão, restava comprar fora, nas feiras de Nisa e aproveitar os vendedores ambulantes que se lembravam de passar por Montalvão.


Na freguesia montalvanense, ainda se faziam batidas (caçadas) a javalis bem "dentro do século XX" pois até aos Anos 30 havia alguns terrenos com mato, por arrotear, principalmente nas vertentes mais abruptas (Barreiras) dos rios Sever e Tejo, bem como nas três principais ribeiras: Sam Seman (São Simão), Fevêlo (Fivenco) e «Feguêra Dôuda» (Ficalho). 


A população era de 1 819 pessoas (1900) mas de 2 672 montalvanenses (incluindo Salavessa e Monte do Pombo) em 1940, calculando-se cerca de 3 mil em meados dos Anos 40 quando se inicia o declínio demográfico, com 2 649 habitantes em 1950. No auge demográfico só as «Barrêras» quase na vertical junto à foz, com o rio Tejo, desses quatro cursos de água não tinham ocupação agrícola, nem que fosse uma «olevêrinha».   





Foi uma atividade restrita e que pela sua minúcia ia passando de pai para filho, geração após geração. Os últimos espingardeiros viviam na rua de São Pedro, lado sul, praticamente no "enfiamento" da «Ruínha de Baixo" que ligava a rua Direita à rua de São Pedro. Em Montalvão nunca houve "travessas" isso é um modismo (mal...) importado de Lisboa. A «Ruínha de Cima» ligava a rua do Cabo à rua de São Pedro, tendo na do Cabo a taberna do Sam Seman e do outro quase o início da azinhaga das Bruxas (agora da Casa do Povo). Das Bruxas, por ser um "entroncamento perfeito", ou seja, com quatro caminhos. A azinhaga do «Sam Poidro» ligava depois com a das Bruxas num "cotovelo" onde estava a famosa "Fonte Sourissa" (onde muita gente se suicidou, afogando-se). Só a rede das azinhagas «ao redor da Vila» e as suas estórias dão para um texto à parte.



Os espingardeiros por serem únicos e lidarem com pólvora eram gente respeitada e de quando em vez tinham a visita da "Guarda" que antes de haver Posto da GNR, no «Burnáldine», inaugurado em 16 de maio de 1946, vinham em parelha, em muares, de Nisa percorrendo a Salavessa e o Pé da Serra antes de regressarem a Nisa mostrando a existência do Poder Central e inteirando-se das ocorrências com o Regedor. 





Era assim a vida e vivência dos montalvanenses até começarem a debandar do povoado. Havia de tudo, mas tudo em quantidades reduzidas. Uma família de espingardeiros chegava (e sobrava) para uma freguesia com quase três mil habitantes em meados dos Anos 50.


Próxima "paragem": Os Pedreiros






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17 fevereiro 2021

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O Terço Cantado

17 fevereiro 2021 + 0 Comentários
MARCAVA O INÍCIO DA QUARESMA NESTA QUARTA FEIRA DE CINZAS.


Aos serões de todos os dias da semana, desde a Quarta feira de Cinzas (17 de fevereiro de 2021) até Quarta feira de Trevas (31 de março de 2021) esta já na semana entre o Domingo de Ramos e o Domingo de Páscoa, em duas ou três habitações particulares de Montalvão colocadas à disposição do Povo pelos respetivos donos, praticando-se a devoção do «Terço Cantado» durante toda a Quaresma. Com esta finalidade juntavam-se rapazes e raparigas, estas acompanhadas pelas mães ou por parentes próximos que aproveitavam as esperas fazendo trabalhos de rendas ou bordados.

«Terço Cantado» era regido por um homem a quem designavam como "o Mestre". Assim que todos estavam reunidos e preparados, o Mestre dava o sinal de início batendo com as mãos uma na outra e da mesma forma continuava durante os cânticos a marcar a cadência.

Iniciava-se o «Terço Cantado» entoando o «Bendito e Louvado»:

Bendito e Louvado seja o Santíssimo
Sacramento da Eucaristia
Fruto do Ventre Sagrado
Da Virgem Puríssima
Santa Maria

Depois do «Bendito e Louvado» seguiam-se as cinco dezenas do Terço do Rosário, todos os dias exceto às sextas-feiras, cantadas em música simples e andamento de marcha. Aos sábados acrescentava-se as «Excelências da Virgem».

Então por ordem cronológica, de sábado (com mais o que se descreveu), domingo a quinta-feira:

Padre-Nosso;
Salvé-Rainha;
Óh Meu Doce Jesus;
As Glórias da Virgem;
A Magnificat;
Senhora do Carmo;
Senhora da Lapa.



Nas sextas-feiras, os Padre-Nossos, Avé-Marias e Glórias eram substituídos por outro cântico: «Bendita e Louvada Seja/ A Sagrada Paixão do Amante Jesus».

A Quaresma era um tempo de luto em Montalvão. A povoação vivia esses quarenta dias com muita devoção e respeito. Certamente por ter origem em rituais ancestrais com ligação à Ordem do Templo, em finais do século XIII mas ainda vividos com intensidade em meados do século XX quando a freguesia atingiu o limiar dos três mil habitantes.



O tempo da Quaresma era, sem dúvida, o período mais prolongado das celebrações religiosas em Montalvão que culminavam numa Semana Santa inigualável em «Sentimento e Paixão». Atraia alguns habitantes, com maior devoção religiosa, de povoações vizinhas. Só o número de habitantes baixo - por isso pouco conhecido para lá dos limites do povoado - não permitiu fazer da Semana Santa montalvanense um acontecimento único em Portugal. Nem em Braga.

Em breve, neste blogue, a descrição destes versos de Cânticos da Quaresma...
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16 fevereiro 2021

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Intrudédas

16 fevereiro 2021 + 0 Comentários
ENTRE O FÚM...FAFÁFÚM, AS CARAS MASCARRADAS OU ENFARINHÉDAS E AS TRINQUETÂNÉDAS E CAQUEIRÉDAS HAVIA MAIS E MAIS.



O Carnaval montalvanense era variado, diversificado e avariado. Para trás já muito ficou, vamos ao que falta do que resta.

1. Entrudo mascarado
As mascarédas começavam em finais de Janeiro e tinham o seu auge no dia de Carnaval. Quase sempre, a coberto do anonimato que uma máscara consente, aproveitava-se o Entrudo para criticar determinada pessoa, situação, acontecimento ou apenas mascarar-se por divertimento e eram terceiros a ver subtileza em algo que não passava de inocência.   

2. Entrudo crítico
Com a cara mascarada ou escondida nas vestes e vestidos a propósito, havia quem procurasse imitar o modo de vestir, deslocar-se ou os tiques e atitudes de tal pessoa ou tal situação. Exagerava-se no gesto e na postura resultando uma caricatura. Evidenciava-se o lado ridículo e censurável, nem sempre com a prudência necessária, ultrapassando, por vezes, os limites do razoável. Como era Carnaval ninguém podia levar a mal, mas não quer dizer que ficasse esquecido. Em Montalvão o que era feito no Entrudo não ficava no Entrudo. Numa aldeia grande, mas mesmo assim pequeno agregado populacional muito concentrado, com casas exíguas, todos se conheciam - até pela sombra que deixavam ao Sol - por isso, todos dependiam uns dos outros, mesmo que pensassem que não. Mas nada impedia que, a coberto do anonimato, se criticasse o que não se tinha gostado desde o último Entrudo ou Entrudos. Com o declínio populacional depois da década de 40 tudo se aligeirou. Antes da iluminação elétrica as pessoas chocavam umas com as outras. No Entrudo tudo eram sombras. Mas quem se sentia criticado ou quem recebesse informação por intriga muitas vezes tomava por outros o que era feito por alguém! Mas havia sempre dúvida. E essa dúvida protegia os audazes. a chegada da iluminação pública trouxe também o início da debandada nos anos 50, 60 e assim sucessivamente. As pessoas passaram a viver mais "espaçadas" e o envelhecimento foi tomando conta da aldeia. O Carnaval deixou de ser o que era e passou a ser aligeirado. 

3. Entrudo brincalhão
Mas a maior parte dos foliões queriam era passar o tempo. Vestiam-se de velhos (o mais usual), de ciganos, de tudo um pouco, o que a imaginação conseguia e possibilitava, alguns de cara destapada ou tapada mas de modo a ser fácil identificar, para percorrerem as ruas e desfrutarem dos comentários, elogiosos ou verrinosos, à sua passagem. Queriam era aproveitar o dia para se divertirem. 

4. Aqui o escriba nunca gostou muito do Entrudo 
Mas lembra-se de, com cerca de 13/14 anos, se ter mascarado - entenda-se vestido de luto com xailes e lenços pretos - curvando-se, apoiado numa velha bengala e ter ido ouvindo, pelo Arrabalde acima até ao São Pedro, que era a velha tal (perdeu-se no tempo da memória o nome da tal "ilustre" montalvanense) ou que era uma miúda («catchópa», em montalvanês) que queria imitar a tal "velhinha". Ora, aquando do disfarce nunca este escriba pensou em tal pois nem sequer sabia quem era ainda que certamente a conhecesse, mas não pelo nome e não quis, de modo algum, mascarar-se para imitar alguém. Simplesmente "pegou" na roupa da avó e cá vai disto! E encurvou-se para não ser reconhecido, não por querer parecer a Txá ... !  

5. Entrudo dançado
Nalgumas casas mais abastadas com salões e outras condições, como a de alguns lavradores («riques», em montalvanês) havia bailes noturnos. Não todos os dias ou todos os dias mas em casas diferentes. Não se misturando com os foliões de rua os «ricos» reservavam-se para a dança. Chegavam de máscara - como era hábito em algumas cidades europeias, mantendo-se em Veneza - que retiravam para espanto dos restantes que nem sempre adivinhavam quem era. Eram uns bailes de «ricos» à pobre como era norma em Montalvão. O acompanhamento musical era rudimentar - uma "gaita-de-beiços" (harmónica vocal) - mas por vezes nem isso. Dançava-se ao som de um adufe que a rapariga mais afinada se encarregava de vocalizar umas melodias alegres próprias do Carnaval que a seguir chegava o tempo do recolhimento e tristeza, a "Quaresma".
A preparação destes bailes começava muito antes com os «criados dos ricos» a confecionarem iguarias com base em carnes frias (essencialmente enchidos e mesmo algum animal de pequeno porte - cabra ou ovelha - embora fosse raridade) e doces tradicionais. Isto para os convivas irem petiscando durante a noite e madrugada entre as danças. Mesmo assim com acompanhamento musical tão rudimentar, o mito é que se dançava até de madrugada "polcas, mazurcas, valsas e chotices". Como poucos viram, de facto, mas muitos ouviram dizer (mais pela "criadagem"), talvez tudo não passe de lenda. 

E a seguir vem a Quaresma...
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15 fevereiro 2021

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Trinquetânédas

15 fevereiro 2021 + 0 Comentários
HAVIA AS BRINCADEIRAS INGÉNUAS DOS RAPAZES E RAPARIGAS MAS TAMBÉM AS DESAGRADÁVEIS.



À procura da redenção de que «no Carnaval ninguém leva a mal» aproveitava-se o Entrudo para ajustar contas de um ano ou de uma vida. E nem sempre terminava tudo em bem. Até porque eram feitas de noite. Pela calada da noite para fugir à identificação.

As «Trinquetânédas» era aproveitar os trincos de polegar das fechaduras que alavancavam o fecho em régua pelo interior mas eram manipuladas do exterior para lhe atar um cordel com a dimensão em comprimento adequada para ficar suficientemente longe para fugir sem ser identificado mas perto para sortir efeito conseguindo que o trinco batesse forte para cima e para baixo fazendo um barulho incómodo de tão irritante. Assim que pressentiam que quem estava em casa viria a uma das janelas ou mesmo à porta (pelo ranger do soalho em noite silenciosa) logo tratavam de fugir. Não sendo descobertos estava feito o ajuste de contas. Para o mal ou para o bem. Neste caso se fosse entre amigos pois teria retribuição no próximo Entrudo. Também havia alguns que todos os anos tinham "visitas" dos catchôpos. Eram os que "afinavam" com a brincadeira. Quanto mais se irritavam mais eram frequentados pelo cordel e gaiatos. E sabiam disso. Mas a irritação sobrepunha-se à razão.



As «Caqueirédas» eram ainda mais violentas. Aproveitavam o facto das portas da rua nunca estarem fechadas à chave e quando, raramente, estavam tinham o postigo apenas encostado, mas dificilmente, trancado. A não ser numa ausência muito prolongada e para longe da aldeia. Chegava a noite, até a madrugada. Estando a família reunida "ao lume" ou mesmo já deitada escolhia-se a casa a "alvejar", abria-se o postigo (por vezes até a porta) e atirava-se para o chão lajeado objectos que causassem barulho - cacos velhos, latas, ponedros, etecetra - quebrando o silêncio da noite e bem-estar dos residentes. Depois ainda podia ser atirada («aventéda» em montalvanês) outra imundície, como detritos, estrume, lodo ou lama se houvesse pretexto para vingança feroz.  



Por vezes a "partida de Carnaval" era tão violenta que se tratava mais de vingança a pretexto do Carnaval, usando-o com «escudo protetor» nos raros casos em que o(s) prevaricador(es) era(m) apanhado(s) que "brincadeira". É claro que quem era vítima, tentava desesperadamente apanhar quem fizera a "partida de Carnaval", gritando a plenos pulmões da porta de casa para a rua vasto reportório de insultos e pragas. Como geralmente "era tarde demais" para apanhar o "brincalhão", nada mais restava que ir lançando impropérios enquanto ia limpando o chão pensando em quem seria o "vândalo" enquanto listava os suspeitos, ou seja, os vizinhos e habitantes com quem tivera desavenças recentes.  



Para "acabar" o Entrudo falta escrever acerca das imitações. As "entrudédas". Amanhã que é o dia delas.
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14 fevereiro 2021

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Mascarradas

14 fevereiro 2021 + 0 Comentários
OUTRA GALHOFA CARNAVALESCA EMBORA MENOS INOCENTE E PACATA.



Os rapazes «Catchôpos», em montalvanês) agiam mais individualmente que as raparigas («Catchópas», em montalvanês) pois a brincadeira era tão mais conseguida quando mais secreta e de surpresa conseguisse ser.

Os rapazes muniam-se com o "mascarro" (negro da cortiça queimada) ou pó de carvão/picão que raspavam nas mãos e tentavam surpreender outros rapazes passando-lhes as mãos negras pelas faces da cara, ou seja, mascarrando-os. Também podiam tentar surpreender as raparigas. E estas fazerem o mesmo aos rapazes. Havia aqui um misto de brincadeira e malandrice. Muitas vezes já um prenúncio de namoro, mas nem sempre.

Com força física diferenciada os rapazes dificilmente (só muito distraídos) se deixavam apanhar pelas raparigas. Mas muitas vezes em vez de se escaparem e fugirem acabavam por aceitar a brincadeira como se fosse um presente da rapariga em vez de um dichote. E até uma oportunidade para devolver o "carinho" à rapariga num futuro (muito) próximo. Um bom pretexto.

Os rapazes ao tentarem mascarrar outros, tal ato envolvia por vezes gritos, correrias, quase uma luta corpo-a-corpo entre o tentar ter êxito e o tentar evitar o sucesso alheio. Entre risos (dos mais galhofeiros) e ditos e repúdio (dos mais sisudos) havia de tudo um pouco. E aquele que tivesse êxito tinha maiores probabilidades de estar exposto a que lhe fizessem o mesmo até final do Entrudo. Dificilmente não seria surpreendido. Mascarra com mascarra se pagava. 

As raparigas e os adultos geralmente substituíam a "mascarra" por farinha. O objetivo era o mesmo embora o efeito fosse o oposto. Em vez de cara negra mascarrada passava a cara branca enfarinhéda.

E assim se ia passando o tempo, no tempo em que não havia energia elétrica, nem água canalizada, nem saneamento, muito menos rádio e televisão. Então... internet, nem em sonhos...

Mas havia muita população, principalmente catchôpos e catchópas, em casa e nas ruas. Muito tempo para brincar e muitas pessoas para o fazer. Uns mais galhofeiros outros mais sisudos, uns a preferirem andar o máximo tempo que podiam na rua, outros a resguardarem-se (o mais tempo que podiam) em casa. E se o Carnaval são quatro dias, em Montalvão havia tanta pressa que por vezes no final de Janeiro já havia quem estivesse disposto a antecipá-lo!  

Em breve, talvez na próxima terça-feira, as brincadeiras "mais sérias": As Caquêrédas (se tivessem sobrado pedaços de cântaros de barro da noite de Passagem do Ano) e Trinquetânédas (dentro de casa alheia) e as Entrudédas (de rua com figuras típicas da aldeia).

É que o Entrudo continua, em Montalvão, pelo menos neste blogue...
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13 fevereiro 2021

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Fúm... fafáfúm

13 fevereiro 2021 + 0 Comentários
ERA UMA BRINCADEIRA DE CARNAVAL TALVEZ A MAIS INOCENTE DAS VÁRIAS PRATICADAS PELO ENTRUDO.



Os cântaros de barro para "ir à água" que durante o ano iam ficando inutilizados por terem frechas ou apresentarem danos que colocavam em risco a saúde por não acondicionarem e preservarem a água eram colocadas de lado e guardados para serem usados no Entrudo.

Por serem geralmente as mulheres, com destaque para as raparigas («catchópas», em montalvanês) as que tinham a função e obrigação de correrem os poços, chafarizes e fontes durante o ano, esta era uma brincadeira que lhes estava reservada.



Era uma das que tinha guardado um cântaro danificado que dava início ao «fumfafáfúm». Reunia um grupo de amigas e dispostas em triângulo, quadrado ou círculo conforme o número de participantes, cada uma a distância razoável de alguns metros, que dependiam da idade, altura e físico de cada uma, iam atirando o cântaro para o ar na direção da que estava mais próxima. Ao grito de fum... fafáfúm que servia de aviso lançavam o cântaro para a direita ou esquerda com aquela que estava ao seu lado a apanhá-lo. Depois a que apanhava o cântaro repetia o mesmo fum... (levantar e dar balanço ao cântaro)... fafáfúm (lançá-lo) para a amiga que estava mais próxima. E assim prosseguia a brincadeira até acabar por uma delas não conseguir apanhar o cântaro e este desfazer-se em cacos. À medida que a brincadeira ia decorrendo claro que a concentração inicial ia esmorecendo pois o esforço que algumas tinham que fazer para evitar a queda do cântaro, provocava a risota geral abrandando a pré-disposição para conseguir controlar a recepção do cântaro visto que os lançamentos sucessivos também iam sendo cada vez mais trapalhões. 



Aquela que não conseguisse apanhar o cântaro vendo-o escaqueirar-se aos seus pés era motivo de chacota de todo o grupo com as amigas em risota geral a apanharem os cacos do chão colocando-os sobre a cabeça da causadora do cântaro escaqueirado. Enquanto colocavam cacos e estes voltavam a cair desfazendo-se em pedaços cada vez mais pequenos uma rapariga ia buscar outro cântaro iniciando-se mais um... «fúm...fafáfúm». 

Tantos «funsfafásfúms» quantos os cântaros que durante o ano foram sendo inutilizados para o dia-a-dia e guardados para esta brincadeira de Carnaval. Com o sistema de água canalizada, implementada em Montalvão, depois de 1963, os cântaros de "ir à fonte" começaram a rarear mantendo-se nas cozinhas um que era "abastecido" pela água da torneira ou recebia água quando se ia a determinado lugar com alguma nascente da qual se gostava, em particular. Mas geralmente vinha de carro (machos ou mulas), carroça (burros ou burras) ou no dorso de um destes animais.



Os rapazes catchôpos», em montalvanês) também tinham a sua brincadeira predileta. Mas essa fica para amanhã. Aqui no sítio do costume com mais "Costumes montalvanenses"!
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11 fevereiro 2021

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Dia das Comadres

11 fevereiro 2021 + 0 Comentários
UMA SEMANA DEPOIS DOS COMPADRES CHEGAVA O DIA DAS COMADRES.



Na quinta-feira antes da terça-feira de Carnaval, ou seja, antes do «Domingo Gordo» celebrava-se o «Dia da Mulher Montalvanense».



Comadres e compadres eram uma espécie de parentes por afinidade das ocorrências da vida. Pessoas que não começando na família passavam a fazer parte desta por afinidade devido aos Batizados e Casamentos. Tornavam-se próximos da família - por serem padrinhos e madrinhas de batizado e/ou casamento - ligando por via dos filhos umas famílias a outras.

Numa povoação como Montalvão se todos já são primos de todos, ainda que em grau de parentesco diferenciado, então comadres e compadres eram quase todos uns dos outros.



A celebração do «Dia das Comadres» prolongou-se mais no tempo que o dos «Compadres». Certamente por estarem mais vocacionadas para as tarefas domésticas de fazer e dar bolos e guloseimas. Além disso, em dia de trabalho, durante a semana, estando mais na povoação estavam mais aptas a prepararem as atividades dessa quinta-feira.


Como estes dias já estavam muito próximos do Carnaval - as datas não foram escolhidas ao acaso - as atividades anunciavam já o «Entrudo».

Aliás, em Montalvão, a época do ano com mais «partidas de Carnaval» era a que ia de «Dia de Reis» até «Terça-feira Gorda» entrando depois o tempo de recolhimento e tristeza profunda da Quaresma onde, até, se evitavam batizados, casamentos, mesmo canções alegres. Só os funerais "vinham mesmo a calhar». Antes da Quaresma aproveitava-se bem o tempo que antecedia o Entrudo para fazer o que depois não podia (nem devia...) ser feito!



Como era uma noite de festa por toda a povoação havia uma espécie de três celebrações: a das esposas e filhas dos Lavradores («riques» em montalvanês), a das «catchópas» («raparigas» à grave) e a das mulheres do povo.

A das «catchópas» (raparigas) era a mais simples. No vocabulário montalvanês não havia "filho" e "filha", pois eram respetivamente, «o tê catchôpo» ou «catchôpe» e «a túe catchópa». Havia mesmo variações em todo o léxico. O meu avô materno, conseguia distinguir através de algumas pronúncias e termos próprios (sem estar a ver as pessoas) quem era da Salavessa (a cerca de seis quilómetros), do Monte do Pombo (a cerca de cinco quilómetros) e do Santo André (a uns duzentos metros)! Havia pequenas diferenças - no falar e em sinónimos - mas existiam! Eram alterações subtis, mas que se percebiam para quem vivia uma vida intensamente na freguesia.

As celebrações entre as comadres dos ricos e as dos pobres apenas diferia no local. A dos Lavradores era dentro das casas e a das comadres do Povo era nas ruas. Também não havia, em montalvanês, os termos: esposo ou marido e esposa. Era, respetivamente, «o tê hóme» e «a túe mulhé».



As catchópas
Reuniam-se em grupo, geralmente por proximidade etária, depois da idade da escola (13/14 anos até enquanto fossem solteiras) escolhiam a casa de uma delas - ia rodando de ano para ano - para fazerem o "seu jantar" com o que cada uma ia arrebanhando em casa dos pais. Era uma festa que culminava com o obrigatório arroz-doce montalvanês - desenhos de flores e ramos com pó de canela. Por vezes, as que tinham mais idade e noivo, armavam bailes com catchôpos convidados.

As mulhé
Entre cada grupo de comadres era escolhida uma que recebia das outras ovos, azeite e farinha para fazer filhoses. À porta de casa, do lado da rua, instalavam um alguidar («algudé» em montalvanês), uma tábua (apoiada em outras duas) e amassavam a farinha com os ovos enquanto num fogareiro o azeite ia aquecendo. Depois era a habitual receita para a massa retalhada em finos retângulos colocados em azeite a ferver até alourarem e empolarem. Colocados num prato todas se serviam. Sobrando era dado a vizinhas pobres, geralmente viúvas, já sem vontade, nem desejo para participarem em festas. 


Filhós em Montalvão, coscorões no resto do Mundo

Antes quando passavam pelas ruas, enquanto o Sol ainda iluminava Montalvão, não se livravam de algum dichotes, geralmente ditos pelos «catchôpos da Vila»:  

- As comadres vêm, vêm
Lá em baixo ao Portão
Roendo uma pata de burro
Julgando que é lacão

- As comadres dormem, dormem
Dormem lá numa salinha
Por baixo lhes deitam rosas
Por cima cambraia fina

- As comadres vêm, vêm
Vêm lá ao Santo André
Bebendo mijo de burro
Julgando que é café

- As comadres dormem, dormem
Dormem lá numa caminha
Num dos lados têm um terço,
Do outro uma mesinha  

- As comadres vêm, vêm
Vêm lá à Cadeirinha
Comendo rabo de porco
Julgando que é sardinha

No Mundo, costuma dizer-se, que a Vida são dois dias e o Carnaval são três. Pois em Montalvão são (eram...) cinco, de sexta-feira gorda a terça-feira de Entrudo!

Em 2022, será a 24 de fevereiro
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04 fevereiro 2021

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Dia dos Compadres

04 fevereiro 2021 + 0 Comentários
O DIA DOS COMPADRES OCORRIA NA PENÚLTIMA QUINTA-FEIRA ANTES DO ENTRUDO.



Quinta-feira anterior ao «Domingo Magro», reservando o importante «Dia das Comadres» para a uma semana depois já muito próximo do Carnaval, antecedendo o «Domingo Gordo».


Fotografia de José Pedro Martins Barata

Compadres e comadres eram uma espécie de parentes por afinidade das ocorrências da vida. Pessoas que não começando na família passavam a fazer parte desta por afinidade devido aos Batizados e Casamentos. Tornavam-se próximos da família - por serem padrinhos e madrinhas de batizado e/ou casamento - ligando por via dos filhos umas famílias a outras.

Fotografia de José Pedro Martins Barata


Numa povoação como Montalvão se todos já são primos de todos, ainda que em grau de parentesco diferenciado, então compadres e comadres eram quase todos uns dos outros. Comemorar o Dia dos Compadres era para os montalvanenses comemorar uma espécie do "Dia do Homem». Uma semana depois assinalava-se o «Dia da Mulher».
Fotografia de José Pedro Martins Barata

Como estes dias já estavam muito próximos do Carnaval - as datas não foram escolhidas ao acaso - as atividades anunciavam já o «Entrudo».

Aliás, em Montalvão, a época do ano com mais «partidas de Carnaval» era a que ia de «Dia de Reis» até «Terça-feira Gorda» entrando depois o tempo de recolhimento e tristeza profunda da Quaresma onde, até, se evitavam batizados, casamentos, mesmo canções alegres. Só os funerais "vinham mesmo a calhar». Antes da Quaresma aproveitava-se bem o tempo que antecedia o Entrudo para fazer o que depois não podia (nem devia...) ser feito!

Em dia de trabalho a uma quinta-feira - sendo no Inverno as probabilidades de haver frio, chuva, vento e desconforto eram maiores - havia as atividades do trabalho rotineiro ao longo do dia, culminando com o jantar ao «Pôr-do-Sol». 

Os compadres reuniam-se numa casa previamente escolhida jantando e convivendo em grupos de uma cinco ou seis até hora decente que na sexta-feira seguinte era dia de trabalho.

Em tempos muito antigos consta que as raparigas montalvanenses, no remanso do lar, atrás dos postigos das portas e janelas, quando passava um homem, à porta e janelas, fazia tocar o chocalho. Uma chocalhada vinha sempre a propósito, como que chamando a quem passava um animal ruminante ou similar. 



Antes quando passavam pelas ruas, enquanto o Sol ainda iluminava Montalvão, não se livravam de algum dichotes, geralmente ditos pelas «catchópas da Vila»:  

- Os compadres vêm, vêm
Lá em baixo ao Fontanhão
Roendo uma pata de burro
Julgando que é lacão

- Os compadres dormem, dormem
Dormem lá no casarão
Por baixo deitam tojos,
Por cima peles de cão

- Os compadres vêm, vêm
Vêm lá ao Santo André
Bebendo mijo de burro
Julgando que é café

- Os compadres dormem, dormem
Dormem lá no palheiro
Num dos lados andam ratos,
Do outro há um formigueiro  

- Os compadres vêm, vêm
Vêm lá à Cadeirinha
Comendo rabo de porco
Julgando que é sardinha

Em 2022, será a 17 de fevereiro
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