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28 abril 2020

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Sítio do Bernardino

28 abril 2020 0 Comentários
É DE URBANIZAÇÃO MUITO RECENTE QUANDO SE COMPARA COM O QUE SE AVISTA LÁ AO ALTO: MONTALVÃO SECULAR.



A primeira construção que teve - não considerando palheiros e currais - foi o Posto da Guarda Fiscal construído em meados dos Anos 10 como "posto fixo" (merecerá destaque num Futuro próximo, assim como os outros dois postos que coordenava junto à fronteira) no antigo caminho que ligava Castelo de Vide a Castelo Branco e vice-versa.


Quando se soube que a estrada nacional 359 não passaria a Montalvão, pois seguiria do Monte Queimado para Póvoa e Meadas, foi pedido que se construísse uma variante (que seria a n.º 3) para diminuir o ancestral isolamento da localidade a Nisa e ao "Resto do Mundo" As terraplenagens para transformar o caminho em estrada, na passagem pelo Sítio do Bernardino, foram em 1932 e a pavimentação em 1936

Só com a ligação, por macadame da variante n.º 3, entre Montalvão e o Monte Queimado, da estrada nacional n.º 359 entre Abrantes (Alferrarede) e Portalegre, via Mação, Nisa, Póvoa e Meadas, Beirã e Marvão (sopé), o Bernardino («Burnáldine» em montalvanês) passou a ser local com crescimento edificado, devido à encruzilhada das duas estradas, a Sul, com ligações: uma a Castelo de Vide e a outra, a Nisa; e a planura que contrastava com Montalvão.


O Sítio do Bernardino entre 1947 com a construção da «Escola Primária» e edifícios de habitação na estrada de e para Nisa; e 1952, já com edifícios a sul do posto da GNR, na "estrada da Póvoa"; e os dois «Lagares de Azeite» junto à estrada com ligação a Nisa

Junto ao Posto da Guarda Fiscal, a sul, foi edificado o da Guarda Nacional Republicana (entre 1945/1946), a Escola Primária (1947/1949) e a instalação dos dois Lagares de moagem da azeitona (que anteriormente operava na Corredoura). Os edifícios de habitação foram sendo edificados na mais movimentada estrada, a de Nisa, do lado contrário ao da Escola. Até uma taberna abriu, a do Ti Juan Branco. Só depois se edificou para habitação, na estrada para Castelo de Vide, por Póvoa e Meadas.


A cartografia entre 1946, 1967 e 1997 da nova, que já é velha, expansão edificada em Montalvão

Antes das edificações a área, até um perímetro mais envolvente, era conhecida por ter boas nascentes - Chafariz de Páules, Fonte Judia e a dos Rafaneiros, entre outras, como a Fonte Carreira e poços com água potável boa para beber e cozinhar.


O "Sítio do Bernardino" entre 2005 e 2019. Mais rotunda, menos rotunda pouco se alterou

Atualmente é - ou tem sido - a área de expansão urbana de Montalvão por permitir construções com espaços envolventes livres, menos quintais ou mais jardins e estruturas em betão, ao contrário da tradicional edificação em lajes de xisto, rebocadas e caiadas.

E assim vai Montalvão...
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27 abril 2020

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Faria Artur: de Órfão a Casapiano

27 abril 2020 0 Comentários
HÁ 131 ANOS, FARIA ARTUR FOI INSCRITO NA REAL CASA PIA DE LISBOA.



Seria esta a sua residência durante os próximos nove anos e meio, desde 27 de abril de 1889 (sábado) até 29 de setembro de 1898 (quinta-feira).

Órfão de pai (Braz de Mattos Faria Arthur) aos dois anos, três meses e seis dias e de mãe (Thomasia Leandro) aos dois anos, sete meses e 29 dias foi admitido na Casa Pia de Lisboa, aos oito anos, um mês e onze dias. Já foi assunto neste blogue (clicar).


(clicar em cima desta e de quase todas as imagens permite melhor visualização das mesmas)



Foi o seu tio, João de Mattos Faria Arthur, escrivão suplente (ou seja de segunda) nas Finanças (então denominada Fazenda), em Nisa, que ficou responsável por António de Matos Faria Artur em virtude de ser órfão de pai e mãe.

Com a entrada na nobre Real Casa Pia de Lisboa que era, nesta última década do século XIX, uma das mais prestigiadas instituições de instrução e formação profissional, cívica, intelectual e humana de Portugal, tudo agora estava do lado do nosso Faria Artur. Resgatado a uma provável vida de dificuldades saberia aproveitar a oportunidade?


Vista aérea (em cima) e terrenos da Casa Pia de Lisboa (em baixo) antes das grandes modificações urbanísticas que ocorreram junto ao Mosteiro dos Jerónimos para organizar a «Exposição do Mundo Português» em 1940; Arquivo fotográfico da C.M.L.


Os terrenos da Real Casa Pia de Lisboa eram então, quando o nosso Faria Artur a frequentou, um vasto território entre as traseiras do Mosteiro dos Jerónimos e a serra de Monsanto. O nosso Faria Artur (aluno n.º 1903) enquanto aluno e redator de um dos inúmeros jornais manuscritos que os alunos editavam, cruzou-se com alguns dos fundadores e pioneiros de um clube de futebol que um dia seria conhecido em todo o Mundo, o Sport Lisboa e Benfica. A principal figura deste clube, Cosme Damião foi o aluno n.º 2487, que entrou para a Instituição, em 30 de abril de 1896, pois nascendo em 2 de novembro de 1885, era quatro anos e meio mais novo que o nosso Faria Artur. 



Foram colegas durante dois anos e meio. Enormes figuras da Vida Portuguesa frequentaram a Real Casa Pia de Lisboa nesse final do século XIX. Será que António de Matos Faria Artur conseguiria saber fugir ao destino que lhe foi traçado, em Montalvão, no ano de 1883, entre 22 de junho e 15 de novembro, respetivamente, morte do pai e da mãe?

Soube e de que maneira...

NOTA: Agradecimento à Casa Pia de Lisboa que facilitou o acesso ao processo do nosso Faria Artur, bem como ao seu vasto espólio. Obrigado
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26 abril 2020

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Minha Aldeia

26 abril 2020 2 Comentários
LÁ BEM NO ALTO. AO ALTO.
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Uma aldeia centenas de anos isolada, numa espécie de ilha rodeada de terra, vendo-se ao longe montes e serranias, de Portugal a Espanha e por baixo ribeiros, barrancos e regatos. Sobreiros, oliveiras, silvas e xaras. Muros, azinhagas e serventias. Fontes, chafarizes e poços. Lajes, canchos e ponedros. Casas caiadas, barras azul e ocre. Desenvolveu-se uma cultura muito peculiar, resultado de tanto isolamento e alheamento. Resistiu sempre.


Minha Aldeia

Ó minha aldeia velhinha
Ó minha antiga casinha
Ó meu berço d' embalar
Como tudo era diferente
Ouvia-se antigamente
Os rapazes a cantar

Pois o tempo já mudou
E para sempre ficou
A doce lembrança minha
Os rapazes a cantar
Ó meu berço d' embalar
Ó minha aldeia velhinha

Pois o tempo já mudou
E para sempre ficou
A doce lembrança minha
Os rapazes a cantar
Ó meu berço d' embalar
Ó minha aldeia velhinha
Ó
Ó minha aldeia 
Ó mocidade 
Ó minha aldeia 
Ai saudade
A
Ó minha aldeia 
Ó mocidade 
Ó minha aldeia 
Ai saudade 
..........................................

Foi-se embora a mocidade
Foi-se embora a mocidade
Ficou a minha paixão
Quem não há-de ter saudade
Quem não há-de ter saudade
Dos tempos que já lá vão


Ó minha aldeia velhinha
Ó minha antiga casinha
Ó meu berço d' embalar
Como tudo era diferente
Ouvia-se antigamente
Os rapazes a cantar

Hoje o tempo já mudou
E para sempre ficou
A doce lembrança minha
Os rapazes a cantar
Ó meu berço d' embalar
Ó minha aldeia velhinha

Hoje o tempo já mudou
E para sempre ficou
A doce lembrança minha
Os rapazes a cantar
Ó meu berço d' embalar
Ó minha aldeia velhinha

Ó minha aldeia 
Ó mocidade 
Ó minha aldeia 
Ai que saudade
A
Ó minha aldeia 
Ó mocidade 
Ó minha aldeia 
Ai que saudade 

A
Ó minha aldeia 
Ó mocidade 
Ó minha aldeia 
Ai que saudade 

Assim vai Montalvão...

NOTA: Agradecimento ao "Trio Alentejo" (Manuel Agostinho, Pinto Machado e Vítor Paulo) pela cedência do tema musical do disco «Sucessos do Alentejo»



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21 abril 2020

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As Costureiras

21 abril 2020 0 Comentários
HOUVE DEZENAS DE COSTUREIRAS EM SETE SÉCULOS MONTALVANENSES.



No auge demográfico e social de Montalvão no século XX (Anos 40 e 50), houve a Xá Inlízia (Elisa) e a Marí Silva na rua de Sam Pedro, a Xá Fortunata na Praça e a Xá Jaquina Baleiza, no Arrabalde.


As costureiras montalvanenses vestiam as mulheres e catchópas da Vila. Tinham ainda outra função importante. Ensinavam às raparigas, educadas para serem "domésticas" (esposas e mães) os princípios elementares da costura para depois ao longo da sua vida, arranjarem a roupa dos maridos e fazerem a dos filhos.

(clicar em cima desta e de quase todas as imagens permite melhor visualização das mesmas)



Com a inauguração, em 10 de setembro de 1952, do edifício da «Casa do Povo» construído na "Horta da Ramalhoa", foi instalada na cave (traseiras) um "Posto da Obra das Mães".



As costureiras faziam um pouco de tudo, desde fatos de festas - batizados e casamentos - até roupa para o dia-a-dia. De saias, saiotes a blusas, lenços e vestidos. Rendas e bordados. Uma variedade que fazia das montalvanenses heroínas nos bailes e festas de Montalvão.



Muitas das costureiras eram Mestras de dezenas de catchópas que durante a vida foram aperfeiçoando o que aprenderam enquanto petizes numa povoação que tendo pouco mas de tudo, tinha de tudo um pouco.



Em 1952, nas traseiras da «Casa do Povo», a "Mestra" passou a ser uma professora contratada fora de Montalvão, hospedando-se numa casa do Arrabalde. Ensinava de tudo, desde coser a cozer. De segunda-feira a quarta-feira, aprenderam-se bordados de Castelo Branco, Arraiolos, Portalegre, Nisa, até Açores e Madeira. Toda a tradição de Portugal explicada e iniciada nas traseiras da «Casa do Povo». Ensinava todas as malhas, de canelados a rendas.  No fogão, a petróleo, na quinta-feira cozinhavam-se desde refugados, cozidos a fritos, de carnes, peixes e legumes. Aprendiam-se até comidas de outras terras e para outras gentes. Até coro afinado havia (sexta-feira) e primeiros-socorros se estudavam.

Próxima "paragem": Os Salsicheiros
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20 abril 2020

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Ciclo da Oliveira III

20 abril 2020 0 Comentários
A OLIVEIRA É A ÁRVORE-SÍMBOLO DOS MONTALVANENSES.



Planta generosa esteve no centro da sobrevivência dos montalvanenses durante séculos. 


O «Anel de Olival» a rodear Montalvão
As oliveiras mais antigas estão mais próximas da povoação

Chegou ao território atual da freguesia de Montalvão antes deste existir como povoado e depois foi carinhosamente cultivada num anel em torno da aldeia e, as mais afastadas do povoado, nos cabeços com "terreno de areia" (grauvaques). 


Adaptação do portal "Brigada da Floresta" (clicar) e "Guia Ilustrado de 25 árvores de Lisboa" (clicar)

Quando a pressão humana (e a fome) eram elevadas chegou, mesmo, a ser plantada nas "Barreiras do Rio", ou seja, na vertente da margem esquerda do rio Sever, o que faz com que, devido à inclinação dos terrenos e solos esqueléticos, pareçam mais arbustos que árvores. 



A Oliveira é tão generosa que tudo dela se aproveita:

1. A sua sombra e proteção todo o ano pois a folha é persistente renovando-se pela idade e não pela estação do ano;

2. Os frutos (azeitonas) servem para produzir azeite - utilizado como iluminação ou como óleo vegetal (para cozinhar ou temperar) - mas também para acompanhamento às refeições, "arretalhadas" com sal (depois de umas quantas - seis no mínimo em três dias - mudas de água) ou de conserva (em água, óregãos, loureiro e sal);

3. As folhas utilizadas para cobrir chão da furdas (pocilgas) e fazer chá (em desuso, entre os montalvanenses, no século XIX e seguintes);

4. A madeira é "dócil" em ser trabalhada por isso mais para marceneiros que carpinteiros, mas utiliza-se principalmente para ser queimada como aquecimento ou para cozinhar. 


Uma da oliveiras mais antigas do Mundo com 3 352 anos

Este blogue irá acompanhar o "Ciclo da Oliveira" com quatro publicações por ano, utilizando uma nobre oliveira de Montalvão.

A. Verão - Início da frutificação e crescimento da azeitona;


Os olivais e a oliveira eram como familiares para os seus proprietários (e até para quem só as via...). No Verão olhavam para cada uma como se todas fossem diferentes - a "do pé do poço", a junto ao caminho, a de "arretalhar", a "boa para conserva", a do "canto", etecetra. Mesmo que existissem 500 oliveiras repartidas por dez propriedades rústicas mais umas quantas - por exemplo, a "da furda" («furda» em montalvanês, é o recinto para ter o porco) - no quintal se este existisse, mesmo assim, com tantas, todas tinham "um nome", uma função, um propósito. Entre Julho e Agosto ia-se olhando para elas - e se o ano agrícola corresse normalmente até à colheita («apanha» em montalvanês) - já se sabia quantos alqueires de azeite estavam previstos, quais as para conserva e quais as para "arretalhar". Entre galega (preta e miúda) e cordovil (maior e esverdeada). 


B. Outono
- Amadurecimento e apanha (publicado em 1 de dezembro de 2019) com a evolução dos Lagares pela aldeia (ver imagem por baixo do pequeno vídeo) e o modelo artesanal em separar o azeite do resto. O modo de ripar as azeitonas com escadas e "panales"; Separar as folhas das azeitonas; juntá-la em "tulhas" e acondicionar o azeite em potes de zinco; e talhas de barro pezgadas por dentro para a azeitona de conserva.


 
Quanto ao bagaço. Uma parte ficava no lagar. Outra parte ia para uma tulha e servia para alimentar o porco na sua ração diária («vienda» em montalvanês). Um púcaro de bagaço de azeitona por dia... nem sabe o bem que lhe fazia!
A memória dos habitantes de Montalvão permite localizar três edifícios como «Lagares de Azeite»: 1. rua das Almas (a abufêra - água russa em montalvanês) corria para a azinhaga do Level; 2. rua da Corredoura com a abufêra (água muito poluente) a correr para a azinhaga da Corredoura até à «Fonte Lagar»; 3 - Lagares atuais. Havia, ainda, já muito idosos, quem dissesse, no início dos Anos 70, que antes do Lagar na rua das Almas, o Lagar de Azeite de Montalvão "era lá para o ribeiro do Pontão"!

C. Inverno - Inflorescências e floramentos («enfarna» em montalvanês) (publicado em 20 de abril de 2020);


 
D. Primavera - Crescimento dos frutos/azeitonas - a publicar em 1 junho de 2020. Ficando em definitivo como texto permanente neste blogue. 



Uma homenagem à Árvore que "matou a fome", iluminou, alegrou e aqueceu milhares de montalvanenses durante 700 anos.




Quem é que não gosta de um simples pão de trigo com azeitonas levadas dentro de uma "corna" (quando se comiam a lavrar uma tapada ou numa eira na debulha do trigo)? Manjar de deuses!




Com este texto inicia-se uma série de iniciativas neste blogue tendo em conta a importância dos elementos do Mundo Rural que influenciaram, durante séculos, o ritmo sazonal dos montalvanenses. Funções da sua vida/existência que eram o seu suporte.


Próxima paragem, num dia destes, no Futuro próximo. A Parreira: o arbustro-preferido.

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17 abril 2020

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A Galinha Solitária

17 abril 2020 0 Comentários
PÕE, PÕE, PÕE A GALINHA O OVO. 



Em Montalvão quase todas as famílias tinham uma galinha. Uma galinha poedeira. Só, e apenas, uma!



Era uma vez uma galinha montalvanense

Era uma vez uma galinha que tinha nascido de um ovo posto debaixo de uma escada, no vão de uma escada.



Em pouco tempo o pinto se fez galinha e habituou-se a debicar pelas ruas, entre os ponedros e as casas, entre os muros e as pedras encontrando o sustento diário. Algumas vezes apanhava os montalvanenses, distraídos, agarrados a pão com conduto e... toma. Debicava-lhes o pão. Que não se distraíssem na via pública, pois então! Território das galinhas, conquistado por várias gerações, ponedro a ponedro!



Poucas casas na Vila tinham quintais. Nem "um quinto" (20 por cento) por isso não havia onde fazer capoeiras.



As galinhas das vizinhas encontravam-se, trocavam de sítio, logo ao nascer do Sol. Deixavam o poleiro (e um ovo posto) e rumavam à via pública à procura de comida. 



Debicavam aqui, ali e acolá. Ao entardecer recolhiam a casa, entrando pelo buraco do fundo das portas. Serventia de gatos e galinhas. Tal como os gatos acertavam sempre em qual casa, nunca havendo enganos de galinhas em casas trocadas.



Dentro de casa iam para o vão da escada, onde tinham o poleiro e dormiam. Até à manhã seguinte. Não serviam para comer, nem para fazer criação de pintos. Serviam para dar à casa um ovo fresco por dia. Todos os dias.



Era uma vez uma galinha montalvanense
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13 abril 2020

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Os Açougueiros

13 abril 2020 0 Comentários
HOUVE DEZENAS DE AÇOUGUEIROS EM SETE SÉCULOS MONTALVANENSES.



No auge demográfico e social de Montalvão no século XX (Anos 40 e 50), houve o Ti Zé Ramalhete na rua Direita, o Ti Juan André na travessa da Praça e o do Bagulho no Arrabalde, praticamente, em frente à sua taberna. Havia ainda a salsicharia da Xá Júlia, na casa de gaveto entre a Praça e a travessa desta, que também tinha açougue, principalmente, carne de porco.


Num tempo em que se comia pouca carne fresca em Montalvão, três açougueiros garantiam o abastecimento da povoação. Vendiam carne de todas as espécies complementando a criação doméstica que alguns montalvanenses conseguiam ter em capoeiras, até a debicar pelas ruas - galinhas - ou no campo - rebanhos. Até coelhos eram raridade. 

(clicar em cima desta e de quase todas as imagens permite melhor visualização das mesmas)



Alguns - talvez um terço das famílias - conseguiam ter um porco mas este estava reservado para a matança anual, depois de ter o azeite em casa. 



A carne mais procurada era a dos herbívoros de porte médio, como borregos, cabras e chibos que faziam parte das principais vendas dos açougueiros. Não consta que se vendesse carne de vaca, mas sendo rara só ao alcance de poucos podia haver de vez em quando. E só para alguns... Para muitos montalvanenses, estes só souberam o que era carne de vaca quando foram viver para cidades... bem longe de Montalvão.


Na toponímia de Montalvão o açougue (em linguagem grave, matadouro, tal como açougueiro é talho em linguagem grave) está representado nas escadinhas (originalmente com oito degraus) que ligam a rua do Arneiro à Praça (depois de 5 de outubro de 1910, da República).
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Os caçadores e a caça complementavam os açougueiros e os salsicheiros. Por vezes alguns montalvanenses "perdiam a cabeça" e ao cruzarem-se com caçadores com caça à cintura compravam aos "quartis" (25 por cento) de uma lebre, perdiz ou coelho bravo.
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Na Quaresma, entre o Entrudo e a Páscoa não se consumia carne fresca (só enchidos; na Semana Santa nem enchidos), o resto do ano também era pouca a que se comprava, mas numa aldeia, mais em toda a freguesia, com 2 672 habitantes em 1940 e 2 649 no Recenseamento de 1950, havia um gasto suplementar aquando da celebração de festas coletivas ou individuais, de batizados a bodas (casamentos) que eram muito frequentes (40 nascimentos bem sucedidos e 20 casamentos, em média) a cada ano, entre a década de 30 e o início dos Anos 60.

Próxima "paragem": As Costureiras
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03 abril 2020

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Berços de Pedra

03 abril 2020 0 Comentários
OS EDIFÍCIOS DE MONTALVÃO, HABITADOS POR FAMÍLIAS, FORAM DURANTE SÉCULOS UMA MATERNIDADE.



Todas as casas? Nem todas! Mas não houve edifício familiar construído antes dos Anos 60 que não tivesse sido local de, pelo menos, um parto. E os prédios mais antigos foram maternidades em mais de 40 nascimentos de montalvanenses. Quando olhamos, da rua, para uma casa que tenha mais de 70 anos, estamos a olhar para um local onde nasceram montalvanenses.

Houve anos em que nasceram mais de 60 crianças, ou seja, em média um parto a cada semana. Os choros dos bébés ecoavam um pouco por toda a localidade. Umas vezes na rua da Costa, depois na Corredoura, na rua Direita, na do Ferro, na rua da Barca, depois na de São Pedro, Arrabalde, Arneiro ou Outeiro, todas tiveram partos anualmente. Toda a aldeia era uma maternidade gigantesca, não dividida por quartos, mas por casas. Casas de habitação, berços de pedra.

Todas as casas de Montalvão têm história
Muitas estórias diárias em cada edifício habitado que todos juntos - desde que começaram a ser habitados até à atualidade - completam a História de cada uma das casas familiares montalvanenses. E a história de todas elas, no seu conjunto, é uma parte significativa da História de Montalvão. Para a completar restam as estórias que se passaram nos terrenos agrícolas que constituem a freguesia. A junção das histórias - a da localidade, outros locais com habitação e o espaço rural envolvente que suportava a vida dos montalvanenses - são a «História Total de Montalvão». 

Berços de Pedra
A história completa de cada casa já não é possível fazer - pelo menos com os meios existentes na atualidade - mas ainda se consegue fazer a história de algumas delas. Só consigo fazer a história de uma. Outros conseguirão fazer de outras casas. A história que vou escrever é acerca de um edifício - por que só consigo contar com rigor a "vida" desta casa - mas é como se contasse a história de todas as outras. Ao contar a história desta é uma forma de homenagear todas as outras, pois todas tiveram dentro delas estórias idênticas, variando a dimensão, formato de cada uma, bem como as datas e números a elas associados.  


O prédio construído num quintal, com serventia pela rua das Almas, de uma casa com entrada pela rua do Ferro. Nesta casa da rua das Almas nasceram quatro montalvanenses, entre 1938 e 1960


Um «Berço de Pedra»
Na rua das Almas. É a história do prédio da imagem que está por cima que consigo contar. E é esta que vou escrever. Foi construída no início da década de 30 para um casal que contraiu matrimónio, na Igreja Matriz, em 20 de agosto de 1930. Esta casa foi feita no quintal de outra casa. De um prédio no gaveto entre a rua do Ferro e a rua das Almas. Este edifício tinha um quintal com serventia pela rua das Almas. 



Mais um «Berço de Pedra»
Quando a filha mais velha dos donos deste edifício de gaveto se casou foi construída uma casa no quintal desse prédio para o recém-casal fazer a sua vida. Nesta casa, feita no quintal de outra, nasceram quatro montalvanenses, entre 1938 e 1960. A curiosidade é que o último montalvanense a nascer nesta casa, em 1960, era filho da primeira montalvanense a nascer, em 1938, no prédio feito num quintal de outra casa. De permeio nasceram mais dois montalvanenses, ambos no década de 40, mas isso é outra história. 


A casa de gaveto entre a rua do Ferro e a rua das Almas que tinha um quintal com serventia para a rua das Almas onde se ergueu mais uma casa na primeira metade da década de 30

Dois montalvanenses
Em 20 de agosto de 1930 casaram-se dois montalvanenses. Como era habitual em Montalvão, o esposo era mais velho e a esposa mais nova. O casal teria depois cinco filhos, oito netos e 15 bisnetos. A vida foi feita à volta do rendimento de uma carpintaria, pois o Ti Zé Caratana era carpinteiro. Ele nasceu, pelas 14 horas, em 28 de novembro de 1905, sendo batizado em 11 de fevereiro de 1906. A esposa, filha mais velha dos donos da casa e quintal onde foi construída outra casa, nasceu pelas quatro horas da manhã, em 24 de fevereiro de 1910, com batizado a 26 de maio de 1910. Ele o 9.º batizado em 1906, ela o 28.º batizado em 1910. Vinte e oito batizados e ainda o ano de 1910 não ia a meio. Nasceram 63 crianças, em 1910, entre Montalvão, Salavessa, Santo André e Monte do Pombo. Poucas sobreviveram até aos dois anos.   

(clicar em cima desta e de quase todas as imagens permite melhor visualização das mesmas)




Um casamento
Em 20 de agosto de 1930 consumou-se o casamento. O noivo com 24 anos e a noiva com 20 anos. Batizados e casamento na linda Igreja Matriz, por onde passava a vida de todos os montalvanenses. Velados em casa depois de morrerem, também por lá passaram na última viagem a caminho de cemitério onde repousam.



Uma família
Depois do casamento e até que o edifício erguido no quintal da rua das Almas estivesse concluído nasceram os dois primeiros filhos. O mais velho na rua da Barca e o seguinte no prédio de gaveto, com entrada pela da rua do Ferro já no quintal se erguia, lenta mas em definitivo, a futura casa do casal com o carpinteiro a ter oficina, também, na rua das Almas. 



Quatro partos
O terceiro filho - primeira filha - já nasceu na nova casa da rua das Almas, em 11 de novembro de 1938, tal como o quarto - segunda filha - e o quinto - terceiro rapaz, infelizmente já uma estrela no firmamento sobre Montalvão. Depois passariam quase duas décadas até que este edifício voltasse a ser berço. O primeiro neto nasceu na rua de São Pedro, o segundo - filho mais velho da filha nascida em 1938 - nasceu na mesma casa, em 21 de outubro de 1960. O terceiro neto nasceu na rua de São Pedro e os restantes cinco nasceram noutras ruas e cidades. Foram quatro os nascimentos, entre 1938 e 1960. Em 21 anos e onze meses a "Casa da rua das Almas" foi quatro vezes maternidade. E por aí ficou. Quatro nascimentos lhe deram história. Por quatro se ficou, um edifício que ainda nem 90 anos tem. Mas em Montalvão há edifícios com muitos mais nascimentos que apenas quatro, pois há casas com mais de 200 anos e construídas em locais onde há prédios que foram sendo melhorados durante 700 anos! Uma eternidade.

O terceiro montalvanense a nascer nessa casa da rua das Almas já é apenas uma das estrelas no firmamento celestre sobre Montalvão. Os outros três - dois mais velhos e um mais novo - por enquanto continuam por cá!

É assim Montalvão. Um choro na Corredoura, outro no Arrabalde, um na rua das Almas e outro do princípio da rua de São João. Mais ainda na maior das ruas, a Direita, com a do Outeiro de um lado e a do Cabo do outro. Repetindo-se em sete séculos. Em todas as casas de chorou ao nascer e fez festa por haver mais um filho. 

Foi tempo que existiu, que acabou, mas a memória, enquanto existir um montalvanense, jamais apagará!
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