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08 maio 2021

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Montalvão 1803 (Parte II: Natureza)

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NESTA SEGUNDA PARTE O DESTAQUE É A NATUREZA DESCRITA NO INÍCIO DO SÉCULO XIX.



Na primeira parte (clicar) já se divulgou o âmbito e objetivo desta descrição elaborada, pelo então Oficial do Real Corpo de Engenheiros, José Maria das Neves Costa, nascido em Carnide (atualmente pertencente a Lisboa) que fez um reconhecimento militar da fronteira do Nordeste Alentejano, publicada em 1803. 

Descrição (excerto) num dos textos deste blogue (clicar)


Um concelho com dimensão humana apreciável para além de um território (termo) gigante ainda para os critérios do século XXI

Uma vila (Montalvão) com duas localidades (Salavessa e Monte do Pombo) perfazendo um total de 1 296 habitantes a viver em 338 edifícios. Haveria, certamente, mais uns quantos montalvanenses a viver dispersos pelo território mas menos que os relatados cerca de 50 anos antes (1758) por Vigário Frei António Nunes Pestana de Mendonça, tendo em conta a tendência para a aglutinação das pessoas em localidades com a melhoria das comunicações. Em breve, surgiria o Monte do Santo André junto a Montalvão. 



Vida difícil devido às condições naturais

O isolamento sempre foi a principal característica do território que permitiu conservar um linguajar muito próprio bem como tradições ancestrais e modos de fazer bem diferenciados dos territórios contíguos que chegaram até décadas tardias ainda no século XX. A descrição feita no início do século XIX ilustra as dificuldades de final de Verão quando a água - mesmo ruim todo o ano - ainda diminuía, em anos secos, tanto que tornava a vida num calvário, para os habitantes (principalmente da vila de Montalvão) mas eram os animais que mais sofriam. Na Salavessa e no Monte do Pombo como eram terrenos de cascalho e areão havia água com qualidade e alguma abundância todo o ano. Aliás era sabendo das dificuldades em ter água em final de Verão e início de Outono que fazia muitos Proprietários e Lavradores limitarem o número de cabeças de gado para não terem que fazer abates forçados por falta de água para permitir a sobrevivência das espécies domesticadas. A falta de água implicava também dificuldade, por questões de higiene, em debelar doenças e fraquezas que o esforço dos trabalhos rurais agudizavam a cada safra durante o Verão. A população até 1864 (data do primeiro Censo, com 1373 habitantes, mais 77 que no início do século) nem cem pessoas aumentara em mais de meio século. E é provável que até fossem menos pois ainda haveria montalvanenses a viver dispersos pelo território que não foram inventariados pelo exército às ordens de  José Maria das Neves Costa.  



Território vasto mas com terrenos pouco produtivos

Salientando-se, no entanto, um clima ótimo para o Trigo (de todos os cereais o mais valioso) e para o Linho (importante para tecer roupa e agasalhos de qualidade) complementando-se à lã e ao algodão. O secular manuseamento do linho permitiu dar destaque ao trabalho dos mulheres que até meados do século XX conseguiam fazer preciosidades artesanais com técnicas e composições que passavam de mães para filhas, durante gerações cuja origem chega do "fundo dos tempos passados".



Cinquenta anos antes já se destacava o Trigo e o Linho

Quando, em Lisboa, se decidiu fazer um inventário dos estragos que o terramoto do 1.º de novembro de 1755 provocou no país, quem responde de Montalvão é inequívoco quanto à questão n.º 15 - «Quaes saõ os frutos da terra, que os moradores recolhem em maior abundancia?» 



O Vigário Frei António Nunes Pestana de Mendonça escreve de Montalvão, em 24 de abril de 1758, de forma inequívoca como resposta n.º 15:



15. «Os frutos desta terra saõ somente trigo, senteyo, sevada, e linho, e algum azeyte, e mel; sendo entre todos estes de trigo a mayor abbundançia, segundo a qualidade dos annos.»


A quantificação no início do século XIX

Permite comparar quão importante era o Trigo em relação aos restantes cereais cultivados, tais como o centeio e a cevada. Faltou avaliar os feixes de Linho. Em terrenos pouco férteis e com escassa humidade o gado miúdo (ovelhas/lã e caprino) era muito superior ao gado graúdo (vacas). Com carreiros (veredas), caminhos e azinhagas tão tortuosas o gado asinino (burros e burras) sobrepunha-se ao total de gado mais possante mas também mais exigente: cavalar (éguas e cavalos) e muares (machos e mulas). Não sendo inventariadas as carroças de dois varais (para um animal, geralmente um jumento) e os carros de um varal (para uma parelha, geralmente, de muares) fica-se sem conhecer as proporções entre cada um deles, mas tendo em conta a quantidade as carroças deviam dominar.  


O trigo montalvanense (360 moios*) suplantava todos os outros concelhos do Nordeste Alentejano: Póvoa e Meadas (250 a 300 moios), Portalegre (260 moios), Castelo de Vide (100 moios), Marvão (40 moios), Alegrete (20 moios) e Alpalhão (12 moios). De Nisa não há informação. * um moio era cerca de 800 litros 


Eis um retrato escrito da Natureza de Montalvão há 220 anos!


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