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02 abril 2021

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Semana Santa IV

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SEXTA-FEIRA SANTA.


O dia mais triste do ano era muito sentido em Montalvão e impressionava os forasteiros. Havia quem passasse pela aldeia só para presenciar esta tristeza coletiva sentida. Era como se Jesus Cristo morresse mesmo em Montalvão. Os montalvanenses vestiam-se de luto e o choro era habitual quando assistiam ao longo do dia a algumas celebrações que evocavam a «Morte do Senhor». As crianças num tempo em que as aldeias viviam isoladas do Mundo acreditavam até muito tarde que Jesus Cristo vivera em Montalvão e lá morrera há muitos anos. Em tempos longínquos. Tal era a dimensão da tragédia assumida pelos montalvanenses.




A Sexta-feira Santa começava ao final do dia (lusco-fusco) com a Paixão, cantada por três padres, segundo o preceito. Acabada a Paixão rezava-se a Missa dos Pré-santificados, seguindo-se o apagar das luzes pelos Irmãos do Santíssimo.



Havia finalmente uma Procissão Imponente do «Enterro do Senhor» que fazendo o percurso habitual "recebia de surpresa" ao virar da rua do Cabo para o início da azinhaga do São Pedro/Corredoura, o andor de «Nossa Senhora das Dores» (coberta com um pano de veludo negro de luto) que vinha do Calvário (igreja/capela do Espírito Santo). Que tinha sido, previamente, transportada na noite do dia anterior da Igreja Matriz para a Capela do Espírito Santo/Calvário - e quando esta esteve em ruinas - para a Capela do São Pedro. 



O andor aguardava - como que escondido - na ruinha de cima que ligava o final da rua Direita com a rua de São Pedro. Significava o encontro da Virgem Maria com o filho a caminho da morte. Todos os anos era o mesmo ritual que provocava, mesmo assim, um impacte de tristeza e impotência perante um desenlace que se sabia ser fatal. 

A varanda do Ti Mané Fado, mesmo em frente à ruinha de cima. Era daqui que um pároco com dotes oratórios eloquentes fazia um sermão acerca do encontro entre a Virgem Maria e Jesus Cristo. Entre uma Mãe e um Filho que ruma a caminho da morte. Um caminho de sacrifício e uma morte sofrida, lenta e dolorosa. O Ti Mané Fado era um pequeno agricultor que honrava a procissão, vivendo de uma pequena quinta, no cimo da «Ladêra da Senhô Drúmedes», logo ao lado esquerdo   


Um pároco convidado dotado de boa capacidade oratória, subia a uma varanda de uma casa particular, de Manuel Fado, e fazia um Sermão vigoroso e sentido com muitas das pessoas que formavam a Procissão a chorar. Era a despedida entre Mãe e Filho com a morte anunciada de Jesus. A Procissão contemplava as 14 paragens ou estações (clicar). 

(clicar em cima desta e de quase todas as imagens permite melhor visualização das mesmas)


A Procissão merece descrição detalhada mas fica para o próximo ano.


Recolhida a procissão à Igreja Matriz, era pronunciado o Sermão com o desenrolar do Santo Sudário. Assim terminavam as cerimónias de Sexta-feira Santa fazendo-se soar a «Matraca» pela última vez. O último suspiro. Cristo acabara de morrer na Cruz.

Eis Montalvão cuja origem remonta ao mais puro rito do Cristianismo Templário. As atividades humanas decorriam pontuadas pelas cerimónias do Divino

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