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25 junho 2022

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António José Belo 20

25 junho 2022 0 Comentários

FALECEU HÁ VINTE ANOS, O TI ZÉZANA QUE CONTAVA 90 ANOS DE IDADE, EM 25 DE JUNHO DE 2002.



António José Belo continua bem presente pois deixou para a posteridade rimas que continuam a encantar. Assim, tal como escreveu Luís Vaz de Camões - o Príncipe do todos os poetas e rimadores - "deixando obra valorosa esta da lei da morte liberta os seus criadores". Por isso o «Ti Zézana» continuará a ser uma referência, não só em Montalvão mas entre todos os milhares de rimadores que existiram e existem. 



É notável como passados tantos anos, após muitas delas serem elaboradas, continuam modernas como se fossem compostas ontem. Que melhor certificado de qualidade e modernidade poderá haver?



Duas criações do Ti Zézana: a cadeira feita e empalhada por ele, em Montalvão, na sua casa na rua Direita, antes de chegar à Ruínha de Cima. Com o seu livro (O Meu Livro) reunindo o que foi a sua obra poética e ideias acerca de Montalvão e do Mundo



A vida dele (ou parte dela) contada por ele mesmo, aos 84 anos, em 22 de julho de 1996...


Para fazer um resumo do que foi a minha vida e da minha família primitiva, começo por dizer que me chamo António José Belo. Tenho 84 anos de idade, já não tenho pai nem mãe, nem tenho irmãos. Dos sete irmãos que eu tive, fui o último filho de quem nunca me posso esquecer, a minha mãe. 

Quando eu saí do sono ou do sonho da meninice, com um ou dois anos de idade, comecei a distinguir as coisas junto dos meus quatro irmãos mais velhos - era um irmão e três irmãs - sim, porque os três filhos que minha mãe teve primeiro eu não os conheci. Morreram com as doenças que então vitimavam muitas crianças: as bexigas, o sarampo, etc. Como os meus pais trabalhavam na vida agrícola, todas as famílias viviam com dificuldades em arranjar sustento para toda a família da casa. Então aos sete ou oito anos, o trabalho das crianças começava a ser aproveitado, mas eu quando tinha quatro ou cinco anos aprendi a decorar as letras do alfabeto com os poucos que andavam à Escola. Até aprendi a dizer o alfabeto ao contrário que ainda hoje o sei dizer. Comecei a reparar, alguém me disse, os valores que algumas letras têm a mais e assim fui aprendendo sem nunca ter ido à Escola.  

Quando eu tinha nove anos, logo me ocuparam para ir guardar cabras para uma área chamada Fonte Ferrenha que fica distante de Montalvão cerca de cinco quilómetros. Depois fui para outras áreas chamadas Cabeça Gorda e Vale de Padrão, distantes cerca de cinco a seis quilómetros de Montalvão. Depois vim para outro sítio mais perto, a dois ou três quilómetros de distância e então já tinha oportunidade de ir a umas explicações de noite. 

Chegado aos 14 ou 15 anos a guardar cabras, fui trabalhar para uma casa agrícola, onde eu fazia qualquer espécie de trabalho, como limpar árvores, enfim eu estava apto a fazer qualquer trabalho respeitante à vida agrícola.

Em 1933 fui cumprir o tempo da vida militar, sempre um soldado exemplar e aprumado no Grupo de Artilharia Montada n.º 14, em Portalegre. Apraz-me dizer aqui, que o meu instrutor, ainda como Furriel foi o senhor Capitão Gomes, natural de Nisa. Depois de cumprida esta função na tropa, fiz vários serviços tal como cortar árvores e da lenha fazer carvão, assim como trabalhei nas valas das águas que vão do Racheiro à Central da Velada, na abertura do túnel que passa por baixo da estrada de Nisa para Castelo Branco, no sítio chamado Papo da Rã. A partir daí optei pela vida de serrador de madeiras, trabalho duro e pesado, onde trabalhei muitos anos, num raio de 30 quilómetros da minha terra, muitos cómodes me serviram de abrigo e muitas fontes me mataram a sede. 

Quando em 1938, data que não me esqueço nunca, por nesse ano ter nascido o meu filho, então foi quando a estrada Alpalhão - Nisa - Castelo Branco foi alcatroada pela primeira vez e também foi alargada, sendo o empreiteiro de Santarém, de nome qualquer coisa Beirante. Eu é que serrei esses monstruosos troncos que havia sobre a estrada desde o ribeiro de Santo António, parte sul de Nisa até lá em baixo ao fundo de Palhais, esta madeira toda feita em vigamentos. Em 1936, dia 17 de Fevereiro, foi o dia do meu casamento, tinha eu então, 24 anos. Foi uma festa de casamento muito alegre, muito feliz, continuando a nossa vida.

Em 1941, dia 15 de Fevereiro, foi o grande desastre do ciclone que assolou toda a Península Ibérica com vento acima de 150 quilómetros por hora. Fez estragos incalculáveis, deitou abaixo árvores de todos os tamanhos, levou muito tempo a desimpedir estradas e caminhos. Tudo cresceu incomensuravelmente e então eu e o companheiro que trabalhava comigo, não chegávamos para onde eramos solicitados e assim, antes de estar em Nisa a serração do senhor José da Luz Correia, do então filho dele João Nunes, com a camioneta que trazia os toros de madeira para uma cabana que então havia nesse largo que agora está livre ao lado da serração. Onde fazíamos grandes festas nas horas vagas, isto porque o meu companheiro tocava uma concertina e eu tocava um bandolim. Até toda a G.N.R. ali se divertia. O que eles não nos deixavam era trabalhar na hora de içar a bandeira. Era no tempo em que havia um pouco de jazz em Nisa, eram os Fixes, os Invencíveis, os Brilhantes e ainda os Calhabrés, e assim estivémos cerca de dois anos por conta do senhor José da Luz Correia e ao serviço de serrar tudo o que era preciso a quem nos solicitava. Até serrámos a madeira dos armamentos para todos os aposentos da serração ainda existente. Dali fomos para o Cacheiro onde trabalhei uma dúzia de anos. Chegámos ao Cacheiro, a Igreja Matriz estava sem telhado já havia uns anos com árvores crescidas lá dentro, as imagens estragadas. Eu e o meu companheiro com ordens do senhor doutor Jaime Almeida, serrámos as madeiras todas para reconstruir a igreja, telhado, portas e até as imagens. O São Matias e a Senhora dos Prazeres vim os trazer a Montalvão numa carroça, mais o Tio Severino e o Tio Júlio, que era o Sacristão. Entreguei aqui os Santos a uns indivíduos muito artistas naqueles trabalhos. Os Santos foram como novos, a Igreja restaurada e pintada e assim pusémos a Igreja da Freguesia de pé, com todas as exéquias que lhe eram devidas. Levei para lá, também aqui de Montalvão, um grande mestre de olaria esteve lá dois ou três anos, mais ou menos, que deu um grande ensinamento naquela empresa e aqueles oleiros, daquela grande empresa que é a Loiça do Cacheiro mais o seu empresário. É o que resta, o meu amigo José Lopes. Já aqui do Cacheiro muitas vezes eu ia de bicicleta de noite a dar ensaios a grupos de teatro e folclóricos. 

Eu tive uma vida muito activa, mas muito desgastante em todos os sentidos, o meu trabalho era demasiado violento. Actividades de ensaiador de tantas coisas, roubavam-me as noites e tiravam-me o sono e o meu descanso que eu aos 44 anos caí num estado de fraqueza, tanto física como psíquica. Quando cheguei aos 46 anos o barco parou, não podia mais. Por cá andei uns tempinhos, tive que ser internado, onde passei por umas intervenções cirúrgicas muito melindrosas, aproveitei e pedi para me tirarem também a apêndice e uma hérnia, isto em 1953.

Depois de passar estas tormentas já não voltei à vida de serrador. Dediquei-me à vida do artesanato, à poesia e a outras actividades que noutros tempos já vinha fazendo e que também tem os seus quebra-cabeças. 

Em 1962 fui convidado para ir para Lisboa, para um Colégio (Casa dos Rapazes) ser ali o fiel orientador e à frente dos destinos de quase uma centena de pessoas, onde estive quase quatro anos. Por motivos lá do colégio, corri Lisboa toda, por fora e por dentro, em defesa do colégio e das pessoas que ao colégio pertenciam, sempre que fosse necessário.

Em 1970, tinha eu nesta data 58 anos, fui Presidente da Direcção da Casa do Povo de Montalvão, houve uma grande mudança no sistema da nossa vida. Foi quando veio o direito à reforma para todos, a Lei dos Equiparados. Fiz bem a tanta gente sempre que o pudesse fazer e assim o queiram compreender, isto além do valor que dei à minha terra na Casa do Povo. Ainda agora sou o irmão mais idoso da Santa Casa da Misericórdia de Montalvão e ainda mil escudos para o Fundo Paroquial. Segue-se localidade(Montalvão) data (22-7-96) e assinatura.

   

NOTA PESSOAL (para acrescentar na biografia): Enviuvou em janeiro de 1989, aos 76 anos, com o falecimento da sua esposa tchá Marí Drozá (Maria do Rosário Catarino)




Não sendo um poeta prolixo, em versos e obra (quantidade) soube ultrapassar o que é habitual na maior parte dos rimadores. Eis uma sua rima como muitas que não distinguem rimadores a não ser no modo como são melhor ou pior conseguidas.




Quando se compara o Ti Zézana com rimadores seus contemporâneos ou mesmo da atualidade publicados em livro ou reunidos em coletâneas sobressai o modo como soube ir para lá do óbvio de rimas simples com sentido e objetivo, de temáticas sociais a regionais e desencantos ou encantos, como é timbre dos rimadores. António José Belo ultrapassou isso aproximando-se da poesia como poucos rimadores o conseguem fazer. 

 


A modernidade de um rimador que nasceu em 1912

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