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24 setembro 2021

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Feira de Nossa Senhora das Mercês

24 setembro 2021 0 Comentários
MONTALVÃO TAMBÉM TEM AS SUAS SINGULARIDADES.


Fotografia do senhor José Pedro Martins Barata

Não há lugarejo que não tenha, pelo menos, uma Feira Anual. Pois Montalvão é conhecido por não ter uma Feira instituída em determinada data, há mais de 80... talvez cem anos. Mas chegou a ter. Era a Feira de Nossa Senhora das Mercês. Talvez até aos anos 20 ou 30. Depois houve Feiras mas por coincidência de feirantes que chegavam e partiam no mesmo dia.


Em Montalvão, sinónimo de Feira era ir às quatro Feiras Anuais em Nisa. A de janeiro (ou de Inverno), a dos Passos (ou da Primavera), a de junho (ou das Cerejas) e a de outubro (ou São Miguel).


Descrição da povoação e do seu termo (Montalvão: componentes, características e atividades, da vila até aos limites do concelho). Documento original, datado de 24 de abril de 1758, na Torre do Tombo, em Lisboa

Mesmo quando, em Lisboa, se decidiu fazer um inventário dos estragos que o terramoto do 1.º de novembro de 1755 provocou no país, quem responde de Montalvão é inequívoco quanto às questões n.º «22 - Se tem feira, em que dias?» e n.º «23 - Se he franca, e quantos dias?». O Vigário Frei António Nunes Pestana de Mendonça escreve de Montalvão, em 24 de abril de 1758, de forma inequívoca como resposta n.º 19:



«Naõ tem feyra, nem mercado em algum dos dias do anno; excepto nos sábados, que saõ livres para quem na praça quizer vender alguns frutos.»

E ainda a resposta n.º 15 à questão n.º 18 - «Quaes saõ os frutos da terra, que os moradores recolhem em maior abundancia?»



«Os frutos desta terra saõ somente trigo, senteyo, sevada, e linho, e algum azeyte, e mel; sendo entre todos estes de trigo a mayor abbundançia, segundo a qualidade dos annos.»



Pois nos meus tempos de montalvanense militante era nas lajes "peitoris" das janelas que quem queria vender frutos colocava o que queria vender num prato indicando que havia mais dentro de casa para satisfazer o apetite de quem não tinha... a troco de meia dúzia de moedas velhas!



Montalvão é anterior ao estabelecimento desta data no calendário católico (clicar) pois foi em 1696 que o Papa Inocêncio XII instituiu a consagração a Maria neste dia.



Em 24 de setembro de cada ano, Montalvão celebrava a «Nossa Senhora das Mercês» com Missa, Procissão e Ritual. 



Ritual
A cada 24 de setembro assinalava-se a data ofertando licor e bolos doces entre os Irmãos que eram também quem conduzia o andor na enorme Procissão da Semana Santa, que fazia o percurso habitual, mas com encontro com a imagem vinda do Calvário. Esta Irmandade de Nossa Senhora das Mercês extinguiu-se por volta de 1907 (versão de J.P. Martins Barata, por desinteresse em conseguir renovar gerações, ouvida por ele em Montalvão nos anos 20/40) ou na leva de centenas, até milhares, de extinções de Irmandades congéneres por todo o País, depois da Implantação da República, em 5 de outubro de 1910, que foi "ferozmente" anti-clerical. 

Missa
A cerimónia religiosa consistia na missa solene com sermão "bem-dito" do púlpito. 



Procissão
Depois da Missa celebrava-se a procissão, organizada pela Irmandade de Nossa Senhora das Mercês, constituída por estudantes, tendo de muitas vezes recorrer a antigos estudantes pelo facto dos Irmãos não serem em número suficiente para as necessidades da organização com um mínimo de dignidade. A Procissão, entre uma dúzia que se realizavam por cada ano em Montalvão, era a única que não seguia o percurso habitual. Com o andor de Nossa Senhora das Mercês levado pelos Irmãos, este saía da Igreja Matriz seguindo de imediato pela rua Direita que tem agora três designações: Outeiro, Direita e Cabo em direção à Corredoura onde parava no adro da Capela do Espírito Santo. Regressava do Calvário pela Corredoura, virava à direita pela travessa do Bruzuneiro parando no adro da Capela de São Pedro onde estava a imagem de São José (levada previamente, pela calada da noite, pela Irmandade, de 24 para 25 de setembro). Seguia depois pela rua de São Pedro em direção à Praça (depois do 5 de outubro de 1910, da República) seguindo-se o início da rua Direita (depois da construção, em 1553 - melhor... por volta de 1553 - da Igreja da Misericórdia, designada do Outeiro) e regressando à Igreja Matriz.



Feira
Sem tradição de se organizarem Feiras em Montalvão, havia anos e Anos. Em alguns, os lavradores («os riques», em montalvanês) negociavam gado e produtos agrícolas, particularmente os cereais da safra desse Verão, por troca direta ou por bens, evitando dinheiro - por vezes combinando pagar mais tarde longe da Igreja Matriz, por respeito ao sagrado - e ajustando as jornas e necessidades para o próximo ano agrícola que estava a iniciar-se. A Feira realizava-se nas laterais e traseiras da Igreja Matriz, podendo mesmo, em caso de muita oferta chegar ao Adro, mas dava-se prioridade à «Praça de Armas», ou seja, ao lado contrário ao Adro. O lado norte, pois o Adro fica no lado sul.   



Praça
É muito provável que a Feira, antes da construção do quarteirão que integra a Igreja da Misericórdia, ou seja, até meados do século XVI, se realizasse na Praça do Município que era ampla e "fitava" a Igreja Matriz e o Adro de frente.


Como é óbvio (ainda...) ninguém sabe como seria a fisionomia da Praça mas não é de acreditar que existisse um quarteirão com casas que foram destruídas para fazer o atual quarteirão com a Igreja da Misericórdia (em meados do século XVI) com as casas nas traseiras destas com vista para a Praça. A rua tão estreita a sul (denominada atualmente travessa da Praça, mas durante quatro séculos foi rua do Hospital) foi uma forma de levar ao limite uma construção importante num espaço tão diminuto tendo de deixar condignamente o acesso à rua Direita, a norte, que tem quase o triplo da largura da "travessinha" a sul da Igreja da Misericórdia. Como seria a fisionomia entre o Largo da Igreja Matriz e a Praça ou Rossio de Montalvão, antes da construção da Igreja de Misericórdia? É que entre a construção da Igreja Matriz (edifício primacial) e a permissão para construir a Igreja da Misericórdia distam quase três séculos! Um dia, daqui a 50, 100 anos (quem sabe) se saberá! Tudo se sabe!

NOTA: A Misericórdia com Albergaria depois Hospital e Igreja da Misericórdia de Montalvão merecem um texto à parte - e a seu tempo será feito se ainda por cá andarmos - que dê significado e grandeza (o escriba deste blogue é que pode não o conseguir...) a uma obra acerca da qual há variada e importante documentação na Torre do Tombo, em Lisboa, desde o reinado de D. João III (1553) até ao de D. José (1758). Um dia alguém, com paciência, dedicação, denodo e rigor, conseguirá ocupar algum tempo e saber o que ainda está por conhecer. Como todos sabemos, deve-se a D. Leonor (viúva de D. João II falecido, em 25 de outubro de 1495) em concertação com o seu irmão El-Rei D. Manuel I (coroado em 27 de outubro de 1495, sucedendo ao primo D. João II, que casara com a sua irmã Leonor) a primeira instituição de uma Misericórdia, em Lisboa, a 15 de agosto de 1498, ou seja, a findar o século XV. Depois muitas outras foram surgindo por todo o País durante o século XVI.  

Eis Montalvão cuja origem remonta ao mais puro rito do Cristianismo Templário. As atividades humanas decorriam pontuadas pelas cerimónias do Divino. 
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