Páginas

25 dezembro 2020

Textual description of firstImageUrl

Natal

25 dezembro 2020 0 Comentários
A SEMANA SANTA ERA A MANIFESTAÇÃO RELIGIOSA COM MAIS SIGNIFICADO EM MONTALVÃO. TRISTE E SENTIDA


O NATAL ERA A PRINCIPAL FESTA RELIGIOSA. ALEGRE E SOLIDÁRIA. MAS NÃO ERA A PRINCIPAL EM TERMOS SOCIAIS DEVIDO À POBREZA ENDÉMICA. ESTA ESTAVA RESERVADA PARA 8 DE SETEMBRO. EFUSIVA E EXPANSIVA.



Os primeiros preparativos para o Natal, se assim se pode dizer, era ir aos campos, em meados de setembro, onde havia barrancos e ribeiras e apanhar os gamões para secarem e estarem aptos para arderem na noite de 24 para 25 de dezembro.


Gamão

Na Igreja Matriz, geralmente junto à pia batismal, fazia-se o Presépio, depois do 8 de dezembro (assinalar das festividades de Nossa Senhora da Conceição), com musgo recolhido nas paredes e muros antigos, nos arredores de Montalvão a que se juntavam as habituais figuras em barro bem atapetadas pelo musgo viçoso da aldeia. Eram estas as duas primeiras atividades, uma popular - apanhar gamões para secarem - e outra religiosa - fazer o presépio na Igreja. Nas casas dos Lavradores ( "Ricos" em montalvanês) ouvia-se dizer que faziam grandes presépios mas poucos os viam na realidade. Alguns seriam mais lenda que verdade.



Em 24 de dezembro, após o dia de trabalho, começavam os preparativos para a noite e jantado o feijão com couves feito ao costumeiro lume de madeira a arder (lareira) havia uma divisão de rituais: homens para um lado, rapazes na rua e mães com as filhas na cozinha à lareira ("lume" em montalvanês).


Entravam em ação os rapazes
Iam buscar a «urra» (que não se deteriorando passava de uns anos para os outros) e davam os últimos retoques nas «fachas» de gamão seco que eram efémeras para durar uns minutos.



A «urra» era feita com uma panela de barro tendo a tapá-la pela boca uma pele de cabra retesada e no centro um gamão a furá-la com uma haste exterior de tamanho suficiente para ser manuseada. 

As «fachas» eram molhos de gamões (cerca de vinte) atados com correias de trovisco. Colhiam-se os gamões (no final do Verão), dobravam-se as extremidades para durarem mais tempo a arder, juntando-se em molho atado pela casca do trovisco. 


Trovisco

Correndo as ruas uns faziam soar a «urra» e outros faziam archotes das «fachas». Estas acendiam-se e muitas vezes já a esmorecer faziam acender outras faixas. Podiam arder em archote mais de cem faixas nessa noite de 24 de dezembro. A «urra» estava segura debaixo do braço esquerdo e abarcada por este, deslizando a mão direita pelo gamão encerado, ressoando a panela em urros que se ouviam ao longe. Fachas a arder e a panela a urrar num monte que dominava uma peneplanície de quilómetros fazia da noite de 24 de dezembro uma manifestação de luz e som avistadas e ouvidas a quilómetros de distância.  



Em casa, mães e filhas, colocavam o café ao "lume" 
Enquanto faziam filhós, coscorões, argolas, azevias e borrachões. Era frequente os mais pobres baterem às portas dos remediados a pedir "maia-lata de azeite" (um-quarto-de-litro) para fazerem meia dúzia de filhós.


Filhós em Montalvão; Coscorões no resto do Mundo

Pelas ruas enquanto os rapazes encenavam fogo e som, os homens contavam em portanhol
Com rapazes a percorrer as ruas roncando a «urra» e queimando as «fachas», os homens em grupo, alinhados a toda a largura delas, cantavam entre outras, num espanhol aportuguesado, uma canção à capela renegando tudo o que fosse material, consagrando-se ao Cristianismo, com ele dormindo, nele pensando e Jesus Cristo honrando:

Abre-me a puerta
Cerra la ventana
Esta noche-buena
Vou dormir à tua cama

Abre-me ta puerta
Cerra te postigo
Esta noche-buena
Vou dormir contigo

Não quero más bola
Não quero más novilhos
Que estan mui caros
Los campanilhos
Los campanilhos

Além naquele cerro
Fazem lume os pastores
Aonde nasceu el niño
Entre las flores



Entretanto tocava o sino na Igreja Matriz
E todos se dirigiam para o interior da igreja. No final da «Missa do Galo» regressavam a casa para cear as iguarias na cozinha. Os pais deitavam rebuçados e amêndoas ao ar dizendo que eram ofertas do «Menino Jesus».



Com muita sorte havia "sapatinho"
Na manhã do dia seguinte, 25 de dezembro, raras vezes mas por vezes acontecia, havia uma peça de roupa interior junto do par de sapatos deixados à beira da cama.




Logo de manhã
No dia 25 de dezembro, na Missa matinal, beijava-se a figura do "Menino" que seria o reconhecimento ao nascimento de Jesus e...




Para algumas das mais belas pinturas da Natividade (clicar)



... recomeçava mais um ciclo de vida até ao Natal seguinte...


Eis Montalvão cuja origem remonta ao mais puro rito do Cristianismo Templário. As atividades humanas decorriam pontuadas pelas cerimónias do Divino
0 comentários blogger

Enviar um comentário