Festa de Santo André - Montalvam

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30 novembro 2019

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Festa de Santo André

30 novembro 2019 0 Comentários
A 30 DE NOVEMBRO, OS HABITANTES DO MONTE DE SANTO ANDRÉ ASSINALAVAM O SEU SANTO PADROEIRO.


Era uma festa bem popular e que se "perdia no tempo" o início da consagração do Monte a Santo André. Nos Anos 40 e 50, a taberna do Cananã, na rua do Meio (no topo, contrário ao local da Capela), brilhava com deslumbramento, embora a Capela estivesse em ruínas. Em 2019, retoma-se a tradição junto à Capela.


O Santo André, em 1758, não devia ter qualquer habitante pois não aparece em nenhum dos seis lugares referenciados pelo Vigário Frei António Nunes de Mendonça, existentes no concelho de Montalvão: Monte de Rollo, Monte do Pégo do Bispo, Monte do Amaro Fernandes, Monte do Pombo, Monte da Salavessa e Montalvão.    



A Ermida de Santo André merece destaque no citado inventário:



(Transcrição) «As Ermidas, quem dentro da Villa, hé somente a de Sam Marcos, que tem altar próprio, que tem Irmandade, e nada de renda; tem outro altar em Sam Joaõ Baptista; outro de Santa Maria Madalena, que naõ tem Irmandade nem renda = Fora da Villa tem Igreja do Espírito Santo, que tem Mordomos, e algumas rendas = Tem mais a Igreja de Sam Pedro, quem Mordomos, e alguma renda = tem mais a Igreja de Santa Margarida, que naõ tem Irmandade, nem renda = Tem mais a Igreja de Santo André Appóstollo, que também naõ tem renda, nem Irmandade, e somente no seu dia se lhe canta uma missa por conta das rendas, que deixou Frey Pedro Carrilho ao hospital =» 

Tudo indica que a Capela fosse mesmo, durante muitos anos, uma Ermida, ou seja, um edifício de culto cristão que ficava num lugar ermo, que não era habitado. As pessoas, as casas, as famílias, o bulício, ou seja, a vida dos habitantes do Santo André, surge depois. Bem depois! No final do século XIX já há registos de batismo com crianças nascidas no lugar do Santo André!

Instituto Geográfico e Cadastral; secção CC (Montalvão); escala 1/5 000; Campanha de 1959
 

O Santo André, em 1940, tinha mais de duas centenas de habitantes.


No Recenseamento de 1940, no Santo André, habitavam 240 pessoas - 119 homens e 121 mulheres - que pela meia-noite de 12 de dezembro ocupavam os 65 fogos; NOTAS: Fogos = edifícios para habitação; V - Varões/Homens; F - Fêmeas/Mulheres; VF - Totais

O Santo André (durante decénios Monte de Santo André) era o lugar da gente mais pobre dos pobres de Montalvão. Hoje está deserto. Mas há sempre histórias, mesmo em lugares hoje desertos mas que já estiveram a abarrotar de montalvanenses.



A Festa de Santo André começava ao pôr-do-Sol de 29 de novembro com folguedos vários para na manhã seguinte (30 de novembro) haver missa, na Capela, consagrando o Santo protetor à sombra do qual se foi organizando um pequeno povoado.


Uma espécie de Milagre de Santo André

Há muitos, muitos anos nasceu um homem numa modesta casa do Santo André. 



Chamava-se Ti Manel Texêra. Cresceu e casou para outra casa do Santo André. Um pouco melhor para poder dar espaço aos filhos que o casamento adivinhava.



Analfabeto, pobre, pé descalço, sem bens a herdar a não ser o que ganhava à jorna decidiu que havia outra vida para além da pobreza. Deixou o «Santo» e foi viver para a «Vila» numa modesta casinha encravada nas traseiras da Igreja de Misericórdia. 



Foi aqui que nasceu o seu filho, segundo do casal depois de uma filha nascida, ainda, no Santo André.



Um dia o filho, ainda antes do tempo da ida à Escola mas mesmo à justa no ano em que devia ter começado - por isso entrou um ano depois - deslocou o fémur numa qualquer brincadeira de criança. Entretanto mudara já para uma casa, com melhores condições, no Fundo da Rua. Sem que a criança pudesse andar normalmente, vivia a coxear, foi-lhe dada como que uma sentença final: nada havia a fazer... tinha reumatismo. Viveria a sua existência a mancar. Após meses, condenado a uma vida como entrevado, o Ti Manel Texêra, analfabeto decidiu que o filho não seria um inválido. Se ele conseguiu sair do destino que o Santo André lhe reservava na pobreza, o filho também conseguiria desviar-se do destino a que os médicos desinteressados e com outras ocupações, que iam à Vila o condenaram, a mancar uma vida. Sem saber ler, nem escrever, depois de ver o filho, em esforço, a coxear, pegou nele de tronchas ("às costas") apanhou transporte para um comboio e foi a Coimbra! À procura do doutor Moura, importante médico no Hospital de Coimbra, nascido em Montalvão. O Ti Texêra, um homem analfabeto que só conseguia contar as estações mas não sabia ler onde estava. Não é de crer que, em Montalvão, muitos alfabetizados, até letrados, a tal se dispusessem! Em Coimbra, o diagnóstico foi feito: não era reumatismo, era o fémur... deslocado! Chegou passados três dias, a Montalvão, com o filho, ao seu colo, engessado da cabeça aos pés e eis que passados seis meses acamado - no final a mãe, Xá Marí Jaquina, colocava-o nos degraus da escada obrigando-o a gritar enquanto fazia funcionar, de novo, as articulações - a criança voltava a andar. Normalmente como os da sua idade. 



Acompanhou o pai, depois, a singrar na vida. 

 

A fazer carvão, a tirar cortiça, a apanhar azeitona, em Montalvão e arredores e na Beira Baixa, do Ocreza ao Pônsul.

Fotografia de Artur Pastor

Acabou a morar numa casa que sendo de uma família pobre tinha dimensão e qualidade como a dos Lavradores com criados. Talvez o melhor edifício de um pobre de Montalvão equiparada às casas de alguns "ricos".




O filho retirado à invalidez de uma vida pela coragem e sábia decisão de um pai analfabeto, fez o que tinha que fazer:

Em Montalvão estudou
Na Beira Baixa com o pai trabalhou
Em todo o lado o pai ajudou
Na tropa muito marchou
Na Índia telegrafou
Na Matriz da Vila casou
Em Ficalho fiscalizou
Na Figueira da Foz cavou
Filhos criou
Em Lisboa muito labutou
A todos tudo possibilitou
Desta vida se libertou
A morte levou
Tudo porque o pai ao destino o resgatou 

Montalvão também tem destes heróis. Os heróis improváveis e desconhecidos como o Ti Texêra!

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